
O FEIJO E O SONHO

Orgenes Lessa


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O FEIJO E O SONHO

Orgenes Lessa


Editor da Srie
Fernando Paixo

Capa e ilustraes
Daisy Startan

Projeto grfico
Ary Noronha

Diagramao
Regina Iamashita

Superviso grfica
Ademir C Schneider

Suplemento de Trabalho
Marina Appenzeller

ISBN 85 08 01761 8

1993

Todos os direitos reservados pela Editora tica S. A.
R Baro de Iguape, 110 - CEP 01507-900.
So Paulo SP.



UM ESCRITOR DE MUITAS FACES

    Orgenes Lessa nasceu em Lenis So Paulo a 12 de julho de 1903. Seu pai, Vicente Themudo Lessa, foi uma das pessoas que mais marcou a sua vida por sua bondade 
e tolerncia. A figura de sua me traz-lhe recordaes significativas da infncia, o perodo de doena, o medo de que ela morresse e, finalmente, a sua morte. Orgenes 
Lessa viveu durante algum tempo com a famlia, em So Lus do Maranho. Em 1912 regressa a So Paulo onde freqenta - de forma irregular por causa da doena - a 
Escola Paroquial o Colgio Evanglico e o Ginsio do Estado
    A partir da leitura de A ....(ilegvel).... aos dez anos, passa a ter um contato regular com os livros Participou em vrios jornaizinhos de colgio chegando 
a fundar um - O Beija Flor. Esta atividade contribuiu para sua formao de escritor. Em 1928 muda-se para o Rio de Janeiro aps ter passado um perodo em um seminrio 
de Teologia. Nesta poca ingressa na Escola Dramtica onde e aluno de Coelho Neto e Joo Ribeiro, entre outros
    Sua primeira obra, O Escritor Proibido - um livro de contos - e publicado em 1929 e tem boa acolhida da critica Em 1931 ano de seu casamento comea a trabalhar 
em publicidade e jornalismo torna-se colaborador do Dirio da Noite e da Folha da Manha
    Participa da revoluo de 1932 e quando de sua priso na Ilha Grande escreve No H de Ser Nada
    Seu primeiro romance, O Feijo e o Sonho, publicado em 1938, teve ampla repercusso recebendo o Prmio Alcntara Machado e tendo sido adaptado para a televiso
    Orgenes Lessa obteve alguns prmios com sua vasta obra: Rua do Sal, romance biogrfico, recebeu o Prmio Carmen Dolores Barbosa, A Noite Sem Homem, o Prmio 
Fernando Chinaglia, Evangelho de Lzaro, o Prmio Luiza Cludia de Souza, do Pen Clube do Brasil. Muitos de seus contos foram traduzidos para o alemo, polons, 
tcheco, rabe e espanhol e trs de seus trabalhos foram adaptados para o cinema.
    Faleceu a 13 de julho de 1986, tendo acabado de completar 83 anos.

OBRAS DO AUTOR

O Feijo e o Sonho - Joo Simes Continua - A Escada de Nuvens - Napoleo Ataca Outra Vez - Confisses de um Vira-Lata - A Desintegrao da Morte - O 13. Trabalho 
de Hrcules - A Cabea de Medusa - O Minotauro - Dom Quixote (resumo para a juventude) - Memrias de um Cabo de Vassoura - O Baro de Mnchausen - O Palcio de Circe 
- Napoleo em Parada de Lucas - Aventuras do Moleque Jabuti - Memrias de um Fusca - Os Homens de Cavanhaque de Fogo - A Floresta Azul - As Letras Falantes - Juc 
Jabuti, Dona Lencia e a Superona - Procura-se um Rei - As rvores Aflitas e A Multiplicao Milagrosa - Chore no, Taubat... - O Mundo  Assim, Taubat - Cachorro 
sem Nome - Rei, o Profeta e o Canrio - Podem me Chamar de Bacana -  Conversando que as Coisas se Entendem - Alegres Desventuras de um Relgio de Pulso - A Greve 
das Bolas.


Trinta anos depois... (prefcio  7a. edio)
        
        Foi em So Paulo, no ano de 1938.
        Em cima da minha mesa, na redao do Jornal da Manh, que Octvio Mendes Cajado dirigia, havia um livro, chegado minutos antes, que eu, na condio de cronista 
literrio, devia ler e sobre ele opinar.
        Aproximando-se da velha secretria, desordenada e confusa, um colega de trabalho apanhou o volume, girou as pginas na ponta dos dedos, correu os olhos por 
uns tantos trechos e, em seguida, com certa displicncia, se no desprezo, atirou-o em meio a folhas de papel, tesouras, giletes, vidros de goma arbica  parafernlia 
muito utilizada pelo jornalismo de minha mocidade  e demais coisas esparramadas ao redor do minsculo retngulo livre em que eu escrevia. Disse-me, ento, com uma 
ponta de azedume e um ar de infinita sabedoria e experincia:
         Com esse ttulo, esse livro no vai fazer carreira. Pode ser timo, nem duvido que seja. O autor parece talentoso, tem bons dilogos, j o percebi num 
relance. Mas, preste ateno no que lhe digo: ningum l um romance com esse nome. Vai ser um fracasso, tome nota.
        O livro era O feijo e o sonho, de Orgenes Lessa.
        Nunca ouvi, em matria de edio, vaticnio mais errado. O romance foi um xito invulgar  mais invulgar ainda se se pensa nas limitadas condies intelectuais 
e editoriais da poca na provncia de So Paulo. O primeiro xito de um escritor, nesse tempo, era encontrar editor.
        Logo O feijo e o sonho arrebataria o prmio Antnio de Alcntara Machado, da Academia Paulista de Letras, o primeiro que a instituio patrocinava. No 
houve crtico ou colunista literrio que a ele no se referisse. Mais: escapuliu, quase que imediatamente, da rea da literatura, para invadir outros setores da 
informao jornalstica. Artigos de fundo, sueltos, tpicos, comentrios, reboques, leads, cabealhos de telegramas, manchetes do noticirio esportivo, notadamente 
o relativo ao futebol, ou alusivo  carestia, apareciam, nos jornais do tempo, em So Paulo e nos outros estados, com o ttulo O feijo e o sonho.
        O romance comeou com uma tiragem de dois mil exemplares  o mximo que se fazia, ento, para autor nacional novo, mas j de alguma reputao  e, ao longo 
dos anos, com esta edio que agora se apresenta ao pblico, foi sete vezes lanado no mercado. Numa delas com a tiragem de quarenta mil exemplares, integrando a 
Coleo Saraiva, que, em 1949, eu dirigiria, permita-me a vaidade desta auto-citao profissional.
        Que trabalho me deu O feijo e o sonho, naquela coleo! Srie de livros vendida a preo baixo e por assinatura, anunciada como de leitura familiar  penetrando, 
assim, em todos os lares  houve da parte dos seus forados consumidores vasta e forte onda de protestos contra as ousadias do autor: um realista  imaginem  descrevendo 
cenas de parto e outras imoralidades. Especialmente do interior de So Paulo e dos recantos mais atrasados do pas, onde um clero, ento obscurantista, exercia sua 
eterna vigilncia, partiam as reclamaes mais veementes. Tudo porque, na trama do romance, um padre era acusado de relaes equvocas com crianas paroquianas. 
Os leitores apaixonados  alguns talvez pobres criaturas que pela primeira vez liam um romance  nem sequer reparavam que se tratava de caluniosa intriga engendrada 
por um personagem de muito mau carter.  editora chegavam cartas malcriadas ou pessoas irritadas, e retornavam tambm volumes e mais volumes, uns oito mil, se no 
me falha a cansada memria. Mas, em breve, tudo se amainou, os exemplares devolvidos tiveram outros compradores. O episdio d bem a dimenso da poca, do acanhamento 
de certas zonas brasileiras e mostra quantos tropeos autores e editores tinham  e tm ainda  que vencer para difundir o seu produto.
        Porm, enquanto isso ocorria, o romance era lido pelo Brasil inteiro, especialmente pela juventude e pelo adquirente de menores posses, o homem pobre do 
nosso pas: a brochura  pasmem  custava dez cruzeiros velhos. Orgenes, que  viajador incansvel, e conhece a sua terra de ponta a ponta, onde chegasse, fosse 
grande centro ou modesto rinco, tinha o seu nome conhecido:
         O senhor  o autor de O feijo e o sonho?
         Sou, sim.
         Eu li o seu livro.
         J sei, na Coleo Saraiva, no foi?
        Tinha sido. O malsinado voluminho barato cumprira a sua misso.
        Ah! O perigo dos vaticnios: esse romance que no faria carreira, nas suas sete edies, totalizaria quase setenta mil exemplares, no Brasil, e mais doze 
mil no seu lanamento romeno, que se esgotou em quinze dias. Algum dir que  pouco  e eu contradirei que  muito. Rebusque-se na memria quantas obras nossas 
de fico conseguiram tantas reedies, e quantas, tambm, resistiram a trinta anos de consumo? Quantas, ainda, sadas juntamente com a fbula de Orgenes, no ficaram 
mofando nas prateleiras das livrarias e dos sebos ou acabaram, depois de guilhotinadas, vendidas como aparas aos papeleiros? Trinta anos de consumo em diversificadas 
edies  as comuns, as de bolso, a por assinaturas  e em adaptaes para o rdio ou TV, uma delas realizada por Dias Gomes, o autor de O pagador de promessas. 
Nem sei como ainda no deu filme  a boa comdia de costumes que est faltando ao cinema nacional.
        O feijo e o sonho  a histria do intelectual de antanho  no romance Campos Lara , desligado das realidades cotidianas, vivendo na sua torre de marfim, 
onde preserva, egoisticamente, sua personalidade das mesquinhezas da vida; do intelectual que somente busca a beleza, que s aspira  bondade,  justia e aos grandes 
gestos e abstraes, resistindo,  sua maneira, aos envolvimentos com o que o procuram macular; do homem capaz de amar ao prximo, ao desvalido, de comover-se com 
os dramas alheios e de sacrificar-se para resolv-los, mas sem olhar para a sua prpria misria ou pobreza; do desambicioso que mal produz para sustentar a famlia; 
do artista que se compraz da companhia dos amigos, que se recompe nas tertlias estticas, que ama objetos de arte, as edies raras ou os vient de paratre que 
o informam das ltimas conquistas do esprito europeu; do escritor que, nada ganhando com os seus livros, se d por feliz e recompensado com os artigos elogiosos 
da crtica e faz jornalismo mais pela alegria de comunicar-se do que pela necessidade de tirar proveitos materiais do seu trabalho.
        Em contraste com Campos Lara, que  o sonho, Maria Rosa, encarnao do senso prtico da vida,  o feijo. O romance, todo ele,  a narrativa vivacssima 
do longo, dirio, constante e profundo desentendimento entre um e outro, entre marido e mulher, to antagnicos, mas to estreitamente unidos, apesar dos seus conflitos 
e choques. Maria Rosa  um Sancho Pana de saias e sombra do marido, um bbedo de iluses, pobre alienado que descobre, um dia, que a sua obra  toda a sua razo 
de ser  no ecoa mais nas novas geraes, exigentes de outras formas e animadas de outros objetivos, ansiosas de ousadias, pregando a modificao das idias e do 
prprio homem, marcadas pelas presses do contexto social e defensoras de ideologias revolucionrias. Mas a derrota no chega a Campos Lara, afinal um heri passivo 
mas resistente:  que o filho o procura com um poema de versos livres, linguagem nova, imagens febris, uma revelao inquietante de poeta, voltado para os problemas 
que eram a angstia da sua gerao. Campos Lara sabe ento que continua, que se perpetua, que se projeta num outro tempo, noutra hora e noutro mundo.
        Livro gil, dotado de um estilo lpido, bulioso e at mesmo trfego, fixando admiravelmente muitos modos do dizer coloquial  tem bons dilogos, j o 
garantira o fracassado profeta de 1938 , O feijo e o sonho  tambm o retrato do Brasil subdesenvolvido e desassistido, simbolizado no rbula Chico Matraca, parlapato 
e covarde; no ablico oficial de barbeiro; na botica onde se exerce a maldade, a perfdia, o diz-que-diz-que; o Brasil dos discursos empolados, feitos de lugares-comuns, 
vazios de idias; o Brasil oprimido dos homens frustrados que exaltam as potencialidades das riquezas da terra mas descrem do seu povo, a quem acusam de sub-raa 
ou consideram uma cambada de preguiosos.
        Na sua aparncia amena, divertida,  contundente denncia   boa maneira dos humoristas  da triste condio de nossas mais amplas camadas sociais.
        Assim  O feijo e o sonho ainda nesta sua stima reencadernao. Assim  ainda  o que  mau  o Brasil que a est. Quase nada mudou. Buscou-se a mudana, 
mas ainda no foi possvel mudar.
        Para mim  deixem-me proclam-lo , a todos os seus valores, pessoalmente se acrescenta um outro: O feijo e o sonho  o exato ponto de partida de uma amizade 
discreta, mas firme, dessas que resistem a todas as armadilhas da vida. Comemoro neste prefcio trinta anos de fraterno bem-querer.
        Obrigado, Campos Lara. Obrigado, Maria Rosa.
        
        Rio, 21-04-1968.
        Mrio da Silva Brito
         
1
        Todos os dias aquela misria... Maria Rosa estava de p s cinco da manh. Havia que pr a casa em ordem, arrumar a sala de aulas, preparar o caf, lavar 
os pequenos, vesti-los, passar roupa - tenho um servio de negra! - e acordar o marido. Era o mais difcil.
         Por que no deita mais cedo, seu tranca? Fica lendo feito idiota at no sei que horas, ou dando prosa com esses vagabundos, e depois, quando tem que fazer 
alguma coisa, pega no sono que nem Cristo acorda!
        E resmungando e imprecando, vassouro aqui, pano molhado ali - no mexa a, menino! - Maria Rosa continuava a peleja.
         Parece que eu ca da cadeira, no dia em que fiquei noiva desse coisa -toa! Pra ter esta vida! Pra passar vergonha!
        Arrumou uma toalhinha de croch no aparador humilde.
         Largue esse copo, Joozinho! Largue j! Largue, estou dizendo!
        E ameaadora, para o garoto lambuzo que sorria feliz:
         Menino! Menino! Ponha j o copo na mesa! Olhe o que estou dizendo!
        O pequeno continuava a negacear o corpo, o copo muito sujo, uma das mos mergulhada na gua.
         No molhe o cho, criatura! A gente vive feito uma burra, tentando limpar a casa, vem um coisinha desses emporcalhar tudo! Voc apanha. Joozinho! Traga 
o copo aqui!
         Eu quelia beb gua!
         No quer beber coisa nenhuma. Voc quer  chinelo! Venha c!
         A sinhoia bate na gente!
         No bato! Venha aqui direitinho, me entregue o copo, que a mame no bate.
         Eu sei que a sinhoia bate!
         No me enjerize, criatura! Voc apanha j!
         Eu no disse? A sinhoia qu  bate na gente... Maria Rosa avanou para o filho:
         Me entregue o copo, menino! Olhe que voc ainda vai quebrar esse copo!  o nico que tem na casa! Vamos! Vamos! No quero brincadeira! Ah! demoninho dos 
infernos! Me molhando a casa toda! Deixa estar que eu te pego!
         Mame, mame! Olha a Irene! Era do quarto vizinho.
         A Irene t puxando o cabelo da gente! As duas meninas surgiram  porta.
         No estou, mame, foi ela que comeou!
         No comecei nada, mame, foi ela que me xingou de peste!
         J para o quarto! Todas duas de castigo! Vocs s prestam pra perder a cabea da gente!
         Mas eu no fiz nada! gritou Anita.
         No quero conversa! J para o quarto! As duas! Anita no se conformou.
         Ela que provoca e a gente  que vai de castigo!
         No quero choro! Cale a boca! Seno, alm de tudo, voc ainda entra no chinelo!
         Ahn, mame... a culpa  dessa cara de rato!
         Rato  voc, sua pamonha!
         Pamonha vai ela!
        Maria Rosa agarrou as duas pela orelha.
         Quietas! No atormentem o juzo dos outros! O choro recomeou. Ameaas. Gritos.
         No me amolem a pacincia, que eu j ensino vocs. Olha que eu chamo seu pai!
        Ergueu a voz para o quarto grande.
         Juuuca! Juuuca! Venha ver estas crianas! Voltou-se para as duas:
         J! De p, a no canto! Foi bater  porta do marido.
         Juc! Seu dorminhoco! Seu preguioso! Voc no levanta? Venha ao menos dar um jeito nos seus filhos, que eu no posso mais! Venha cuidar das suas obrigaes! 
 quase meio-dia!
        E ouvindo o tilintar do copo quebrado:
         Ah! cachorrinho de uma figa! Deus que me perdoe, mas eu no sei por que  que fui botar esses porcarias no mundo!
        Agarrou o pequeno pelo brao.
         Pestinha! Eu no tinha dito que voc quebrava o copo? Nunca vi menino mais insuportvel! Desbriado! Reinador!
        Cobriu-o de palmadas.
         E no quero choro, ouviu? Abriu a boca, apanha mais!
        Olhou a mais velha.
         O que  que voc est fazendo a, feito no sei o qu? Vamos! V trabalhar. V buscar a vassoura! Passe a vassoura na sala, que eu no sou negra de ningum, 
no estou pra trabalhar sozinha!
         Mas eu estou de castigo!
         Ah!  assim, no ? Quer ficar de castigo pra ver se no precisa fazer nada, pois no? Eu j mostro pra que  que foi feito o rabo de tatu!
        A menina tratou de raspar-se.
         Eu vou buscar a vassoura, mame. Arre! A senhora nem d tempo da gente pensar...
        E solcita:
         Quer que espane os mveis?
         Espanar com o qu? S se for com o seu nariz! Voc no sabe que o Joozinho jogou ontem o espanador no poo?
        E voltando-se para o quarto onde o marido devia roncar:
         Tambm, esse moleiro do seu pai no presta nem pra tirar um espanador do poo...
         Mas  fundo, mame.
         Funda  a pouca-vergonha de vocs todos. Saiu tudo da mesma massa do pai. Cada qual mais sem prstimo!
        Arrumou uma cadeira de palha, deu um peteleco no Joozinho, que enfiara o dedo no nariz, e estourou com a Irene:
         E voc, o que  que est fazendo a, que no vai dar um chacoalho em seu pai, que j est na hora da aula?
        A menina correu para o quarto. Juc surgia  porta nesse momento, o suspensrio cado, arrastando o chinelo.
         O que  isso? - perguntou com voz descansada e distante. - Que gritaria  essa? Parece que o mundo vai acabar!
        Maria Rosa ps as mos nas cadeiras.
         Acaba. No duvido muito! O que duvido que acabe  a sua pouca-vergonha!
         
2
        Juca voltou do quintal poucos minutos depois, a escova de dentes e o sabonete na mo, o cabelo caindo na testa, procurando a toalha.
         Por que no levou antes? Pelo menos no molhe o cho, criatura! J no chega a porcariada que as crianas fazem, vem voc tambm! Arre, que inferno, minha 
Nossa Senhora! A escola j no d mais nada! Os pais esto tirando os filhos! Que voc no sabe ensinar, que voc no liga, que a escola  um relaxamento. S ficam 
os que no pagam. A gente que viva de brisa! E eu que me arrume, se no quiser que as crianas morram de fome! S me falta sair por a pedindo esmola!
        O marido no respondeu.
         No enxugue as mos a, homem! No v que isso  toalha de mesa?
         Est bem, est bem, Rosinha. No  preciso tambm zangar por uma coisa dessas...
        Quis ser til:
         Olha o Joozinho mexendo no aucareiro. Maria Rosa voou para o menino.
         Eta criana desesperada! Deu-lhe dois ou trs tapas na mo.
         Largue da, menino! Parece que tem lombriga! No h acar que chegue! Eu nunca vi! Nem formiga!
        E entre nova ameaa ao filho e a entrega da toalha ao marido:
         Nem sei por que milagre o senhor Do conseguiu reparar nos malfeitos do filho! Voc vive sempre no mundo da lua!
        Sorriu irnica, chanfrando-lhe no rosto o supremo sarcasmo do seu estoque:
         Com certeza no estava precisando de rima, dessa vez...
        Gritou para dentro:
         Anita?
         Senhora?
         Traga o caf, a tigela e o po, que seu pai tem que ir dar aula!
         Sim-senhora!
         Traga j, seno os meninos vo embora. Eles j esto cansados.
        Levou as mos  cabea.
         Ih! Meu Deus! Esqueci de pr o feijo no fogo. Correu para a cozinha - nem palito de fsforo a gente tem nesta casa! - pegou o caldeiro - me traga 
um balde de gua, Anita! - soprou carvo longo tempo, reapareceu na sala de cadeiras de palha, limpando a mo no avental.
         Eta homem descansado, minha Nossa Senhora! Nessa marcha, ns acabamos milionrios,  capaz at do Z Barriga comear a fiar outra vez...
         Mas, Rosinha - falou o marido - voc precisa ter um gnio mais calmo...
         Eu sei!  s para o que voc presta. Gnio mais calmo! Como se eu pudesse viver despreocupada com esta vida. As crianas cobertas de trapos, eu sem vestido 
pra sair, carne, quando Deus  servido, aougueiro mandando cobrar todo dia, vendeiro dizendo que no fia mais, a vizinhana falando, a vila toda metida na vida 
da gente, e essa escolinha a, que voc no sabe dar jeito...
         Como no sei, criatura? As crianas esto progredindo ... No viu o Haroldo? Esse menino  um talento... Eu nunca vi uma inteligncia to viva, to precoce 
... Esse menino vai longe...
         S se for sozinho... Com voc, eu duvido!
         Mas, Rosinha, voc precisa ser mais cordata, ter mais esprito de justia... Eu fao o que posso...
         Menos acordar na hora, no ? Faz meia hora que as crianas esto esperando que o professor se lembre de deixar a cama... os braos de Morfeu, no ? - 
como voc diz nos seus versos...
         No diga isso, meu bem - falou o marido afastando a tigela e enxugando os lbios com a costa da mo que era ainda o guardanapo mais barato.
        E sorrindo:
         Desafio voc a encontrar em qualquer livro escrito por mim referncia aos braos de Morfeu...
         De Morfeu, talvez no, mas de quanta vagabunda aparecer...
        Juc achou graa:
         Voc  impossvel, Maria Rosa. E outra vez servial:
         Olhe, o Joozinho est fazendo pipi embaixo da mesa.
         E por que deixa? A culpa tambm  sua... Por que no agarra ele pelo brao, no d uns petelecos, no faz alguma coisa?
        O professor obedeceu.
         Joozinho, venha c, meu filho. A mame j no disse tantas vezes que voc no devia fazer pipi no cho? Seja bonzinho, ouviu? No suje a casa. Olhe que 
ela tem tanta coisa a fazer, tanto trabalho, e vocs vm atrapalhar a coitada...
        Maria Rosa, que enxugara a tigela e passava o pano pela mesa, tirando os farelos de po, irrompeu:
         Bonita maneira de educar. Uma criana de trs anos entende, mesmo, um sermo desses... Criana entende  puxo de orelha, ouviu? V, pelo menos, buscar 
um pano, enxugue o cho.
         Ora, minha filha, eu no posso... Sei l onde  que voc esconde os panos de limpeza... E depois a classe est esperando...
         T bem. V, v... No amole.  melhor assim. E enquanto limpava o ladrilho alagado:
         Seno, com esse ar de fora do mundo, ele ainda era capaz de limpar a mijada com a toalha da mesa ou com a colcha do casamento...
         
         
 3
         Voc trouxe a composio, Haroldo?
         Trouxe, professor. 
         Deixe ver.
        Juc, alis Jos Bentes de Campos Lara, Campos Lara tout-court, como era conhecido nos meios literrios, tinha especial predileo por aquele garoto vivo, 
inteligente, de sensibilidade aguda, verdadeira vocao para as letras.
        Como  que a classe h de ir por diante7 Nem o livro de chamada voc sabe onde est.
        Recebeu a composio. Ia comear a leitura, quando se lembrou.
         Ah! sim, vamos fazer a chamada.
        Tocou a procurar a caderneta. Na gaveta no estava. Entre os exerccios da vspera, tambm no.
         Algum tirou a caderneta daqui? Gritou para o interior.
         Maria Rosa, voc viu a caderneta?
         Que caderneta? A da venda?
         No, mulher, a da classe. Desapareceu da minha gaveta.
        Maria Rosa apareceu.
          isso. Como  que a classe h de ir por diante? Nem o livro de chamada voc sabe onde est. Olhe ali: no  aquele?
        Estava embaixo de um mao de provas, numa carteira desocupada, ao fundo. Entregou a caderneta ao marido, retirando-se.
         Dez horas, e nem a chamada est feita. Juc arrumou os culos, grave e professoral.
         Antnio da Silva Leme.
         Presente.
         Jos Lima.
         No veio.
         Lus Cardoso.
         Est doente.
         Joo Gomes.
         Est na fazenda de seu Chico.
         Sebastio Silva. O garoto quieto.
         Sebastio Silva! Silncio.
         Bastio!
         Senhor?
         Voc no veio?
         Vim.
         Ento por que no responde  chamada?
         Presente!
         Voc precisa prestar mais ateno! - Sim, fess.
         Por que  que no veio ontem?
         Eu se esqueci.
         O qu? Esqueceu o motivo?
         Esqueci que tinha lio. Juc sorriu.
         Bom sistema. Para outra vez, se faltar por esquecimento, zero no fim do ms.
         Sim, fess.
        A chamada continuou. Trinta por cento apenas comparecera. Juc no deu pela histria.
         Vamos ver o seu trabalho, Haroldo. Qual  o tema?
         O amanhecer.
         No. No quero essas descries sem interesse. Faa coisa sua. Escreva o que sente, o que v. Nada de imitar essas velharias. Olhe aqui: Erguia-se o sol 
na fmbria do horizonte. Isso  horrvel, meu filho. No h quem no tenha dito isso at hoje. Ih! No! Isso no serve. Essa histria de galos cantando, galinhas 
cacarejando, gado mugindo, cavalos rinchando, trabalhadores seguindo para a roa, isso  muito velho. Bom, aqui est uma observao mais sua. As galinhas pulando, 
para catar comida, para procurar vermes na barriga das vacas...
        Lembrou-se de que a classe estava sem servio. Dirigiu-se para a pedra. Passou uma longa conta de multiplicar que os distrairia por meia hora, pelo menos.
         Vo fazendo essa conta. Quero muita ateno. Quero ver quem  que consegue fazer sem um erro, ouviram? Sozinhos... Nada de fazer perguntas. Dez para quem 
acertar.
         Fess, eu ainda no estou em multiplicar. Estou em soma - disse o Bastio.
         Est bem. Vou passar uma conta para voc. Encheu a pedra de vinte ou trinta parcelas.
         Vamos ver se voc  capaz de fazer a soma bem direitinho, ouviu? Se acertar, dez. Mas no comece a me fazer perguntas. Seno, no tem valor...
         Sim, fess. Mas eu no sei quanto  oito mais nove.
         Sabe, sim.
         Eu j se esqueci...
         Ento procure na tabuada.
         Posso olhar?
         Pode.
         E se eu fizer certo, o senhor me d dez?
         Dou.
         Eta vida! Assim eu posso ir no circo... Mas o senhor conta pra mame?
         Conto. Se no me fizer mais perguntas. Quero ver se voc  capaz de trabalhar sozinho.
        O pretinho comeou a copiar os nmeros, molhando o lpis na boca.
         Ih! meu filho, no me compare mais rio com fio de prata! Isso  um lugar-comum vergonhoso! Voc precisa buscar imagens novas, suas...
         
         
4
        Maria Rosa veio avisar.
         Pode soltar os meninos. T na hora do recreio. Venha almoar.
         Podem sair, meninos.
        Uma algazarra encheu a sala. Livros, cadernos pelo ar. Gritaria. Vivas. O Quinzinho saiu fechado para cima do Jonjoca.
         Agora tu me paga, torresmo derretido! Quem  que  burro?
          voc!
          a me!
         A sua!
         Xingamento de me eu no consinto!
         Voc me xingou primeiro!
         Mas eu xinguei foi voc, no foi a me!
         Mas me xingou,  o mesmo que xingar a minha me. Se eu sou burro, o que ela ?
         A me!
        A classe caiu na gargalhada. Os dois se agarraram. Cabelo puxado, mordidas, cuspe na cara.
         No vale cuspir!
         Cuspo, sim! Voc puxou o meu cabelo!
         E voc me mordeu! Os outros atiavam.
         A! Pega! Esfola! D na creca dele! A, Jonjoca! Senta a mo na nuca, Quinzinho.
        Campos Lara veio ver o que era. Apartam-se os combatentes. Os dez ou doze garotos emudecem.
         Que foi? Que barulho  esse? Ningum respondeu.
         O que foi, Haroldo?
         Eu no reparei, professor...
        Campos Lara gostou da discrio do aluno predileto.
         Era voc, Quinzinho?
         No, fess, foi o Jonjoca que tava enjerizando a gente.
         Enjerizou por qu?
         Me xingou na aula, eu fui tomar satisfa...
         No  satisfa que se diz, menino.  satisfao...
         Pois . Ele amolou eu, eu fui v se ele sustentava...
        Jonjoca pulou para se defender.
          mentira, fess. Ele  que vve...
         Vve, no, vive...
         Pois . Ele  que vive inticando com a gente. Eu chego na aula, antes do senhor chega, ele comea com provocao. Hoje, o Quinzinho pinchou tudo quanto 
era caderno meu no quintal.
        Campos Lara ficou srio.
         Venha c, Quinzinho. Est certo o que ele disse?
          tudo mentira. No foi assim.
         No  isso o que eu pergunto. Est certo o que ele disse?  pinchar, que se diz?
        Quinzinho embatucou.
         No sabe, no ? Pois em vez de estarem aqui brigando, vo para a classe estudar.
        Abriu o livro de leitura, escolheu a lio mais longa, e mandou-os que a ficassem copiando durante o recreio.
         Letra boa. Bem caprichada. E se tornarem a brigar, ficaro de castigo depois da aula, por duas horas.
        Lanou um olhar srio sobre os garotos compungidos.
         Tire o dedo do nariz, Bastio. Isso  muito feio. E para a classe toda:
         No  pinchar que se diz,  jogar, atirar, lanar...
         
         
5
        Campos Lara veio sentar-se  mesa, preocupado, serviu-se, ficou a tamborilar, distrado, com os dedos na tigelinha dgua. O ltimo copo fora-se.
        Maria Rosa observava-o, na sua atitude permanente de combate. 
         Voc no come?
         Hein?
         No quer almoar?
         Quero. J vou. As crianas no vm?
         J comeram. Ento voc acha que elas iam perder um banquete destes?
        E recitando, mordaz, um dos pecados da mocidade do Juc:
        Luculeo,  mesa oppara, os convivas num gape festivo congregara...
         Por favor, Rosinha! No me venha com isso. Ainda mais, com esse livro horrendo...
         Pois oua:  o que eu mais aprecio! Voc descrevia tantos banquetes, tantos palcios, tanto luxo, tantos tapetes orientais... que eu me esqueo do feijozinho 
sem carne...
         U! Voc no comprou carne hoje? Por qu?
         Quem sabe se o seu doutor me deu dinheiro, no? Voc pensa que carne de aougue  como a carne de Clepatra, que voc pode usar  vontade, quantos quilos 
queira?
         Mas voc podia tirar na conta...
         Na conta... Boa idia... Isso se a gente tivesse...
         Mas ns temos conta no Benoni...
         Temos. A pagar. Trs at. De julho a setembro... Todo dia ele manda lembrar...
         Mas ento ns no pagamos?
         Pagamos. A de junho.
         Eu no sabia...
         No sabia? No se faa de santinho. Todo dia eu aviso...
         Pois , mas a gente tem tanta coisa em que pensar. ..
         Um homem to ocupado, pobrezinho...
         Ocupado, sim-senhora...
         Eu sei... Em fazer versos... E estourando:
         Mas quando  que voc h de abrir os olhos, criatura? Voc no poder, pelo menos pra variar, sair do mundo da lua, cair na realidade, no feijo duro? 
Olhe, o feijo est esfriando. Coma, pelo menos...
         J vou.
         Voc precisa compreender, Juc, que ns estamos num mundo diferente, que o aougueiro no se paga com versos...
        Campos Lara recomeou a tamborilar na tigelinha dgua. Estava se lembrando, com tristeza, da humilhao a que descera. Com o seu nome, com a sua sensibilidade, 
com seis livros publicados, ele chegara quele extremo... Doa. Era a suprema vergonha da sua vida. Fora pouco depois da publicao de Flocos de Espuma. A imprensa 
tinha falado largamente. Os crticos do Rio de Janeiro tinham-no proclamado o maior poeta da gerao, a mais alta expresso da poesia paulista, o paulista diferente. 
E vem da terra das bandeiras, das fazendas arrumadinhas de caf, do dinheiro onipotente, da ptria das mquinas, do paraso dos corretores materialistas, do homem 
imediatista, insensvel e frio, este poeta de sensibilidade estranha e nova, este revalorizador das foras espirituais, escrevera um crtico. E fora logo depois 
de Flocos de Espuma, num daqueles dias em que os seus poemas eram recitados por toda gente, quando chegavam  sua casa, dos confins do pas, cartas de louvor, pedidos 
de autgrafos, que ele, Campos Lara, sofrer aquele golpe doloroso. Sim, aquele portugueso estpido, aquele javardo, aquele filisteu sem entranhas, aparecera-lhe 
em casa, sorridente, embrulhado num avental sujo de sangue, do sangue de dois anos de aougue.
         Bom dia, doutor. Campos Lara encolhera-se.
         Bom dia. Eu... eu ia at procur-lo... O negcio do dinheiro...
        Mas o portugus fizera um gesto amvel. No. No tinha vindo por causa do dinheiro. Sim, o atraso era grande. Ele no costumava deixar atrasar mais de dois 
meses, o senhor compreende... A gente no se estabelece pra perder dinheiro. A carne est cara. No d margem. Na profisso ningum fazia dinheiro. Enriquecer? S 
roubando. Ele no roubava no, seu doutor. O peso dele era rigoroso. No notara? O senhor devia ter notado. O quilo dele tinha mil gramas, nem mais nem menos. Ele 
no usava peso falso. No era italiano. Italiano  que no tem vergonha. Italiano s apareceu para desgraar o Brasil. No viu como o Rebizzi, com aquele aougue 
indecente, estava se enchendo? Era capaz de acabar comprando automvel. Mas como? Ora que dvida, seu doutor! Roubando. Com o perdo do termo, roubando. Ento quilo 
de oitocentos gramas no era roubar? Ou muito se enganava, ou era uma pouca-vergonha. Mas ele no, graas a Deus. Graas a Deus tinha conscincia. Pediu carne de 
primeira, recebe carne de primeira. Pediu fil, vem fil. Pediu patinho, vem patinho. Colcho mole, colcho mole. E no carregava com osso. O senhor no tinha notado?
         Eu no reparo muito...
         Mas sua senhora deve ter notado. Mulher olha mais essas coisas.  natural, no , doutor? Mulher  para esses servios. Pra que  que a gente quer mulher? 
Pra olhar a casa, pra limpar, pra arrumar, pra no amolar muito. Eu c sou assim. Mulher no vem com muita besteira, que eu mostro logo o lugar dela. Fogo, ora 
essa! V temperar o caldinho, no me estrague a bacalhoada! O doutor faz muito bem. Mas pode perguntar  sua senhora. Osso, vem, est claro. O animal no  s de 
carne, infelizmente. Assim fosse... Mas no . Osso tem que vir. Mas em proporo, no acha? Eu no sou como o Rebizzi, isso no...
        Parou. Respirou. Ajeitou o gorro.
         ! diabo! O doutor me desculpe... E tirou o gorrinho, respeitosamente.
         Olhe, doutor, eu vou direto ao meu fim. Como j lhe disse, no  pelos trs meses. Eu sei que o doutor acaba pagando. Sei que  uma pessoa de confiana, 
no  desses sem-vergonhas que andam por a e que, alm de no pagar, ainda saem dizendo que portugus  burro. Burro  a me, com o perdo da palavra. Mas eu no 
vim aqui por causa da dvida. Pagando alguma coisa por conta, at o dia 15, est muito bem. Eu vou fornecendo...
         Muito obrigado.
         Mas, como ia dizendo, eu vinha lhe pedir um favorzito, que o doutor no me h de recusar...
         Pois no...
         Trata-se do seguinte, doutor. O doutor  poeta, no ?
        Campos Lara sorriu constrangido.
         Fao a uns versinhos...
         Qual versitos, doutor! Eu sei, eu sei. At outro dia eu vi um elogio no jornal, quando ia embrulhar a carne. Tinha o seu retrato. Eu at guardei. Contei 
 freguesia que o doutor era poeta. Estava um pouco atrasadinho,  verdade, mas que era um homem srio, l isso era! E olhe, seu doutor, eu gostei dos elogios. O 
jornal est l em casa, pra quem quiser ver...
         Obrigado...
         E foi por isso que eu vim incomodar o doutor...
         No  incmodo...
         Obrigado, doutor. Eu podia recorrer a qualquer outro. O senhor sabe que poetas no faltam. Eu podia pedir a qualquer vagabundo que me fizesse uns versitos... 
Mas eu no sou desses. Poesia, eu quero-a bem feita, por quem saiba faz-la...
        Campos Lara esfriou.
         E eu queria que o doutor me fizesse uns versitos de propaganda da casa.
        E diante da hesitao do poeta:
         No. No pense que vim me prevalecer da situao, doutor. Eu pago. Eu pago. Posso at descontar a na conta...
        Quis esquivar-se. No houve jeito. Conseguiu apenas que o portugus dispensasse a assinatura. No tem importncia, doutor, os bons versos sabe-se logo quem 
os faz!
        Pobre Campos Lara!
        Carne boa, de primeira, Para a janta e para o almoo, S a vende o Aougue Ceuta, Peso bom, quase sem osso...
        Era doloroso! Oito quadras nesse gnero.  tarde, o pagamento do homem: um quilo de fil bem pesado... Sbito, Maria Rosa levantou-se indignada:
         Coma pelo menos, criatura! Se no quer prestar ateno no que a gente diz, se quer fingir que no ouve, pelo menos coma! A comida est fria e eu no vou 
esquentar outra vez...
        Campos Lara ergueu-se atarantado, os olhos perdidos.
         No, hoje estou meio sem apetite. Por sinal que est na hora da aula... Quede a campainha, hein? 
         
         
6
        Acabara a classe havia muito. Juc no aparecia. 
         Quede seu pai, Irene?
        Sem deixar o bolo de terra, que estava enfeitando com palitos de fsforos, Irene - no me estrague o bolo, Joozinho, seno voc apanha! - informou:
         Est na sala, mame. Eu acho que ficou algum de castigo.
        Mania de deixar os meninos de castigo! S para dar amolao. Isso, quando Juc no vinha sorrateiramente ver se encontrava alguma comida, algum agradinho 
para consolar, principalmente quando se tratava do Bastio, um burrinho daquele, que no pagava nada - quase que s tinham ficado os caronas - e que Juc descobrira 
quase no ter o que comer em casa. Por gosto do marido, o negrinho viria almoar e jantar com eles. To fcil, havendo fartura...
        Foi ver. Estava o Haroldo. Ento o Haroldo tambm acabara dando pra vagabundo? Maria Rosa sorriu, vingada. O marido tanto gabava o talento daquele menino, 
elogiava-o tanto, que ela acabara embirrando.
         S pode dar algum coisa -toa... No d nada... Criana muito estudiosa d em droga, quando no acaba tuberculosa. No viu o filho de dona Generosa? Ficou 
at corcunda, de tanto estudar... Filho meu, eu prefiro que seja burro, contanto que preste para o trabalho, que saiba ganhar dinheiro, que no precise viver de 
esmola, devendo pra Deus e todo mundo...
        E com uma alegria interior, que os olhos e as palavras no escondiam, Maria Rosa festejou o acontecimento:
         O que  que houve, meu Deus? At o Haroldo est degenerando? Como  isso? No soube a lio?
         No - explicou o marido. - Eu estou dando umas lies particulares. Na classe, com a barulheira dos outros, no  possvel.
        A mulher fez um hum de quem entendera tudo.
         Garanto que est ensinando metrificao... Juc negou, desapontado.
         No. Ele  um pouco fraquinho em aritmtica.
        Ela se aproximou, inquisitorial.
         Deixe ver a conta. Quem sabe se eu posso ajudar. E leu alto, cortante e mordaz:
        Versos de sete slabas ou de redondilha maior: 
        Oh! que saudades que eu tenho 
        Da aurora da minha vida, 
        Da minha infncia querida 
        Que os anos no trazem mais! 
        Versos de oito slabas, acento na quarta e na oitava. 
        E o exemplo. Versos de nove, acento na quinta e na ltima. Versos de 10... Hendecasslabos, alexandrinos... Encarou, sria, o garoto:
         Oua, menino, aprenda a carpir caf, trate de saber qual  o tempo melhor pra plantar feijo... ou batata. Verso no enche barriga.
        E rudemente, para o marido:
          por isso que a escolinha no vai adiante. Voc j est desmoralizado como professor. Em vez de ensinar coisa que preste, - ler, contar, letra boa, - 
voc estraga os meninos. Todos os pais esto mandando as crianas para a escola pblica, porque voc no ensina coisa que se aproveite.
         Hein? Eu?
         Voc mesmo. Dona Generosa quando tirou o Bentinho disse a mesma coisa. Por gosto seu, voc transformava toda a molecada da vila em poetas, at o Bastio...
         Ora, Maria Rosa, no diga bobagem. Isso  s com o Haroldo. E nem sequer  na aula.  depois. Ele nasceu poeta.  uma vocao...
        Maria Rosa olhou para o garoto, desta vez com pena:
          srio?
        O menino sorriu, modesto. Campos Lara exaltou-se.
         Pode estar certa, Rosinha. O Haroldo tem escrito coisas notveis para a idade dele, para o meio em que tem vivido. Eu tenho dito sempre a voc. Falta tcnica, 
naturalmente, falta vocabulrio, mas isso  questo de tempo, de leitura. Voc quer ver uma poesia dele?
         No, obrigada. Chegam as suas. Poeta ns j temos em casa, graas a Deus...
        E saindo da sala:
          mais um pra passar fome.
         
7
        O que Juc lamentava, em Capinzal, era a falta de companhia. Pobreza, pouco lhe importava. Sempre fora pobre. Luxo, conforto, pouco se lhe dava. Nunca dera 
ateno a essas pequeninas misrias. Em seus sonhos de futuro e de felicidade nunca entravam os imediatismos da vida presente. Jamais comprara um bilhete de loteria, 
menos por pessimismo que por desinteresse. Fazer o qu, com dinheiro? S se fosse para adquirir aquela edio de luxo das Flores do Mal que vira numa livraria em 
So Paulo ou aquele grupo de marfim, maravilha de arte chinesa que remontava ao quinto sculo e pelo qual lhe tinham pedido a ninharia de seiscentos mil-ris. Passara 
meses com aquele tesouro a povoar os seus sonhos. E por um triz que no lhe ficara pertencendo. Ao receber os trs meses de ordenado que lhe devia o jornal, em So 
Paulo, sara correndo, com medo que o judeu do belchior o tivesse vendido. Felizmente So Paulo era uma terra de filisteus materiales. A jia era dele. Trmulo 
de emoo, levou-a para casa. Na festa da posse, chegou quase a mostr-la a mulher. Mas recuou em tempo. E trancou-se no escritrio humilde para contemplar o tesouro 
que j lhe merecera um poema e que lhe fervia agora no crebro, numa nova obra de arte. Sabedoria ...
        Encerras quinze sculos de sonho lavrado sutil das tuas linhas...
        Mas a esposa irrompera na sala e surpreendera-o a querer esconder, como um escolar colhido em falta, o objeto do crime.
         O que  isso. Juc?
         Nada...
         Nada? Ento deixe ver...
         No,  coisa sem importncia... 
         Mas deixe ver...
         Ora, uma coisa -toa...
        E mostrou-lhe o marfim.
         Comprou?
         Na... no...
         Presente?
         Hein?
         Estou perguntando se foi presente...
         No, por qu? Ela farejou a verdade.
         O jornal pagou?
         Como?
         Estou perguntando se o jornal pagou...
         Ah! sim...
         Pagou?
         Bom... O ordenado deste ms? Ns ainda estamos no dia 15. ..
         Eu sei. Estamos no dia 15. Mas eu estou indagando se o jornal pagou os atrasados...
         Ah! bem... Pagou parte. Eu j tinha tirado parte... Uma poro de vales...
         Ento me d o dinheiro...
         Mas... mas voc parece at que no tem confiana na gente... O dinheiro est aqui...
         D c. Eu tenho mais de trinta contas a pagar. Juc hesitou.
        Ela estendeu a mo, enrgica.
         Passe os cobres. Eu tenho o que pagar... Campos Lara meteu a mo no bolso, retirou algumas notas humildes.
         S isso? Esperam trs meses e s do isso por conta? Mas  uma pouca-vergonha! Eu vou l estourar com o doutor Sales! Isso  um desaforo! Foi s isso?
        E penetrando pelos olhos do marido:
         Quanto voc pagou por essa bugiganga?
         Por que  que voc quer saber? Vocs nunca do valor a essas coisas...
         Dou, dou... Quero saber... Campos Lara quis desconversar.
         A Irene j tomou a mamadeira?
         J.
         No tossiu outra vez?
         Tossiu. Est tossindo, no ouve?
         Ah!  mesmo... Coitadinha... Eu vou ver se ela acordou...
        Maria Rosa segurou-o pela manga.
         Vamos, Juc. Estou perguntando. S por curiosidade... O dinheiro  seu, quem ganha  voc. Faa o que entender... Mas eu tenho direito de indagar. Sou 
sua mulher...
        Campos Lara estava preocupadssimo com a tosse da filha. No seria coqueluche? No, podia ficar descansado... Mas pelo menos convinha comprar o xarope. Preparado 
de agrio, feito em casa, nem sempre adianta... Coitadinha da Irene!
        Como se no ouvisse a mulher falar, dirigiu-se, em pontas de ps, para o quarto comum, onde estava a pequena.
         Quanto, Juc?
         Psssiu...
        E fez-lhe sinal para que se calasse... No convinha acordar.. .
        Cada vez mais intrigada, j prevendo qualquer disparate do marido, Maria Rosa fincou p. Queria saber. Se ele tivesse dado mais de dez mil-ris, com aquela 
misria que andava pela casa, chegara a vez de explodir. Ainda na vspera o Juc lhe negara dinheiro - No tenho, o que  que voc quer que eu faa? - para um 
remdio de que a filha tinha urgncia. Agora, mal pegava uns nqueis, paf! Ia comprar uma inutilidade daquelas.
         Voc vai sair?
         Vou, vou dar uma voltinha. A janta est longe, no est?
         Est. Mas voc no podia dizer quanto pagou por essa estatuetinha?
         Estatuetinha? Voc tem coragem de dizer isso? Isto  uma obra-prima, uma maravilha!
         Sim, mas quanto pagou?
         Nem sei, uma coisa -toa...
        Ele j comeava a ter remorso. No era s questo de ponto de vista. De fato, tinha sido uma loucura. Eles no estavam em condies, nunca estariam, de empregar 
dez tostes, que fossem, em qualquer coisa extra. Tinham dvidas pelos cabelos. Faltava tudo em casa. Comida, roupa, remdio. O aluguel, atrasado. Continuavam de 
p dvidas feitas com o casamento, que no se pagavam, que cresciam sempre. Maria Rosa teria razo em zangar-se. Mas como fizera um disparate daqueles? Dera-lhe 
uma espcie de loucura, ao receber o dinheiro. Sonhara tanto com aquele marfim, desejara-o tanto, que no resistira. Sara correndo, trmulo, ansioso, assustado, 
 procura do belchior. O homem consentira sem dificuldade, ao ver o dinheiro, em abater cinqenta mil-ris. Mas ainda fora um despropsito. Procurava justificar-se 
a si mesmo, dizendo que o dinheiro cara do cu. No contava mesmo com ele. Os credores, que haviam esperado at agora, podiam esperar mais um pouco. De mais a mais 
tinha promessa de umas aulas no Colgio Bom Jesus. Com aquilo arrumaria a vida, poderia tocar o barco. Estavam pagando trs mil-ris por aula. Era alguma coisa. 
Seria uma boa ajuda. Talvez arranjasse, tambm, o lugar de correspondente do Correio da Manh. O Mendes tinha prometido ver se dava um jeito. O jornal no estava 
contente com o Pedreirinha. Seriam pelo menos uns cem mil-ris todo ms, afora comisses sobre os anncios conseguidos. No era preciso procurar. Sobre todos os 
anncios que aparecessem - o Correio era muito conhecido - teria comisso. O Mendes falara mesmo nuns quatrocentos ou quinhentos por ms. Era uma fortuna. E comprara. 
O diabo  que a Rosinha no concordaria. Mulher no compreende essas coisas. Mas Rosinha no precisava saber que o jornal lhe pagara. Pois ela no dizia, a todo 
o mundo, que o marido estava sendo roubado, que o jornal no pagava mesmo?
         
8
        Apesar de ser apenas diurno o seu trabalho de redao, Juc s reapareceu de madrugada. Nem viera jantar. Tinha ido ao jornal. O diretor pediu-lhe que traduzisse 
um artigo ingls sobre a situao econmica do Brasil em face da Argentina e a coisa se prolongara pela noite adentro.
        Eram trs horas. Campos Lara entrou pisando mansinho, para no acordar a esposa. Tirou a roupa cuidadosamente, conseguiu no deixar cair o sapato no cho, 
como de costume, e entrou, silencioso e sutil, debaixo da coberta.
         Ento, seu moo, andou pintando?
         Eu?
         Sim. So horas de chegar?
         Eu estive ocupado, Rosinha. Voc sabe que s vezes eles pegam a gente at tarde.
         Mas o seu trabalho no  de dia?
         Fale baixo, Rosinha. A Irene est dormindo.
         Pois que acorde, ora essa! Eu no pude ficar acordada at agora,  sua espera?
         Ora, meu bem, no era preciso. Eu j disse que voc no deve ficar preocupada. Vida de jornal  assim...
         Para os trouxas! Voc pensa que eu vou nos seus carapetes, que sou idiota?
         Mas ento voc acha?
         No acho coisa nenhuma! Acho que  um desaforo da sua parte! Eu no sou negra, para ficar aqui feito idiota enquanto o sinhozinho vai fazer das suas! Sai 
para dar uma volta, diz que vem jantar, e no aparece e nem avisa!
         Mas avisar como? Ns no temos telefone!
         Desse um jeito. O jantar ficou na mesa at oito horas. ..
         Eu jantei na cidade...
         Pra isso no falta dinheiro, no ?
         O diretor pagou. Eu jantei com ele...
         Voc esteve mas  em algum teatro!
         Teatro? Ora, Rosinha. Todos os teatros esto fechados...
         Pior ainda. As atrizes so piores fora do que no teatro...
         No venha com insinuaes, Rosinha. Fale baixo, olhe a Irene... Voc sabe perfeitamente que eu no vivo em pndegas...
         No sei, no... Mas eu s queria saber o que voc fez com o dinheiro do jornal...
         Eu no dei a voc?
         Quarenta e cinco? Voc recebeu s isso?
         No, mas...
        Pensando fazer ironia, Maria Rosa atalhou:
         Quem sabe se voc quer me dizer que gastou o resto com aquela obra-prima?
         Pois  a pura verdade!
         O qu?
          a pura verdade...
         Quanto voc pagou?
         Quinhentos e cinqenta...
         Qui... qui... Quanto?
        A mulher pulou na cama.
        Ento o senhor meu marido, pagou quinhentos e cinqenta bagos por uma estatueta de marfim
         O qu? Quanto?
         Isso mesmo.
         Quinhentos e cinqenta? Voc est doido, homem! Voc est doido! Eu no sou criana, no me venha com uma idiotice dessas! Quinhentos e cinqenta? Voc 
est louco! Isso nem graa tem!
         Foi... eu juro...
        Maria Rosa levantou-se, palpando no escuro, riscou um fsforo, acendeu o lampio, encarou o marido. Sombras enormes, incertas, brincavam pelas paredes, bailavam 
no teto.
         Voc, ento, gastou quinhentos e cinqenta com uma estatueta de gesso?
         De marfim, mulher.
         De marfim. Sim. Quinhentos e cinqenta... Tem graa. Ento o senhor meu marido, o milionrio Juc, o ilustre milionrio, pagou quinhentos e cinqenta bagos 
por uma estatueta de marfim...
        Sorriu, com um sorriso mal iluminado, cheio de sombras:
         Quinhentos e cinqenta! Ora, Juc, morde aqui... Quando voc quiser encobrir as suas patifarias, invente outra histria menos besta... Se voc me dissesse 
que tinha pago dez eu j estava pensando que era caso de hospcio... porque aquilo no vale nada...
         No vale nada?  porque voc no entende! Esse grupo vale pelo menos um conto de ris!
         Voc no vai dizer que pagou um conto, pois no?
         Se eu disse que foi s quinhentos e cinqenta...
         S?
        E dessa vez Maria Rosa acreditou.
         S? S quinhentos e cinqenta? Com o aluguel por pagar, com todos os fornecedores na porta, sem dinheiro para um xarope, eu sem roupa para sair, com o 
homem dos mveis mandando recado toda semana, sem comida, sem nada, voc joga fora quinhentos e cinqenta mil-ris como se fossem um tosto?
        Levantou-se em camisola.
         Olhe, Juc, eu tenho aturado todas as suas loucuras, todas as suas manias, todos os seus desaforos, mas agora  demais! Isso passa de todas as medidas! 
Basta!
        Avanou resoluta para o bero da filha.
          demais!
        Sacudiu a menina.
         Irene? Irene?
        A criana chorou. Embrulhou-a nas cobertas. Foi para o guarda-roupa, tirou um vestido, comeou a arrumar-se, atabalhoadamente.
         Onde  que voc vai, Rosinha?
         Voc vai ver j.
        Calou o sapato, jogou longe o chinelo.
         Basta! Basta! Isso nem tem classificao! Sim senhor! Quinhentos e cinqenta! Isso nem no hospcio! Quinhentos e cinqenta! Nem que fosse pilhria! No 
chore, menina! Que inferno, meu Deus! Voc apanha, Irene!
         Mas, Rosinha...
         Saia da, homem!
         Mas pense um pouco...
         Pense voc! Quem sabe se voc pensa que eu estou disposta a agentar este inferno a vida inteira! Quinhentos e cinqenta! Desaforo! De-sa-fo-ro!
        Atirou aos ps da cama o cobertor.
         Cale a boca, menina!
         Mas, Rosinha, eu no compreendo...
         Voc vai compreender...
         Mas onde  que voc vai a esta hora?
         Vou pedir esmola, ouviu?
         Mas voc est doida...
         Estou. Ou vou ficar... Na sua companhia, s ficando doida!
        Agarrou a filha.
         E passe bem, ouviu?
         Mas voc...
         Vou pra casa de papai, entendeu? Vou de uma vez para sempre. Chega! Chega! Cansei de aturar! Outro dia papai me disse que se eu quisesse podia viver com 
ele. Eu recusei. Tinha vergonha. Pois olhe: mais vergonha  continuar aqui!
         Mas, Rosinha...
         Que mas, nem menos mas... Chega! E saiu do quarto.
        Juc, em ceroula, acompanhou-a.
         Pense no que est fazendo, Rosinha. Pense um pouco. No  caso para uma coisa dessas. No tem propsito. So quatro horas da madrugada. Isso no  hora 
para voc sair de casa. Inda mais com a menina, que est doente. Veja o que vai fazer...
        Maria Rosa estava comeando a ver.
         Visse voc antes, primeiro. Voc onde  que tem a cabea? Agora agente as conseqncias!
        Tropeou numa cadeira. A menina recomeou a chorar.
         Olhe, Maria Rosa, pense na Irenezinha. Voc no pode fazer isso. Olhe, a tosse comeou outra vez.
         Agora voc ouve a tosse, no? Mas pra comprar um xarope no havia dinheiro. Dois mil-ris no havia... Mas havia...
        Acometeu-a um acesso de fria. Atirou a menina no bero.
         Mas havia quinhentos e cinqenta - quinhentos e cinqenta! - para essa porcaria! S estrangulando um idiota desses!
        Deu um pontap no cobertor.
         Quinhentos e cinqenta! Onde  que voc comprou isso?
         No... no Silver...
         Naquele judeu da Quintino Bocaiva?
         Sim.
         Pois olhe. Ou voc devolve essa droga amanh cedinho, a primeira coisa, ou eu saio daqui para sempre.
         Mas... mas devolver como?
         Devolvendo!
         Mas  impossvel A compra est feita!
         Pois desfaa!
         Mas  um absurdo!  uma operao comercial! Comprei, est comprado! Nem ele aceita devoluo.
         Pois de duas, uma: ou voc devolve, ou eu saio daqui...
         Mas  impossvel, Rosinha!
         Voc no vai, no ? Pois vou eu!
        Campos Lara parecia sob os escombros de um terremoto. Como  que no passava pelo crebro de Rosinha que compra era compra, que era vergonha, humilhao, 
absurdo devolver o objeto? Como  que podia escapar a todas as mulheres a noo das convenincias, do lugar das coisas, querendo que ele fosse fazer aquele papelo? 
Ou pior ainda, como  que tinha ela por ele to pouco respeito, considerao to pequena, a ponto de querer cobri-lo de ridculo, indo humilhar o seu nome, trat-lo 
como a um irresponsvel, procurando o judeu?
        No, ela no faria isso, pensaria melhor.
        E como Rosinha parecesse acalmar-se, indo  cozinha fazer um pouco de acar queimado para diminuir a tosse da criana, cansado, adormeceu. Acordou pelas 
dez horas. Notou, pelo ar triunfante da mulher, que algo de anormal acontecera. Acontecera mesmo. Ela salvara quinhentos mil-ris.
        No fundo, ele achou melhor assim.
         
         
9
        Sim, doa mais, naquele exlio, a falta de companhia. Com quem trocar idias. Com quem falar, Capinzal era um deserto. Havia a farmcia, onde  noite se 
reuniam os maiorais da terra, para os mexericos de sempre. Era conhecida por Bigorna. L se malhava, de rijo, na vida do prximo. A vendinha do Ribas, que gozava 
dos foros de bar, tambm reunia o seu grupo, espalhado pelos caixes de querosene. Duas cadeiras, apenas. Mas os fregueses tinham direito a sentar-se tambm nos 
sacos de feijo ou de arroz. O Ribas s no consentia que sentassem no de batatas.
         Batata estraga! Sente no de arroz. E orgulhoso:
          arroz de primeira!
        Fora disso, no havia conversa. E que tristeza! No se podia falar de um livro, no havia com quem comentar uma pea de DAnnunzio, a quem recitar um poema 
de Baudelaire ou de Albert-Samain. Uma terra incrvel. Os mais cultos chegavam a Olavo Bilac, a Vicente de Carvalho, a Amadeu Amaral, mas atravs de versos transcritos 
nos almanaques distribudos pela Bigorna, o do Elixir Lemos, o do Cura-Tosse, o de um poderoso antilutico popular em todo o pas.
        Quando chegara a Capinzal, iludira-se com Chico Matraca, o advogado da vila, rbula ativo e malandro, que o saudara na inaugurao da escolinha.
         Agora tem-se com quem conversar - dissera o Matraca. - Isto aqui  uma terra miservel. Uma gente ignorante, embrutecida, cretinizada. Ou se fala da vida 
alheia e da prxima safra de caf ou de milho, ou a lngua enferruja.  um horror, meu amigo.
        Mas o Chico revelou-se logo. Tinha apenas a esperteza rudimentar necessria a um rbula da roa. No lera coisa nenhuma. Dizia epteto, bomia, perito e 
de maneiras que. Seu latim s chegava ao dura lex sed lex, com que terminava todos os arrazoados e embaa os roceiros humildes. Em poesia nunca fora alm do Vozes 
dfrica:
         Deus,  Deus! Onde ests que no respondes? Em literatura, s admitia Perez Escrich. Tendo-lhe cado nas mos A Vida de Jesus, de Renan, escrevera para 
um jornal de Porto Feliz um longo artigo, defendendo a f.
        Leia o ilustre escritor francs as pginas magistrais do Mrtir do Glgota, de Perez Escrich, o sublime escritor peninsular, cuja pena de ouro tantas maravilhas 
legou s geraes porvindouras, e ver quo diferente do que imagina foi a vida do Mestre!
        Ao falar-lhe certa vez em Wilde, o rbula no se mostrou ignorante do assunto. Mas no o lia.
         O tal indecente, no ? O tal que dormia com homem? Eu sei... No. No leio essa gente.
        No suportava Machado de Assis.
         Dizem que  um mulatinho, se no me engano. Olhe, eu vou ser franco: negro no vai comigo. Eu at hoje acho que a maior besteira da Princesa Isabel foi 
assinar a Lei urea. Negro  pr guatambu e pr bacalhau, no  para escrever livro. Isso at  desaforo!
        Tinha ouvido dizer que Medeiros e Albuquerque dera um desfalque no tesouro. Rui Barbosa era outro coisa -toa. Falava bem,  verdade, conhecia os clssicos. 
Mas no passava de um ladro. Quando foi Ministro da Fazenda embolsou no sei quantos mil contos. O Bilac tinha os seus versinhos, no negava. Mas diziam que andava 
podre de sfilis. Era verdade que o Vicente de Carvalho tinha s um brao? Quantos quilos pesava o Oliveira Lima? At era indecente aquela gordura, no achava? Aquilo 
devia ser doena... Dizem que os livros do Amadeu so todos plgio.
         De quem?
         No sei. Mas dizem que ...
        Algumas respostas atravessadas de Campos Lara, a insopitvel repulsa que lhe inspirava a palavra pequenina daquele homem, provocaram logo um estremecimento 
entre ambos. Cumprimentavam-se friamente. E pelas costas o Matraca no perdia ocasio de dizer que Campos Lara nem por isso era l essas coisas para ser to convencido, 
para pensar que era mais do que os outros.
         Fez meia dzia de versos e pensa que tem o rei na barriga...
        
10
        Embora soubesse estar ganhando fama de louco, o poeta gostava de sair sozinho pelo campo, ao cair da tarde. Capinzal tinha arredores lindssimos. A estrada 
que levava  Fazenda Santa Anastcia, de areia muito branca, tinha, a dois quilmetros da vila, uma gameleira majestosa, paraso dos pssaros. Sabis, soldados, 
bigodinhos, tesouras, juntavam-se aos bandos, saltitando festivos pela ramaria imponente. Uma orquestra soberba.
        Todas as tardes saa, distrado, distante, raras vezes reparando no bastarde amigo dos caboclos, em busca da velha gameleira orquestral. E ficava horas 
seguidas - esse seu Juc anda meio gira... - ouvindo os pssaros, olhando o cu, onde as nuvens corriam, acarneiradas, delibando a paisagem sempre nova, de colinas 
verdes ao longe, que a noite lentamente ensombrecia.
        Que delcia, aquelas horas boas de silncio e de paz. Ainda no era noite e j estrelas plidas surgiam s vezes, com pressa de se mostrar, faceirando no 
cu.
        Pelas encostas macias, gado manso punha uma graa pastoral de idlio antigo. Sapos, pelos charcos invisveis, falavam inutilmente de amor s estrelas distantes. 
E Campos Lara se reconciliava com o exlio. Doura, suavidade. Deus nobis haec otia fedi. Como era bom no fazer nada!
        Voltava depois, j noitinha.
        Uma solido que as montanhas longnquas pontilhavam de melancolia. A areia lhe fugia aos ps. Folhas cadas, os rudos mais leves ganhavam colorido e vida 
na tristeza da noite. Pssaros-pretos erguiam-se num vo assustado. Uma lagartixa passava correndo. E msicas estranhas, harmonias ntimas que cantavam sutis.
         Noite!
        Um estremeo.
         Boa noite.
        Era verdade. Esquecera a janta de novo. Era preciso correr. E cheque-cheque, pela areia branca, apressava o passo.
        Aquele dia ele se deixara ficar mais que de costume. Perdera mesmo longo tempo, esquecido dos pssaros e do cu, embaixo da gameleira copada e repousante. 
Olhando o qu? Ouvindo o qu? Cismando  toa, saudoso de So Paulo, do seu meio, dos seus amigos. L  que era vida. As palestras infindveis, pelos cafs bomios, 
depois de fechado o jornal, alta madrugada. O contato com os rapazes recentemente ingressados na imprensa, ricos de ingenuidade, milionrios de sonho, vendendo alegria 
e versos, nesse primeiro entusiasmo inaugural da mocidade, no qual, desiludido e cansado, ele se renovava.
        Quase sem estmulo j, vencido pelos contratempos caseiros, pela falta de agasalho no lar, amargurado pelos choques e esbarres da realidade cotidiana, ele 
reencontrava coragem para o trabalho na admirao quente e boa dos meninos que lhe perguntavam pelos versos, que lhe recitavam poemas, e indagavam, com tanto interesse, 
do que estava fazendo.
        Havia anos a amargura enchia os seus versos. Amargura estilizada, adoada em renncia, mas que lhe velava a pobre voz. Era o poeta da realizao intil, 
da realidade que devora, do sonho que se torna fel ao alcance da mo.
        Para ele, a glria e a fora estavam na mocidade. Com a sua capacidade de sonhar, com a sua candura criadora, com a sua inexperincia do sonho que se toca, 
do impossvel que se atinge.
        Ao contgio daquela boa febre, Campos Lara sentia-se moo, renovado. E comeava a escrever. E os projetos fervilhavam.
        Aqui, no isolamento da aldeia, sem voz amiga, sem corao que o compreendesse, sem algum que lhe auscultasse a tragdia interior, vinham-lhe desejos de 
fugir, de abandonar tudo, de sair pelo mundo sem destino, ao sabor da corrente, pelo simples gosto de ir.
        Mas era impossvel. L estava a mulher. L estavam os filhos. L estava aquele pobre lar atormentado. Com dvidas. Com humilhaes. Com choro. Com gritos. 
Com protestos e queixas. Com improprios, tantas vezes. E to bom, afinal.
        
11
        Culpa dele, bem o sabia. Um inadaptado, um incapaz para a vida prtica. Homem como ele no nascera para o casamento, para a vida do lar. No tinha jeito 
para ganhar dinheiro, incapaz de prover s necessidades da famlia. Maria Rosa tinha razo, quase sempre. Ela era o Bom Senso. Ele, o Sonho. Nunca vo juntos os 
dois. Ouvia humildemente, com resignao fatalista, os destemperos da esposa. Maria Rosa no era uma inimiga. Maria Rosa era o outro lado da vida. O lado em que 
no daria coisa nenhuma, em que ele sempre fracassaria. O duro. O difcil. O sem cadncia nem rima. O do seu permanente naufrgio. O lado onde jamais deveria ter 
ingressado. Mas j era tarde. No podia recuar. Tentava reagir. Procurava adaptar-se  situao, arquitetava planos, fazia projetos, havia de ganhar dinheiro, de 
arrumar a vida, de ser um chefe de famlia, til e exemplar, j que assim o destino o exigia.
        Mas como? Por que meio? Fazendo o qu? Escrevendo? Bem sabia que no. O livro e o jornal no pagavam. Livro era um luxo caro que no compensava.
        S trazia dvidas. Os jornais pagavam mal, quando pagavam. O triste  que ele sabia fazer s aquilo, escrever. No prestava para nada mais, incapaz de fazer 
qualquer coisa sem a pena em punho. Tinha mesmo a impresso de ser a pena quem pensava, agia, buscava as palavras, encontrava as rimas, criava as imagens.
        Parecia trabalho dela. Sua alma, seu corao, crebro seu. Fora daquilo no conseguia ser outra coisa. E o triste  que, das modalidades da arte de escrever, 
a fatalidade o destinara  mais intil. Nem sequer nascera para o jornalismo. Seu jornalismo era simples literatura. Coisa muito bonita, muito bem feita, muito interessante, 
mas que o diretor preteria sempre diante de qualquer crime de ltima hora, da mais desonesta nota de oposio ou de apoio ao governo, da primeira reclamao do Constante 
Leitor contra o calamento da rua, contra o cachorro do vizinho ou contra as emanaes deletrias de um bueiro entupido.
        Se fosse feito para diretor de jornal, teria grandes possibilidades. Mas no fora. No conseguia se interessar pela capoeiragem do Glicrio ou do Nilo Peanha. 
Era incapaz de ver claro naquela histria de alta e baixa do cmbio. No compreendia como  que podiam achar interessante saber quem seria o deputado pelo quinto 
distrito ou ler o discurso do vereador Chaguinhas votando moo de apoio ao governo ou pedindo  ilustre edilidade fizesse um minuto de silncio em memria de um 
coronelo recm-falecido. E nem queria saber se o Chaguinhas ou o no-Chaguinhas era o vereador. Pouco se lhe dava.
        Uma inferioridade, sem dvida. Campos Lara estava abaixo do nvel de eficincia social do mais modesto caixeirinho de balco. Incapaz de vender um metro 
de morim. Nunca distinguiria o caf tipo quatro do caf tipo sete. E nunca seu crebro conseguira formular o mais simples e o mais despretensioso plano de salvao 
nacional.
        Como chegar a diretor? Seria sempre um folhetinista, um colaborador literrio, autor de notas de mais responsabilidade artstica, de biografias de escritores 
estrangeiros que o telgrafo de vez em quando matava, para lhe dar trabalho, s vezes para faz-lo chorar.
        Poderia aspirar ao lugar de secretrio de redao? Era mais bem pago. Mas ele j fracassara redondamente como secretrio. Faltava-lhe a intuio da hora 
e do momento psicolgico. No tinha a bossa do sensacionalismo. Punha na primeira pgina, em trs colunas abertas, uma reportagem sobre as esquisitices de Anatole 
France e jogava num canto da quinta pgina o estupro monstruoso de uma menina de doze anos ou o estrangulamento de uma famlia inteira no Alto do Pari. No tinha 
senso de venda avulsa. E fora mesmo delicadamente convidado a escrever crticas teatrais e rodaps literrios, no dia em que sugeriu se suprimissem sistematicamente 
as notcias de defloramentos ou de crimes em que estivessem envolvidos menores. Para que cobri-los de uma pecha infamante, quando se poderiam regenerar ainda?
        Como professor, a ltima coisa compatvel com o seu temperamento, ele prprio reconhecia as suas deficincias.
        No conseguia dominar a classe em conjunto. Via alunos isolados. S via os melhores. Trabalhava com eles. E ficava desesperado por no poder ajudar, quando 
via que algum deles, por burro que fosse, no trouxera lanche.
        
12
        Maria Rosa estava mais bem-humorada. Vendera um frango e duas dzias de ovos. Pudera comprar alguma coisa diferente para a janta. Nem disparatou, quando 
o viu chegar quase s oito. Foi esquentar a comida, serviu a mesa.
         Onde esto as crianas?
         Joozinho est dormindo, felizmente. Levou um tombo horrvel. Foi subir na cadeira, a cadeira virou, foi dar com a testa na parede. Por um triz no morria...
         Mas no houve nada?
         Chorou um pouquinho. Pus um pouco de salmoura, fiz ele beber Maravilha, da a pouco estava brincando alegrinho.
         Que amor de criana!
         Coitadinho... Criana melhor no h. Que gnio bom! E eu com tanto medo de que ele sasse nervoso... Nasceu num perodo to ruim... Aquela falta de dinheiro, 
voc desempregado, desaforo todo dia na porta da casa, a vergonha daquele despejo. Voc lembra como a vizinhana gozou?
        Lara sorriu, triste.
         Ah! que dio que eu tive da Candoca! Voc lembra? Ficou o tempo todo na janela, olhando, dando risada. Uma hora em que eu apareci na porta, ela fez questo 
de me cumprimentar, de perguntar para quando eu esperava a criana, se ia ser mulher ou homem... E depois perguntou, com o ar mais cnico do mundo, se eu ia me mudar... 
Nunca tive tanto dio na minha vida. Ah!  despejo? Por que, hein? Coitada! Ainda mais no seu estado... Sujeitinha mais -toa... Mulatinha ordinria...
         Mas parece que ela no era mulata... - disse Lara, por dizer.
         O qu? No era mulata? Mulateza chegou ali, parou. Voc no via a beiorra, aqueles olhos enormes, o cabelo crespo? Se era mulata! E da fedida! Saa na 
rua como se fosse uma senhora dona, com aquela padaria que no acabava mais, com uma bolsa comprada a prestaes, que eu vi, de um russo que aparecia l todo ms. 
Para mim, ela no pagava, porque o homem saa sempre bufando. Estendeu-lhe um prato.
         Coma essa chicria. No est amarga.
        Foi  porta ver as meninas que brincavam longe o bento-que-bento.
        Voltou. Sentou-se ao seu lado, ps-se a recordar.
         O pior perodo da minha vida foi aquele da Conselheiro Ramalho. Uma italianada barulhenta, de cada buraco saam mais de quinhentos moleques, xingando, 
jogando pedra, quebrando vidraa. Em casa no ficou uma. Tambm, uma vez, eu peguei o Pasqualino no momento em que armava a pedrada. Ah! que surra! Veio a me dele 
e comeou a me insultar. Cachorra! Vem pra terra da gente e ainda comea com desaforo! Disse-lhe boas! Ela ameaou com o marido. Que de noite, quando trouxesse a 
carroa, ele vinha se entender com voc. Mas no veio. Italiano  assim: voc falou baixo, ele bufa. O sujeito ergue a voz, ele mete o rabo entre as pernas! At 
voc fez o Comenale calar a boca, lembra-se?
        Lara achou graa no at.
         Me d a farinheira, sim?
         No use, Juc. A farinha est a por estar. Mas no presta. Est meio azeda. At no deixei as crianas comerem.  a tal venda do Ribas, que no tem nada 
que preste. Por sinal que voc tem de dar um jeito.  preciso dar alguma coisa por conta.
         Quanto?
         No sei. O que voc puder. Ele  o mais camarada. No amola muito. Merece.
        E voltando  Rua Conselheiro Ramalho.
         Mas o meu dio era a Candoca. Coitada... Tinha a mania de dizer que era o retrato da Tina di Lorenzo... Imagine! Com aquela cara... Eu nunca vi ningum 
to metedia, to enxerida... De vez em quando aparecia em casa, s pra reparar. Ih! Maria Rosa! Como est sujo de poeira esse aparador!, Meu Deus, Maria Rosa, 
no sei como  que voc agenta comer carne de terceira! Nossa Senhora! Olha aqui o aviso da luz! Voc esqueceu de pagar? Ela revirava a casa inteirinha, com 
parte de no ter cerimnia... A minha vingana  que ela era louca pra ter filho e no conseguia. A  que eu pisava no calo dela. Tinha poeira nos mveis? Ah! casa 
que tem criana  assim, no se tem tempo pra nada... Carne de terceira? Sim, as crianas davam tanta despesa... Luz sem pagar? Nem a gente se lembrava! Era o dia 
inteiro limpar mijo de criana, dar banho, trocar roupa... Mas eu judiei dela, mesmo, foi uma vez. A Candoca tinha trs ou quatro cachorros em casa. Voc se lembra? 
Um at correu atrs de voc, aquela noite... Ela, depois de me amolar muito, me ofereceu um terrier. Eu estava to por aqui com a criatura, que virei pra ela:
         O qu? Cachorro? Deus me livre! Isso  ocupao de quem no tem filho, como voc.
        Pegou a tigelona de feijo para levar  cozinha. E detendo-se um momento:
         Eu fiz mal, reconheo. Fui bruta. Mas era preciso dizer um desaforo para aquela sem-vergonha. E valeu a pena. Ela saiu feito louca, arrastando a padaria, 
e dizendo que antes no ter filho do que fazer eles passarem fome.  descarada tinha razo, mas desaforo ela engoliu, ah, se engoliu!
        
13
        Maria Rosa havia aconselhado. Deixasse aquelas esquisitices.
         Voc no deve andar por a sozinho. A vila repara. Acham que voc  meio louco, isso pode prejudicar E no  o pior. Em So Paulo est muito bem. Cidade 
grande. Ningum sabe da vida dos outros, ningum nota se voc est ou no sozinho. Aqui, no. E eles interpretam como orgulho. Que voc quer se fazer de superior, 
que no quer dar confiana. Eu concordo que a prosa da terra no  l das melhores. A Chica Venncio no conhece versos, o Z da Esteira nunca ouviu falar em... 
Shakespeare, o Sapo-Untanha  capaz de pensar que Mirabeau  qualquer marca nova de canivete, mas voc tem de agentar.
        Fez a maldade de sempre:
          para ajudar o ganha-po. Pra ganhar a vida voc tem que suportar at uma palestra, de vez em quando, em que ningum fale nos Flocos de Espuma ou recite 
um soneto de Mocidade em Flor.  da vida...
        E j mais amiga:
         No, Juc, de fato  preciso. Gente do interior  difcil e desconfiada. At j vieram dizer que voc no gosta de Capinzal, que no cumprimenta os outros, 
que no fala com ningum. Por que no aparece l uma vez ou outra na Bigorna ou na vendinha do Ribas?
        Campos Lara achou bom o conselho. Pegou o chapu, saiu para a rua, tateando nas trevas. No havia luar. A cada passo, um buraco. Duas esquinas alm, mal-iluminada, 
avistou a Bigorna. Veio chegando.
         Ol, poeta!
        Ele sabia quanto havia de pejorativo naquele ttulo. Poeta dizia tudo: abobado, preguioso, tonto, intil, mundo-da-lua, ignorncia do preo do caf ou das 
probabilidades da prxima safra.
         Boa noite...
         Ento, o que h de novo?
         A vidinha de sempre...
        Aquele ano estava mau. O caf andava que nem capim-gordura. No valia nada. E tudo o mais pela hora da morte. O arroz, um desperdcio de careza. Feijo custava 
os olhos da cara. Acar, nem se fala. Aqueles desgraados dos aambarcadores de So Paulo tinham manobrado com o gnero e agora quem no tinha a boca doce que pusesse 
libra inglesa dentro da xcara de caf, para adoar. Um despropsito. O Z da Esteira no compreendia como  que o governo no botava tudo na cadeia. O Chico Matraca 
sabia muito bem que o maior culpado era justamente o governo, que comia bola. O Venncio da Chica dizia que s uma revoluo acabaria com tanta pouca-vergonha.
         Se vier uma revoluo eu pego em arma e saio pra rua! Ah! Se saio! A gente trabalhando feito negro pra esses desgraados comerem  nossa custa e no deixarem 
nem o osso pra gente roer.  um horror.  por isso que o Brasil no vale nada, anda na mo de estrangeiro.
        J o Chico Matraca no achava que o Brasil no valia nada. Pelo contrrio. Era o pas mais rico do mundo. As nossas florestas eram um tesouro. Minas no 
faltavam. Faltava apenas explor-las. S em madeira o Brasil possua o maior patrimnio do universo. O doutor Lara no achava? O doutor Lara achava. Pois era isso. 
Riqueza no faltava ao Brasil. Nem homens. Um povo que tivera um Floriano - eu recebo  bala! e os ingleses tinham murchado...  Um povo que tivera Floriano e 
que tinha Rio Branco, que botara o Zeballos num chinelo, era, faam-me o favor, um grande povo.
        De mais a mais, todo o mundo sabia que inteligncia era no Brasil. No viam ali o doutor Lara? Um dos maiores poetas do globo (ele era sempre amvel com 
os presentes). E no era s o doutor Lara. Poetas, havia por a aos milhares, capazes de empacotar com um soneto quanto gringo aparecesse. E no s poetas. Estadistas, 
pensadores, filsofos (no tinham lido as Mximas do Marqus de Maric, que valiam muito mais do que quanto l-no-sei-o-qu vinha da Frana?). No, inteligncia 
no nos faltava. No sabia se Teodoro Roosevelt ou o rei Eduardo VII, mas no sei quem tinha reconhecido que o brasileiro era o povo mais inteligente do mundo.
         L isso  - concordou o Z da Esteira, entusiasmado.
        Matraca prosseguiu. Enquanto um alemo levava duas horas para entender uma anedota, qualquer brasileirinho, at analfabeto, tinha tempo de ficar triste de 
tanta risada que dera por to pouca coisa. E o Carlos Gomes, ento? Embatucara o Verdi com o Guarani e com o Schiavo. At ele tinha dito no me lembro o qu, quando 
ouvia o Guarani. Questo giovane, tutu quanti, no sei o que l. Tinha reconhecido o talento do degas. E o Santos Dumont, que tinha posto a Europa inteira de nariz 
espetado no ar, olhando pra cima como quem queria ver o aeroplano, mas era mais pra disfarar, pra no confessar que tinha que se curvar mais uma vez ante o Brasil? 
E a Cachoeira de Paulo Afonso, ento? Isto , a Cachoeira de Paulo Afonso no tinha nada com inteligncia, mas era alguma coisa de srio. Um ingls tinha dito que 
era a mais bela do mundo.
        Tomou flego, pediu ao farmacutico que separasse um vidrinho de camomila, que o garoto no andava l muito bom dos intestinos, e recomeou.
        Sim, todo mundo reconhecia que inteligncia era com brasileiro. O nosso mal era a preguia. No fosse a preguia, e ningum poderia com o Brasil. Mesmo porque 
at na guerra ns ramos insuperveis. A Holanda no pde conosco. A Frana cansou de apanhar no Maranho. A Inglaterra enfiou o rabo entre as pernas, quando Floriano 
empombou. E o Paraguai, ento, quede? Estava riscado do mapa! O prprio Garibaldi tinha dito que o nosso gacho  o melhor cavaleiro da terra. Com mil gachos eu 
dominarei o mundo. Isso mesmo, ali na batata! S o que estragava o Brasil. ..
        Assumiu um ar de pai da ptria que no recebeu os honorrios:
         S o que estraga o Brasil  a falta de carter. Na poltica, nas letras, no comrcio, em tudo. No viram esse cachorrinho do Mane Peroba?
        Peroba no aparecera aquela noite. Ia ser dissecado.
        
14
        Todos os ausentes haviam levado pancada. Campos Lara tinha a impresso de ser ele quem apanhava. Saiu derrancado, tarde da noite. No quis voltar logo para 
casa. Maria Rosa estaria acordada, com relatrios longos sobre a falta de dinheiro, sobre as brigas da vizinhana, mera variante caseira da palavra amarga do Matraca.
        Resolveu visitar a gameleira. Disse adeus, saiu tropeando. Aparecera um luar medocre, que ajudava um pouco. No dera muitos passos, ouviu que o chamavam.
         Poeta? Doutor? Voltou-se.
         Ah!  voc? Como vai. Oficial?
        Oficial era o barbeiro da terra. Como no gostasse de ser chamado de barbeiro, mas de oficial de barbeiro, que lhe parecia mais consentneo com a sua dignidade 
profissional, toda a vila, irnica e impiedosa, crismara-o de Oficial. Perdera h muito o nome de batismo e os sobrenomes. Nem se lembrava deles ao certo. Os filhos 
eram Panflio Oficial, Marianinha Oficial, Empdocles Oficial e Stiro Oficial.
         No lhe incomodo, doutor?
         Pelo contrrio! Onde vai?
         O doutor vai passear por a?
         Vou aproveitar o luar. Quero dar um pulinho at a gameleira.
         Ento vamos juntos. Eu gosto de conversar com poeta, com gente preparada. Eu sempre digo pr Empdocles que a nica pessoa com quem a gente podia aprender 
alguma coisa, aqui na vila, era o doutor. O doutor conhece o Empdocles?
         O filsofo? - perguntou, abstrato, o poeta.
         Quero dizer, filsofo, eu no sei se ele d. Eu acho que  mais pra contas que ele tem jeito. O doutor acredita que o meu menino nunca esteve na escola 
e faz uma conta de soma sem um erro e sem olhar na tabuada?
         No diga!
         Eu juro por esta lua que nos alumia. No foi  toa que eu escolhi esse nome.  Empdocles, mesmo, que se diz, no ? Antes eu pensava que era Empdocles, 
mas depois teve uma professora que pegou e disse que no era. A gente aqui no tem gramtica, no pode saber essas coisas. Mas dizem que o tal de Empdocles era 
um turuna...  verdade?
         ...
         Foi por isso que eu escolhi. Eu no sou desses que do nome vagabundo em filho: Jos, Antnio, Joaquim, Joo... Quer dizer, Joo ainda  um nome bonito. 
Foi um grande santo. O doutor tem um filho chamado Joo, no tem?
         Tenho.
         Menino esperto. Aquilo puxou pelo pai. No demora muito ele garra a fazer verso. Quantos anos tem?
         Dois... trs... Tem trs anos.
         Menino forte! Assim  que eu gosto de ver. Eu nunca vi ele chorar... Mas  levado, no ?
         Um pouco...
         Ah! isso h de ser bomio tambm! No  assim que se diz?
         ...
         Bomio que nem o pai...
         Acha que sou?
         Ora! Se v logo! Aqui  porque a vila no deixa... no tem cabar... A nica coisa que havia era a casa da Mignon... conheceu?
         No.
         No  do seu tempo. Era uma cabocla batuta que tinha andado at nas penses de So Paulo. Eta sujeitinha sem-vergonha! Aquela no tinha luxo. O homem chegava, 
ela no ficava engambelando. E no explorava, sabe?
         Ah! no explorava?
         Quer dizer, ela no fazia de graa. Era o meio de vida dela. Mas explorar, no explorava. A Ritinha era muito pior, conheceu?
         No.
         Era uma pretinha seida de cabelo quase liso. Diz-que era filha do seu Joca, da Fazenda Meio-Dia. Ota pretinha exploradeira! A gente chegava l, ela pedia 
logo cerveja e ficava bebendo. Ficava esquentando a gente, arregaando a boca - tinha um dente de ouro que era uma boniteza, feito em Capivari - pegava na gente, 
sentava no colo - eta padaria mas s b com quem ela gostava. Tambm, pra meter a faca no tinha outra! Uma vez ela me levou cinco mil-ris e ainda me fez pagar trs 
cervejas.
        Foi de ponta-cabea num buraco.
         Ota estrada miservel! A gente no podia sair sem lanterna, em noite com essa lua besta! Diacho de escurido! O engraado  que a diaba era luxenta. Comeava 
com fita. Que no sei o qu, que no sei o que mais. Era sempre assim. Uma vez, eu fiquei safado e disse: ou tu vai comigo, ou eu te quebro essa cara! Puxa que negra, 
seu doutor1 O senhor precisava ver. No sei o que tinha... A desgraada parece que tinha o diabo no corpo. Ota fogueira braba! Nossa! S vendo! Eu garanto que o 
senhor gostava. S o que eu achei ruim foi que ela me encheu de doena do mundo At hoje eu no fiquei bom de tudo.
        Festejou a lua, que aparecera de novo.
         Oi, chegamos na gameleira. Que baita, no? 
        E amigo:
         Foi pena o senhor no ter vindo pra c o ano retrasado. Elas moravam naquela casinha pra l da ponte. Tocaram as coitadas. O vigrio fez o povo enxotar 
elas. At eu ajudei, seno a Chica me deixava. A casa t l. Ningum mais quis morar nela. At inventaram que ficou assombrada.
        Estavam embaixo da gameleira. O Oficial suspirou.
         Qual, seu doutor. Viver  s em So Paulo! Eu no sei como  que o senhor agenta Capinzal... Eu, pelo menos, no nasci pra viver num meio destes. Quem 
nasceu meio poeta - o senhor j viu a moda que eu fiz pra festa de So Joo? - quem nasceu poeta que nem ns, nunca vve bem na roa...
        
15
        Afinal de contas, Campos Lara gostava da prosa do barbeiro. Na sua ingenuidade palavrosa o Oficial tinha um pitoresco saboroso que o divertia. Oficial sentia 
que uma afinidade de esprito o ligava ao professor. Eram artistas.
         Eu no tenho estudo, doutor, no tenho a gramtica. Seno, o senhor ia ver como essa gente toda me respeitava! Eu tenho cada idia! Se o senhor quisesse 
aproveitar, o senhor podia escrever uma poro de romances.
        Lara desculpava-se com a falta de tempo. A escolinha absorvia. Alm disso, tinha que traduzir um livro para um editor do Rio de Janeiro. No fosse isso, 
de bom grado entraria com a gramtica para o aproveitamento das idias frteis do barbeiro.
          pena, doutor. Seno a gente at podia ganhar dinheiro. O senhor quer ver que boa idia para um romance?
        Campos queria. E o barbeiro punha-se a contar a histria de uma criana abandonada pela me ao nascer, numa cidade do interior. A mulher, de famlia muito 
rica, deixara-se fazer mal por um caixeiro viajante. Nascida a criana, entregara-a a uma famlia de caipiras e embarcara para o estrangeiro. S o que deixara, como 
instrumento de identificao, era uma medalhinha de ouro herdada da bisav. Quando voltou da Europa, anos depois, procurou a filha. No encontrou. O chefe da casa 
tinha morrido. A mulher mudara-se, levando a criana. Procura que procura, no houve jeito de ach-la e acabou desistindo, vivendo triste, jururu, pensando na filha, 
que provavelmente morrera. Mas acontece que a cabocla tinha ido para uma cidadezinha da Sorocabana, onde passava a maior misria e onde ia criando a menina aos pontaps 
e pescoes. Era surra o dia inteiro, tratava a menina como escrava. Nem negra apanhava tanto. Chegou at a obrigar a pobrezinha a pedir esmola.
        E por a prosseguia o romance, vaga reproduo de mil e uma histrias no gnero, at o momento em que a medalha identificadora reunia me e filha e esta 
comeava a ser feliz, casando-se com um prncipe.
         O senhor v que idia? No dava um romano e tanto?
        Campos Lara no podia deixar de concordar.
         Ah! doutor, se o senhor estivesse disposto a escrever ... O senhor que tem facilidade.. .
         Mas por que no escreve voc mesmo?
         Ah! doutor, no sai nada. A gente no tem prtica. Eu vou escrever, atrapalho logo as idias. E o pior  que eu canso logo o brao, d uma dormncia na 
mo que o senhor nem imagina. Eu at nem sei como  que o senhor consegue escrever tanto tempo sem parar. No cansa?
         Um pouco.
         Um pouco? Puxa! Pra mim, se eu quero escrever uma carta garra a escorrer lgrima que parece que morreu o mundo inteiro. Agora, pra ler, no. Eu posso ler 
uma folha inteirinha de jornal que no acontece nada...
         Mesmo os de letra pequena?
         No. Letra pequena no. Eu digo os ttulos. Livro j  mais fcil. O senhor acredita que eu li A Moreninha em dois dias. sem parar a no ser pra comer 
e dormir?
         Bonito livro, no?
          batuta, mesmo. Mas eu j li uma poro. Tendo letra meio grande, eu leio. J leu Alzira, a Morta Virgem!
         No.
         Ento o senhor no sabe o que perdeu. Romance triste t ali. A Chica at j disse que no gosta de livro em casa, porque eu garro a ler, esqueo da vida. 
E o Tenente Galinha, j leu?
         J.
         Importante, no? Aquilo  que  livro! Agora o que eu quero ver  se dou um jeito de mandar buscar O Dioguinho. Diz-que l em So Paulo tem pra vender. 
O senhor j leu?
         Ainda no.
         Deve ser um bom livro...
        E os dois poetas ficavam cismando, o pensamento azul no silncio da noite.
        
16
        Muitas vezes o Oficial vinha fazer companhia a Campos Lara. Trazia-lhe as notcias da vila, as brigas, as contendas, os mexericos, mas abandonava de bom 
grado o falatrio mau por uma incurso pelo sonho.
        Oficial era um pastiche miservel dos amigos de So Paulo, dos seus companheiros de rodas literrias. Est claro que o pobre-diabo semi-analfabeto no tinha 
outra ponte de ligao com o seu esprito a no ser o ingnuo prurido livresco. Mas o barbeiro ouvia. Era o seu pblico. Ouvia com infinito respeito, um doce deslumbramento, 
uma admirao transbordante.
        Com ele Campos Lara se abria. Falava como se tivesse um pblico seleto e entendedor. Falava afinal de contas para si mesmo. Falava, porm...
        Oficial no lhe interrompia o discurso com uma conta de venda, a encomenda de um metro de chita ou de cadaro. Aprovava, humilde, reverente, sim-senhor!, 
ora veja,  isso mesmo, eu sempre pensei assim!
        Gostava do homenzinho porque, com ele, podia pensar em voz alta. Oficial ouvia livros inteiros que ele tinha em projeto, poemas, contos, romances.
        Quando saam pela estrada afora, ou quando Lara, na sua necessidade de desabafo, o procurava em casa, a palestra se prolongava horas a fio, quente e corrente.
        Uma vez Campos Lara ps-se a falar de Dante. Esqueceu que o homem no entendia e recitou, apaixonado, o episdio de Francesca de Rimini. Oficial deixou cair 
o queixo Veio depois Petrarca. Lara tinha de cor sonetos e baladas.
        
        Lassar e il velo, o per sole, o per ombra, 
        Donna, non vi vidio...
        
         Isso  italiano, doutor?
        Era. Lara precisava desabafar. Precisava ouvir, alto, cantando no espao, a voz dolorida do poeta.
        
        Pace non trovo, e non  da far guerra;
        E terno e spero, ed ardo e son un ghiaccio...
        
        Os versos rolavam. Oficial consentia em ouvir, deslumbrado.
        
        Quando fra laltre donne ad ora ad ora 
        Amor vien nel bel viso di costei; 
        Quanto ciascuna  men bella di lei 
        Tanto cresce il desio che rrinnamora.
        
        Sonetos inteiros. Lgrimas seculares. Lembrou-se de Leopardi. Estavam debaixo da gameleira. A s stesso. Era a obra-prima do poeta, o mais doloroso, o 
mais amargurado, o mais desiludido, o mais humano dos desesperos.
        
        Or poserai per sempre,
        Stanco mio cor. Peri linganno estremo
        Cheterno io mi credei.
        
         Isso  italiano, doutor? Era.
         E nas outras lnguas?
        No era para se exibir. Pobre do Oficial... Mas ele, Campos Lara, queria ouvir outra vez. E vieram os versos franceses. Baudelaire, Leconte, Heredia. E vieram 
os ingleses. A noite chegava. O sol punha um vermelho sombrio, no morro distante. Pequenos poemas de William Blake. Um longo poema de Tennyson. Estavam na hora 
de voltar.
        Caminharam longamente em silncio. Chegaram  vila. Despediram-se.
         Ota memria desgraada, seu compadre! - foi o maravilhado ponto final do barbeiro.
        
17
        Estavam praticamente reduzidos a dez mil-ris mensais. Nem mais nem menos. Um ou outro franguinho vendido, e era to raro vender, porque no havia preciso, 
num lugar em que todo quintal estava bem sortido, pingavam uns nqueis, de que Maria Rosa nem falava ao marido. Era capaz de, com eles, mandar buscar algum livro 
em Paris ...
        Os catlogos chegavam constantemente, pondo-o desesperado por no poder adquirir uma traduo comentada de Ovdio ou um livro sobre os mestres da pintura 
francesa.
        Era francamente a misria. Nem em So Paulo as rendas tinham baixado quele extremo. A escola, quase deserta. Dos oito alunos restantes, apenas dois pagavam. 
Cinco cada um. O resto, carona. E o pior  que. no demorava muito, os dois arrimos da casa se iriam, porque Campos Lara no via neles nenhuma possibilidade e no 
lhes dava a menor ateno. O tempo mal chegava para o Haroldo. Certa ocasio em que Maria verberava a inpcia do marido, o fracasso da escola, a desero dos alunos 
- daqui a pouco voc vai dar aula s para as carteiras - ele atalhou, triunfante:
         No, Rosinha, amanh mesmo eu tenho dois alunos novos...
         Quem?
         O Panflio e o Empdocles.
         Os filhos do Oficial?
         Sim.
         Ainda bem.
         Voc v que no tem razo de falar.  preciso ir com calma. Esta gente ainda no sabe dar valor  instruo. Pensa que estudo s serve para atrapalhar...
         Hum! eu no sei se eles no esto com a razo...
         Ora, Rosinha, voc j comea com as suas! Voc sabe que a nossa desgraa  justamente o analfabetismo, a incultura...
         No sei, no. O que e que voc ganhou com tanta leitura, com tanto livro, com tanta bobagem? No d nem pra negar o feijo...
         Isso  uma questo de sorte. Quem sabe at se o culpado no sou eu. Mas as coisas mudaro, com o tempo, esteja certa.
         Olhe Juc, francamente! Se perder tempo em estudo, em remexer biblioteca, s serve pra fazer gente como voc. Eu prefiro que meus filhos cresam bem burros, 
mas que prestem pelo menos pra trabalhar num armazm, pra vender amendoim ou pipoca, contanto que ganhem o suficiente pra viver. Antes um burro bem alimentado que 
um poeta com fome! Deus me livre de ver um dia Joozinho passando as vergonhas que voc tem passado...
         Mas no  vergonha...
         O qu? No  vergonha?  porque voc no tem. Ento isto  vida que se viva? Devendo a todo mundo, sendo expulso de casa por falta de pagamento, passando 
toda sorte de humilhaes, desmoralizado em toda parte? Oua bem: se algum dia eu descobrir voc querendo estragar o Joozinho - felizmente ele ainda  muito criana, 
no entende essas coisas - eu digo com toda a franqueza: eu pego a crianada e saio de casa. Prefiro viver de esmola, prefiro ver o meu filho trabalhando num aougue 
ou como entregador de farmcia, mas que saia um homem... Deus me livre de ter mais um poeta em casa...
         Mas voc acha que poeta  humilhao,  vergonha?
         Eu no sei. Pde ser coisa muito bonita. Mas eu nunca ouvi falar de ningum que conseguisse ganhar dinheiro, sustentar a famlia com versos...
        E jogando a erudio que as palestras literrias, ouvidas ao acaso das misrias do lar, lhe haviam trazido:
         Foi sempre assim em todos os tempos. At o Cames voc no disse que morreu de fome, que vivia de esmola?
         Mas isso  um caso excepcional. E mesmo que morresse na misria, no fez ele Os Lusadas, no ganhou um nome imortal? No viver ainda daqui a mil, a dois 
mil anos, a cem mil? E quem foi que ficou dos homens ricos do seu tempo, dos nobres, dos fidalgos, dos negociantes? Quem  que se lembra deles? Sabe-se que Cames 
pediu esmola. Voc sabe quem deu esmola a Cames?
        Maria Rosa sorriu.
         Mas quem deu esmola, saiba-se ou no o nome, tinha pra dar. Tinha dinheiro no bolso, tinha comida em casa, podia comprar feijo, farinha de mandioca...
         No se usava, naquele tempo...
         Usasse ou no! Mandioca ou pepino, ou tomates! Mas comida, compreende? E o que  que Cames lucra em ser lembrado hoje, em ser discutido, analisado, depois 
de morto, quando em vida ele roeu um osso? Voc pensa que ele levou alguma vantagem com aquela conferncia que voc fez na Escola Normal de So Paulo? Garanto que 
ele preferia, em vida, um bom po com manteiga... Voc prefere passar uma semana sem comer, mas ter os seus livros daqui a mil anos analisados nas escolas?
         Analisados nas escolas, nunca. Mas lidos, mas amados, sem dvida!
        Ela se aproximou, irritada:
          por isso que voc no d coisa nenhuma. E  por isso que, no primeiro dia que o Joozinho aparecer com um soneto, ele entra numa surra que voc nem pode 
fazer idia! E no  s fome, meu caro,  peso! Poesia d peso!
         Ora, Rosinha...
         O qu? No d peso? Tudo quanto  escritor que eu conheo  p-rapado. Eu nunca vi gente mais azarada... Uns prontos, uns vagabundos...
        E voltando  erudio fcil que o casamento lhe trouxera:
         Pela sua conversa, mesmo, a gente pode fazer idia. Tudo morrendo tuberculoso, lvares de Azevedo, Castro Alves, Casimiro de Abreu, o tal Leopardi. Uns 
aleijados, outros epilpticos, uma cambada sem jeito, que at d medo na gente. O tal Dante andava na cadeia, sendo expulso da cidade em que morava. Esse do Dom 
Quixote diz que andava sempre no xilindr, ou passando fome. O tal de Verlaine era bbedo. Voc viu como acabou o Oscar Wilde. Os tais russos andam sempre no pau. 
O B. Lopes est no hospcio. O tal filsofo alemo tambm. Aquele poeta grego era cego. O ingls era capenga...
         Byron?
         Deve ser. Tinha um outro que era corcunda.
         Pope?
         Sei l se era Pope! Sei que era corcunda! No sei que romancista francs vivia cheio de dvidas, passando vexame. Aquela turma de So Paulo voc conhece 
bem. Uns leguelhs, uns bbedos, uns desocupados, uns mulatinhos muito sujos, que nem tomam banho...
        O marido riu.
         No. No ria.  a pura verdade. S falam em princesas e palcios, mas no tm cotao nem no albergue noturno. Esse tal, que voc admira muito, Dosto... 
Dosto no sei o qu...
         Dostoivski...
         Quero l saber o nome dele! Um sujeito que vive da cadeia pro hospital, um jogador, um desorganizado, que at nos livros conta as poucas-vergonhas que 
fez ou que ouviu.  tudo uma turma assim. E voc acha muito bonito que o seu filho acabe nessa companhia?...
        Olhou dessa vez o marido com crueldade:
         E at no amor! At no amor eles so uns pesados! Voc j viu poeta que no vivesse chorando e se lastimando, porque mulher no liga, no d confiana?
        O argumento era esmagador. Maria Rosa estava satisfeita. Ia correr  cozinha para pr mais gua no feijo. Sbito, uma idia lhe ocorreu.
         Ah! escute: Me diga uma coisa. Os filhos do Oficial pagam?
        Campos Lara gaguejou.
         Pagam?
         Ele  pobre, voc bem sabe. No tem recursos...
         Ah! No pagam? Pois olhe: se quiser, v dar aula na casa deles, aqui eles no entram! Na escola eles no entram, pode ficar descansado! E foi ver o feijo-mulatinho, 
quase queimando na panela velha. 
        
        
18
         Eu no sei onde  que tinha a cabea quando me casei com o Juc! 
        E Maria Rosa punha-se a recordar.
        Campos Lara aparecera em Sorocaba numa tarde de dezembro. Ainda no o vira, mas j sabia que estava na cidade um moo de So Paulo.
         Bonito? 
        Era bonito.
         Quanto ganha?
        Ainda no sabiam. Mas sabiam ser um moo importante. Escrevia nos jornais. Tinha publicado um livro. Diziam que era um grande poeta!
         Parece com quem?
        A bem dizer, no havia ningum parecido com ele na terra. Era um rapaz alto, magro, louro, os olhos azuis.
         Tem um jeito macio de olhar, que at d no sei o que na gente... Os olhos so o que ele tem de mais bonito.
        Aquilo j era uma novidade. O nico poeta que Maria Rosa conhecera tinha uns olhos pequeninos, muito vivos, mas assustados, com o ar de quem esperava, a 
todo momento, uma pancada no crnio. Tinha um olhar de rabo entre as pernas, dizia Maria Rosa.
         Poeta ganha bem? - perguntou uma prima.
         Sei l! Mas deve ganhar, no acha?
          capaz...
          difcil ser poeta? - insistiu a prima. Maria Rosa no sabia informar.
         Esse vinha a talho de foice pra voc...
         Ora! Deixa disso...
        Mas no ntimo Rosinha gostou da sugesto. Ela precisava bem de um noivo. Tinha brigado havia um ano com o primo advogado, que ficara importante demais e 
andava dizendo que Sorocaba no tinha moa  altura de casar com ele. Dissera aquilo ao Gentil, quando estivera em So Paulo. E quando o Davi apareceu de anelo 
no dedo, disposto a arrasar a cidade com o fulgor da pedra, a primeira coisa que Maria Rosa fizera foi voltar-lhe as costas, desagravando o belo sexo da sua terra. 
Estavam prometidos desde pequenos. O primo fora sempre assim, metido a balo. Mas dizer que em Sorocaba no havia moa digna de casar com ele, era desaforo demais. 
O fato  que Maria Rosa era bonita. Bonita, de inspirar modinhas e serenatas, de revirar coraes. O primo Davi, com a ateno despertada pela desfeita, reparou 
em como estava ali um corte magnfico de morena. E armou o p-de-alferes. Foi  toa. Maria Rosa sentira pela cidade inteira. A ofensa penetrara-lhe no mais ntimo 
da alma. Passou a trat-lo com rispidez, com secura. Por que no voltava para So Paulo? Por que no ia casar com as atrizes do Politeama? Por que no pedia em casamento 
a Ponte Grande ou a Estao da Luz? E no quis saber de prosa. O que mais lhe doa era ver o oferecimento das amigas, cada qual mais assanhada, querendo apanhar 
o partido: a sapiroquenta da Candinha, a sirigaita da Filomena, quase todas as outras. Gente mais sem dignidade! Atrevido que dizia uma coisa daquelas s merecia 
desprezo e no entanto elas davam em cima, como se no fosse nada. O castigo foi que ele no se passou para nenhuma. Era com ela mesmo. E com ela o primo Davi tinha 
que ver! Casasse em So Paulo ou na China. Em Sorocaba, pelo menos com ela, de maneira nenhuma!
        Afastado o caso Davi, afinal um bom partido, diziam que estava ganhando um dinheiro, Maria Rosa ficou esperando. Ela, por sua vez, no dissera alto, mas 
pensava. Em Sorocaba no havia ningum  altura de casar com ela.
        
19
        E ficou ansiosa por ver o poeta.
         Em casa de quem que ele est?
         Do Joel.
         Ser que ele vai de noite passear no jardim?
         Ah! com certeza! Poeta gosta de flor...
         E de mulheres... - disse a prima Creusa, irm de criao, companheira inseparvel. - Nas poesias eles no tratam de outra coisa. A no ser Os Meus Oito 
Anos, eu nunca vi poesia que no fosse de amor.
        A noite o poeta foi passear no jardim. De fato, alto, meio louro, bonito, com uns olhos azuis muito mansos, que pareciam ver mais longe, atrs da gente. 
Olhos bonitos, mesmo.
         Parecia olho de prncipe.
        Quando a apresentaram, Maria Rosa comeou a tremer. Nunca falara com gente to ilustre. Tinha medo de dizer bobagem. Com certeza ele era reparador, sairia 
caoando.
         Eu no passo de uma cabocla da roa!
        E ficava toda constrangida, enquanto as amigas, para mostrar que no eram caipiras, falavam pelos cotovelos, apertavam-se, riam alto, diziam gracinhas ao 
ouvido.
         Ih! Joaninha! Voc e terrvel! Que idia!
         Nossa, Ana Maria! No diga isso!
        Como pssaros soltos, chilreavam, parolavam festivas se mostrando, chamando ateno.
        Mas os olhos do poeta pousaram logo sobre a figura gentil de Maria Rosa. Campos Lara gostou daquele recato, da fala doce, do jeitinno medroso. Gostou ainda 
muito mais dos olhos muito negros, que lembravam veludo e tinham uma doura envolvente e remansosa, de que falaria muito breve em sonetos cantantes
        Ps-se a cortej-la.
        Por sua vez, Campos Lara encarnava a prpria timidez. Falava pouco, a voz distante e macia, no tinha as largas expanses que ela julgava prprias dos poetas 
e dos homens importantes. Havia um qu de inesperado nos seus modos. Ficava mais constrangido, mais caipira do que ela, como em adorao.
        E aquilo embalava. Punha-a mais  vontade. Falando pouco, perguntando pouqussimo, Campos Lara no a obrigava ao suplcio de falar, no ouviria os seus erros, 
no iria caoar depois.
        Em pouco toda a gente sabia. Que o poeta se apaixonara pela moa. Que viria morar na cidade. Mil e uma notcias. E quando num dos domingos seguintes o jornal 
da terra publicou um soneto indito de Campos Lara, Terra Morena, toda a gente sorriu, compreendendo. A terra morena no era terra nenhuma, era Maria Rosa. Aquelas 
colinas suaves ficavam no corpo dela. Aquele sorriso em flor no era na manh cor-de-rosa mas em Maria Rosa. Aquele vivo fulgor de pupilas estranhas no era nada 
no sol, era nos olhos de Rosinha.
        E o chilreio alegre dos pssaros soltos veio encher-lhe a casa.
         Ento, Maria Rosa, que mistrios so esses?
         Ento, Maria Rosa, para quando so os doces? Positivamente, Maria Rosa no sabia informar. No havia nada. Ele aparecia sempre,  verdade, com os pretextos 
mais infantis, mas pouco se abria. Aceitava um caf, comia, muito sem jeito, uns biscoitos de polvilho, umas cocadas, achando tudo muito bom, deixando cair farelo 
no cho. Mas de casamento mesmo no falava. Nem de qualquer coisa. Era s olhar, meio triste, com aqueles olhos de veludo azul-celeste que lhe punham arrepios na 
pele.
        
20
        O namoro foi pegando. Campos Lara passou a freqentar a casa como pessoa da famlia.  espera de que ele se abrisse, todos os parentes, ao primeiro pretexto, 
saam da sala. Ele era moo direito, estava se vendo, no era preciso vigiar, no era desses aproveitadores. Depois que se declarasse, depois que ficasse noivo, 
ento sim, recomearia a vigilncia, ficariam sempre os pais na sala, ou a prima, ou o irmozinho menor.
        E como de esperar, um dia a bomba rebentou. Quando saiu o ltimo parente da sala, o garoto para brincar de pegador, que os vizinhos chamavam, a prima para 
ver se a Laurinha tinha uma fita vermelha que pudesse emprestar, o velho porque ia pagar a conta da farmcia e dona Nair porque precisava ir l dentro, ver se o 
bolo j estava no ponto, Campos Lara, muito trmulo, murmurou:
         Eu queria lhe falar sobre uma coisa.
        Maria Rosa no respondeu. Concordou, com uma onda de sangue no rosto, que deu a Campos Lara foras para escalar a Mantiqueira daquela entalada.
         Eu...
        Maria Rosa quase disse que aceitava, de uma vez, para resolver a situao, tal o embarao em que se achavam. Estiveram um momento calados.
         Gosta de versos?
         Gosto...
         Ah!...
        Pousou os olhos numa oleografia.
          brinde da farmcia?
         .
         Bonita...
         Acha?
         Acho... Boa reproduo...
         Diz que  um quadro famoso.
        Maria Rosa arrumou a capa da cadeira.
         Estas crianas!
         Como?
         A gente no pode ter a casa limpa. Eles vm brincar aqui, sujam tudo.
         Criana  assim mesmo...
         Eu j disse pra mame que no deixasse criana brincar na sala. Fazem um sururu terrvel.
          natural...
         E o pior  a desordem. A gente deixa tudo direitinho, as cadeiras em ordem, trs de cada lado. e, quando chega visita, fica envergonhada. Parece que no 
h na casa quem tome conta da arrumao... At fica feio...
        Que bom que ela estava falando! Voz bonita, quente, uma voz morena e boa. E falando, enchia o espao, ganhava tempo.
        Mas, conversando, fugiam do assunto. E no ntimo Maria Rosa queria saber logo o que tinha a dizer o poeta.
         O senhor estava querendo falar comigo?
         Ah! sim... Estava... Gosta de versos?
        Maria Rosa leu o papel emocionada, sentiu que o sangue lhe subia outra vez
         Gosto.
         Eu... eu queria lhe mostrar um sonetozinho. Era aquilo? Rosinha desapontou. Mas quis ver. O soneto dizia tudo, uma declarao de amor, apaixonada e quente.
        Leu o papel, emocionada, sentiu que o sangue lhe subia outra vez. O corao dava-lhe pulos no peito. Olhou o poeta interdita, entregou-lhe o papel.
         Bonito, no?
         Acha?
         Muito!
        Novo silncio. O brinde da farmcia parecia animado, em todas as dimenses, as figuras destacadas do fundo, querendo sair. Campos Lara criou coragem.
         O que  que achou dos versos?
         Bonitos... Muito bonitos...
         Mas... no achou nada?
         Como assim?
         No sabe quem inspirou?
         No sei. Como  que a gente pode saber? Alguma moa, com certeza.
         Por certo e sabe quem ?
         No.
         Seja sincera. No sabe?
         Se o senhor no disser...
          a criatura mais linda, mais adorvel do mundo!
         Sim?
         No sabe quem ?
         Eu no sou adivinha . .
         Ora sabe muito bem...
         Eu?
         Voc mesmo!
        Maria Rosa estremeceu. Ela no dissera eu para se fazer de herona do Soneto. Queria perguntar Eu sei? O senhor acha que eu sei? O eu era uma fuga. 
Mas o poeta entendera demais e fora melhor assim. Ficaram ambos surpresos, o sangue agitado, fazendo barulho nos pulsos, no peito, nas tmporas
         Maria Rosa - reatou o poeta - voc j deve ter notado. Quer casar comigo?
         Mas assim sem esperar assim de repente?
         No me aceita? No gosta de mim?
         No, no  isso. Eu simpatizo muito com o senhor... Mas assim to cedo... A gente no se conhece direito...
         Oh! Maria Rosa!  como se eu a tivesse conhecido a vida inteira! Voc me encheu a vida, me iluminou o corao, me fez viver outra vez! Voc nem pode imaginar 
o meu estado de esprito, quando apareci em Sorocaba. Tinha a alma negra, desiludida, cheia de fel. O seu olhar foi um novo sol na minha existncia. No! No diga 
que no nos conhecemos!
         Mas...
         Gosta de outro?
         No.
         Jura?
         Juro.
         Ento por que no me aceita?
          que assim to de repente... Eu no esperava... Preciso pensar primeiro.
         No. No pense. Responda, sim ou no?
         No, Campos. Uma coisa dessas no se resolve assim. Voc mesmo, o senhor mesmo h de concordar. Casamento  coisa muito sria. Me d um prazo para pensar.
        Campos Lara puxou do relgio.
         Est bem. Cinco minutos.
        Maria Rosa sorriu. Sorriu muito mais com os grandes olhos negros, de uma doura nova, que com os lbios vermelhos, de desenho impecvel.
         Cinco minutos?  pouco. Eu respondo amanh. Aceita?
        Campos Lara ficou triste.
         Ento eu j sei a resposta.
         Qual ?
         No! Se voc gostasse de mim, no iria pensar. Quem ama no pensa...
         Mas quem vai casar, pensa...
         Ento...
         S amanh. Aceita?
        Campos Lara quis protestar. Vinham passos do fundo. Atrapalhou-se.
         Est bem. Aceito. Amanh voc responde. Mas promete que ser um sim?
         No sei...
        O desespero se apoderou do esprito de Campos Lara. Dona Nair chegava da cozinha. Percebeu que houvera alguma coisa. Procurou ler nos olhos de ambos, fez 
insinuaes, no descobriu. Deus permitisse que no tivessem feito alguma bobagem, que no tivessem brigado.
        Conversavam ainda sobre o tempo, as chuvas, uma luta na fbrica. O poeta continuou impressionado com o brinde da farmcia. Maria Rosa achava que era preciso 
lavar, no dia seguinte, as capas das cadeiras. Afinal, despediram-se. Campos Lara parecia um nufrago, no sabia se teria foras para esperar, at o dia seguinte, 
a resposta da amada. Quando saiu, dona Nair indagou:
         Ento, minha filha, o que houve?
         Nada, mame.
         Ele se declarou?
         No, ora que idia! Dona Nair sacudiu a cabea.
         Idioto!
        
21
        Foi um tempo quente, em matria de noivados. Poucos dias depois Creusa era tambm pedida em casamento e o Bentinho mal dava para os gastos. Era imposto pelos 
velhos como companhia forada para os dois casais.
        Bentinho tirava o partido que podia da situao. Ficara atrevido, certo de que a irm e a prima, de gnio mudado na presena dos noivos, no viriam com pitos 
e belisces. E descobrira, pela boa vontade dos futuros cunhados, que era uma vocao magnfica de palhao. A primeira palavra, o primeiro gesto, mereciam risadas 
de boa vontade que o lisonjeavam. At o poeta. Campos Lara achava o menino um encanto. O Gomes, noivo de Creusa, perdia s vezes o flego. E o menino criava asas. 
Desarrumava as cadeiras, virava o couro de ona que servia de tapete, tirava a toalha da moringa, que descia pelo gargalo funcionando como um jabot, punha-se a arremedar 
o jeito srio do pai no retrato, com um dedo na cava do colete, o bigodo retorcido, e a perna direita fletida, a ponta do p direito pacholamente colocada  esquerda 
do p esquerdo e ele, o pai inteiro, apoiado orgulhosamente ao brao da esposa. Era uma recordao do Jardim da Luz que havia anos, marcada de moscas, ornamentava 
a sala de visitas, perto do velho piano de teclas descarnadas.
        Campos e Gomes achavam uma graa respeitosa no caso, no fossem ofender o sogro. As moas protestavam.
         Tenha modos, menino! Olhe que eu chamo o papai.
         Voc chame que eu conto.
         Conta o qu, seu malcriado?
         Tudo... Pensa que eu no vejo?
        Gomes, o mais comprometido, punha-se a tossir, perguntando se no queriam tomar uma Si-si, que ele mandaria buscar l na esquina.
        As moas agradeciam. No precisava. Mas o menino saa pulando entusiasmado, com o dinheiro na mo, e voltava com as garrafas, alegre pela bebida e pela 
certeza da gorjeta.
         Guarde o troco.
        Por sinal que o Gomes era muito mais cotado que o poeta no esprito de Bentinho. Por d c aquela palha, mandava guardar o troco.
        Maria Rosa vira em pouco tempo que Campos Lara no era nenhum Maylasky, nenhum potentado. Ganhava pouco. Estava no comeo da carreira. Vivia naquela poca 
de umas aulinhas que dava em So Paulo e fora justamente ao acaso das frias que ela devera a felicidade de conhec-lo. Mas ia entrar aquele ano para um grande jornal 
e tinha um mundo de possibilidades pelo seu valor, pela sua cultura. O diretor do grupo tinha dito que, depois de Jlio Ribeiro, Campos Lara era o maior talento 
que havia pisado em Sorocaba.
        J o Gomes tinha outro feitio. Filho de um fazendeiro remediado, comeara desde cedo a negociar por conta prpria em caf. Possua alguns contos de ris 
guardados e aumentava de ano para ano o patrimnio. Tencionava transferir-se muito breve para So Paulo, para organizar uma casa comissria. J havia at recebido 
oferta para associar-se com um parente riqussimo, que trabalhava em Santos.
        Em compensao, estava longe de ter o brilho de Campos Lara. Quase analfabeto, tipo acabado de caipiro, sotaque, de Tietr, como dizia a prpria Creusa, 
antes do noivado, era incapaz de duas palavras que no fossem previstas. S falava sobre preo de caf, sobre lucros passados ou futuros, sobre ces de caa, - tinha 
um dilvio de perdigueiros. detestava buldogues - sobre uma gua velha que trocara por uma besta baia, recebendo um arreio de volta, - um negocio. seu compadre! 
- sobre alguns alqueires de terra que comprara para revender, ou sobre a visita que fizera a So Paulo, onde quase morrera de rir, num teatro, com a Maria Angu.
         Ah! eu sou seco por teatro! Por mim, eu ia morar em So Paulo, s pra ir toda noite ver as revistas.
         Para ver as atrizes, no ? - aparteava a noiva num muxoxo.
        O Gomes, que gostava da fama do moo perdido, se espantava:
         U, por que no? S quem  burro  que no gosta de moa bonita...
        E gastando a suprema acrobacia do seu crebro:
         No v como eu estou aqui, louco pra casar com mec?
        
22
        A superioridade mental de Campos Lara tinha alguma coisa de impressionante. Havia um abismo entre os dois. Gomes at falava mais. Desembaraado era ele. 
Pudera! Ganhando cem mil-reis com a troca de uma gua, fora os arreios, e tendo feito ainda na vspera um embarque enorme de sacas de caf, assunto no faltava. 
Mas a mesma Creusa sentia a aureola de espiritualidade, a fidalguia de modos, a maneira nobre do poeta. Pouco falante tmido, ele se revelava numa simples frase, 
na observao mais ligeira, ao menor dos gestos. 
        Nada daquele sotaque ridculo, daquelas graas pesadas, daquela ponte de dentes agrandalhados sobrando em todas as risadas, que pareciam moures de porteira 
pendurados na boca.
        Maria Rosa nunca se esquecera de uma das primeiras impresses ouvidas sobre o noivo, a beleza dos olhos. Parecia olho de prncipe. E parecia mesmo. Havia 
algo de aristocrtico, de predestinado, de superior que lhe cercava a cabea.
        E depois, Campos Lara tinha um nome. Os jornais falavam dele. At os do Rio de Janeiro. Campos mostrava-lhe, com uma alegria infantil, artigos longos dos 
jornais mais lidos, sobre o seu livro. Um deles tinha mesmo por ttulo: Campos Lara, um grande poeta. E os elogios e as citaes e os vaticnios calorosos sobre 
o futuro que o aguardava se prolongavam quentes, colunas afora.
        O poeta mostrava-lhe as cartas, diariamente recebidas de So Paulo e do Rio. Eram de romancistas, de escritores, de homens de jornal, de advogados. Uma viera 
de Londres, escrita pelo Joaquim Nabuco. Outra, do Secretrio do Interior, dizendo que os versos de Crepsculo tinham-lhe arrancado, mais de uma vez, lgrimas de 
sentida emoo.
        No era importante arrancar lgrimas de emoo ao Secretrio do Interior?
        E para enfezar a prima, Rosinha falava nas glrias do noivo. Porque o Correio da Manh, porque O Estado de S. Paulo, porque o Joaquim Nabuco, porque o Olavo 
Bilac... Sim, at o Olavo Bilac, de quem Creusa sabia ser um grande homem, at o Olavo dissera: O Brasil tem agora um poeta, um grande artista!
         Voc conhece o Bilac? Aquele... O autor daquele soneto que a Cotinha recitou na festa em favor da Santa Casa.
         Ah! sei...
         Pois .  o autor daquele soneto... At ele disse que Juc - Campos Lara comeava a ser Juc - que o Juc era um bicho!
        Creusa lembrava-se do noivo cujos dentes eram maiores do que os da gua trocada pela besta baia, e ficava esmagada. Campos Lara seria o seu sonho. Maria 
Rosa tivera mais sorte. Creusa no tinha entusiasmo algum pelo noivo. No queria era ficar para tia. E comeava a se arrumar, passando gua Flrida nas axilas, p 
de arroz no rosto, ajeitando os cachos, para esperar o Gomes. Se ele estivesse de bom humor, iria contar outra vez, com toda a certeza, como embrulhara o piraquara 
no negcio da gua.
        
23
        Depois de casados, vieram morar em So Paulo, para os lados do Bexiga. Casa pequena, baixa, humilde. Lara ganhava duas centenas de mil-ris por ms. Ensinava 
num colgio particular e entrara para a redao de um matutino. Trabalhava ativamente num poema inspirado na vida dos escravos. Me Vicncia, histria de uma negra 
que vendo o senhor oferecer seu filho, como contrapeso, numa venda de escravos, a um fazendeiro do norte do Estado, resolvera fugir, para salvar o moleque. Era a 
histria dramtica da fuga, dias de fome e desespero pelas matas sombrias, a fria do senhor, os capites-do-mato varejando a selva, a resistncia leonina da pobre 
me, surpreendida pelos negros. Os tiros. Uma bala que atinge a criana. E a negra-mina, num acesso de loucura, ao se defender contra os agressores, no corpo-a-corpo 
final, a agitar como arma o filho morto.
        Lara punha a alma naquele trabalho. Falava-lhe a todo momento no poema. Criava novos detalhes. Mudava situaes. Registrava idias e versos. E a cada passo 
vinha a ler-lhe outra vez algum trecho anteriormente conhecido a ver se estava realmente bom, se no parecia falso, se os versos no soavam mal, se ela gostava desta 
onomatopia ou daquela imagem, a indagar se a cena final no pendia mais para o grotesco do que para o trgico.
        A idia viera-lhe na viagem para So Paulo, e desde ento no tinha outro assunto a no ser a promessa de que, terminado Me Vicncia, atacaria corajosamente 
o poema de h muito projetado sobre Borba Gato.
         Voc ver:  a glria! O Borba Gato ser a minha obra-prima!
        Maria Rosa via sem muito entusiasmo aqueles projetos. Ela preferia bem que o marido, em vez de se deixar empolgar pelos versos, esquecendo-se, trs, quatro 
vezes por semana, de ir ao colgio - descontavam trs mil-ris por aula - tratasse de arranjar novos servios, que o ordenado no dava para coisa alguma.
        Versos bonitos, no contestava. Ela sabia-os quase todos de cor, de tanto ouvir e de to gostosamente que lhe ficavam cantando na memria. Mas verso, como 
tristeza, no pagava dvidas. E, para casar, Lara se comprometera em quase um conto e quinhentos. Era preciso enfrentar energicamente a situao. Maria Rosa no 
queria acabar milionria, mas queria a casa em ordem, os mveis pagos, o nome respeitado. Lembrava-se mesmo de ter sido um custo convencer o Juc a adquirir moblia 
mais modesta, comprando tudo por um conto e duzentos, quando Juc, no por ele, para quem tudo estava bom, mas por ela, queria adquirir moblia faustosa, que mal 
cabia na pequenina casa em vista, e cuja prestao mensal era exatamente o total do que ganhava no jornal e no colgio.
        No sabia onde o rapaz tinha a cabea, que noo tinha da vida, que milagre esperava.
        Num dos primeiros dias de casados, passeando pelo centro, Maria Rosa se apaixonara por um relgio de parede. Uma fortuna, oitenta mil-ris. No dia seguinte 
o relgio estava em casa.
         Mas onde  que voc arranjou dinheiro, Juc?
         Tirei um adiantamento no colgio.
         O qu?
         O diretor  camarada. At disse que ia descontar s a metade das aulas que eu no dei este ms.
         Mas o que  que voc tem na cabea, Juc? Oitenta mil-ris por um relgio! Voc no sabe que ns precisamos desse dinheiro no fim do ms para pagar os 
mveis, as contas, a casa?
         Mas...
         Mas o qu?
         Mas voc no queria tanto o relgio?
         Queria. Gostava de ter. Mas se fosse milionria. No com duzentos mil-ris por ms. Isso  uma loucura, um disparate!
         Mas, Rosinha...
         No quero saber de Rosinha nem Man-Rosinha! Faz uma asneira dessa e vem agora com esse ar de cachorro que quebrou o pote! No quero relgio, no quero 
coisa nenhuma! No aceito. Se quiser, fique com ele, d para os vizinhos...
         Mas veja que beleza... Olha s o mostrador...
         Beleza, nada! Loucura! Voc devia antes pensar na sua vida, ver que no estamos em condies de fazer um despropsito desses. Se voc no estivesse devendo 
at a roupa do corpo, muito que bem. Mas assim,  demais...
        Olhou o relgio.
         Pra mim eu no quero. Agradeo o presente! Aquilo doeu profundamente em Lara. Pensava que Maria Rosa festejaria o mimo, compreenderia o sacrifcio, a boa 
vontade, compens-lo-ia com aquele sorriso to lindo, glria da sua vida. E Maria Rosa, muito ao contrrio, zangava-se. Nem uma s palavra de simpatia, de gratido. 
E ainda vinha jurar, pela felicidade dos pais, que nunca poria as mos naquela droga, nem para dar corda!
        
24
        Como  que mulher no compreende uma coisa dessas? Campos Lara ficava abismado, afundado na sua dor e no seu espanto. Multiplicava-se por agradar a companheira, 
para satisfazer-lhe a menor das vontades, o menor dos desejos, o mais leve capricho, e era aquele o resultado. De fato, bem pensado, ele no estava em condies. 
Mas justamente nisso estava todo o valor. Se fosse um fazendeiro ricao, que  que representava um relgio de oitenta mil-ris ou um colar de dez contos? Nada. Para 
as suas posses, fizera mais do que dar uma jia carssima. E Maria Rosa era incapaz de ver a beleza, pelo menos a delicada inteno de seu gesto. E no somente no 
agradecia. Revoltava-se. Chegava at a usar aquela expresso durssima, inesperada: cachorro que quebrou o pote...
        Nunca julgara Maria Rosa capaz de coisa igual. E sentava-se triste, a um canto.
         Voc no tem aula hoje?
         Tenho.
         E por que no vai dar? Esperando o qu? Dinheiro caindo do cu?
        Ele hesitava. Brigado com ela, vendo a esposa injustamente irritada, no tinha jeito, no sentia gosto em trabalhar. Dar aula pra qu? Valia a pena viver, 
num caso assim?
        A menor contrariedade, o menor desgosto, tiravam-lhe todo o nimo para a luta. Ficava como um ablico, um nufrago, um desamparado, os olhos perdidos, fumando 
cigarros sobre cigarros, tossindo sempre. 
         Voc no sabe que cigarro faz voc tossir? Por que  que fuma dessa maneira?
        E a tristeza de Juc aumentava. Ento Maria Rosa no percebia que. se fumava assim, era por desgosto, por desespero? E a esposa, em vez de o consolar, de 
o reanimar, em vez de retirar a causa, censurava a conseqncia.
        Punha o cigarro de lado. Ficava esmagando a cinza no pires que, pouco antes, Maria Rosa trouxera.
         Jogue a cinza fora, Juc1 Voc no v que fica empestando a casa?
        Ele jogava. Como as mulheres eram duras, injustas e ms! Imaginara sempre que esposa era o amparo constante, o carinho maternal, a compreenso, a leitura 
amiga do seu pensamento.
        Maria Rosa no lia. Ficava lidando pela casa, limpando, espanando, arrumando, consertando. E s pensava em mand-lo ao colgio, como se o quisesse ver pelas 
costas.
        Ficaram dois ou trs dias assim, de relaes estremecidas, trocando frases curtas, cortantes, cada qual no seu mundo.
        Maria Rosa s lhe dirigia a palavra para tir-lo da cama, para perguntar se queria mais caf, se o feijo estava bom de sal, se queria farinha, se faria 
planto de noite no jornal, se no estava atrasado para ir s aulas. O essencial para o andamento da casa. Ele respondia por monosslabos secos, tristes, a alma 
num quebrantamento de morte. No tivera coragem para dizer mais nada, que chegava a pensar em suicdio, com a suprema desiluso daquele divrcio prematuro, que ia 
para o colgio e ficava andando na rua, horas seguidas, sem destino, com vontade que lhe casse uma casa em cima, de que o viaduto desabasse, no momento em que fosse 
passando. E que nem dera aula, nem fora ao jornal, no esbarrondamento da sua vida. E que s tinha energias para traduzir em versos, de uma negra colorao leopardiana, 
o trgico desabar do seu castelo de sonhos.
        Foi ao voltar para casa, de uma dessas caminhadas intrminas, a barba por fazer, os olhos desgarrados, que ele surpreendeu a esposa dando corda ao relgio. 
Parou, estupefato. Mana Rosa voltou-se, colhida em flagrante. Sorriu, vencida. E os seus braos se abriram como o Porto de Salvamento que ele cantava, na manh 
seguinte, num longo poema, destinado a fazer furor nos recitais futuros...
        
25
        Mas no era s do ponto de vista financeiro que o poeta desapontava. Ele era dos livros. J no tempo de noivo esquecia muitas vezes a companheira, mergulhado 
na leitura de um jornal ou de um livro. Volume que lhe casse nas mos era dia perdido. No se lhe arrancava uma palavra, enquanto no terminasse a leitura. Felizmente 
ela no tinha em casa aquilo que j antevia ser o grande rival do seu amor. E quando ele aparecia de brochura debaixo do brao, para noivar, o primeiro cuidado de 
Maria Rosa era escond-la. Seno, cad Juc!
        E o mais triste  que ele no tinha outro assunto. Todas as conversas se arrastavam, at ser encontrada uma deixa. E enveredado pelo carreiro, no havia 
mais o que o tirasse. Porque escrevera o Crepsculo, porque ia escrever no sei o qu, porque o Crepsculo no satisfazia mais, porque era preciso publicar coisa 
nova. J repudiara o volume. Julgava-o produo inferior. Tinha em mente isto, tinha em mente aquilo. Ento, sim, faria nome. E falava nos amigos de So Paulo, em 
poetas, em literatos. Perguntava-lhe o que pensava de Daudet, se gostava de Maupassant, recitava um poema de Whitman - em ingls, minha gente! - como se Maria Rosa 
estivesse profundamente interessada em todo aquele aranzel de nomes de livros e de gente estrangeira.
        Creusa, no mais entendida que Maria Rosa, tinha mais pacincia. Tambm, no teria que atur-lo a vida inteira. E antes ouvir a histria atribulada de Dostoivski 
ou as aventuras romanescas do velho Dumas Pai, do que saber que o Pires estava esperando uma boiada de Mato Grosso e que o Felisbino mais cedo ou mais tarde estaria 
com o nome nos jornais, com ttulos protestados. J havia hipotecado at o sitieco recebido como herana do av!
        Mas ela sentiu bem toda a extenso da rivalidade que teria na poesia e nos livros de Juc, foi depois de casada. Compreendeu muito cedo que no passava de 
um acidente na sua vida. Quando muito, de um motivo. Lara queria-a para musa, inspirao, assunto. Todos os seus gestos, todas as suas frases, todas as suas atitudes, 
os incidentes mais banais da sua vida j tinham sido transplantados para o verso.
        A princpio, ficara lisonjeada. Sempre julgara uma glria inspirar um soneto. Que raras mulheres o conseguiriam. Que s algo de fenomenal, de superior, de 
extraterreno, poderia fazer uma criatura figurar numa poesia. Mas quando viu tudo na sua vida ser pretexto, que o seu modo de rir j inspirara uma dzia de sonetos, 
que os seus olhos provocavam poemas inteiros, que seu corpo era cantado em odes e baladas e que, s por surpreend-la uma vez de chinelo sem meias, ele escrevera 
vinte e tantas estrofes, aquilo de musa inspiradora pareceu-lhe a coisa mais banal e desinteressante. Ficava at admirada de ver Creusa pedir ao Lara, com empenho, 
que lhe escrevesse versos.
         Nem que seja um sonetinho bem pequeno, sim?
        Noivos, Gomes trazia diariamente doces, fitas, perfumes. Lara trazia versos. E enquanto Creusa enriquecia o enxoval, ela ia formando a biblioteca. Era a 
Inocncia, de Taunay, a Evangelina, de Longfellow - um livro pauzssimo -, A Cabana do Pai Toms, Amor de Perdio, em geral umas histrias cacetes, que acabavam 
sempre com gente morrendo.
        Instalados em casa, Maria Rosa dificilmente conseguia arrancar o marido ao pequeno escritrio que organizara. Por causa daquilo, de um quarto s para a biblioteca, 
j precisara alugar uma casa vinte mil-reis mais cara. E ele no deixava o escritrio a no ser para, nos momentos de maior entusiasmo, ler-lhe em voz alta uma pgina 
que lhe parecia mais bonita.
         No  lindo? No  uma obra-prima? Obra-prima! Talvez a prima gostasse. Ela no.
        O mais grave  que toda a ternura, todo o desvelo do poeta, ficavam nos versos. Gostava dela. No o duvidava. Mas de um gostar repartido com livros.
         Venha dormir, Juc!
         J vou, meu bem. Estou acabando um captulo. Dez minutos depois:
         Venha dormir, Juc!
         Um momentinho s, meu amor. Estou acabando uma pgina.
        Meia hora mais tarde:
         Juc!
         O qu?
         Voc no vem?
         J vou.
         Ento apague a luz.  mais de meia-noite!
         Sim, eu j vou. Estou quase no fim.
         Mas no acabou o tal captulo?
         Espera.  um minutinho mais...
        E cansada de esperar, adormecia, para s acordar quando Juc, sempre desastrado, deixava cair, com estrondo, o sapato no cho.
        
26
        Poucos meses depois, quando ela j comeava a perder a esperana, Campos Lara apareceu em casa radiante de alegria.
         Rosinha! Rosinha! A mulher veio correndo.
         Grandes novas!
         O que houve?
        Devia ser aumento de ordenado, emprego novo, algum aluno particular.
        Campos Lara transbordava.
         Imagine voc que eu estive com o Romano - voc conhece? - aquele que tem uma tipografia e papelaria na Rua 11 de Agosto...
        Maria Rosa sentiu um frio pela espinha.
         Imagine voc que eu estive conversando com ele agora de tarde - ele  um grande protetor dos escritores, um grande amigo dos livros - e, quando eu disse 
que tinha dois volumes prontos para o prelo, o Romano, espontaneamente, sem que eu pedisse nada, foi dizendo que, se fizesse uns negcios que tinha em vista, publicaria 
um deles... Imagine, Rosinha!  mais um livro que sai. Eu at no sei qual publico primeiro, se Me Vicncia - eu modifiquei o final, sabe? - ou o Borba Gato. Que 
 que voc acha?
        Maria Rosa riu no canto do lbio, onde j comeavam a se formar algumas rugas.
         Quanto voc vai ganhar?
         Como?
         Quanto voc vai ganhar?
         Ganhar? Por qu? Ora essa!
        Nunca lhe passara pela cabea que livro de poemas fosse objeto de lucro. Dava graas a Deus que um livreiro estivesse disposto a fazer a bobagem de public-lo. 
Parecia-lhe at um crime pensar quanto em dinheiro lhe poderia render o Borba Gato ou outro qualquer poema.
         Voc tambm s pensa em dinheiro!
          claro! Ou  para fazer dinheiro, ou no compreendo por que  que voc sacrifica tanto tempo, com prejuzo das aulas, sofrendo descontos no fim do ms, 
sem ganhar coisa nenhuma. Voc se contenta com a vaidade de publicar o volume?
        A palavra vaidade soou-lhe como nota inslita e intempestiva, mais dolorosa que todos os outros repentes da esposa.
         Vaidade, Rosinha?
         Se no  vaidade, o que ? Vocs dizem que as mulheres so vaidosas. No sei por qu. Voc  muito mais vaidoso do que eu...
        Campos Lara contemplou-se de alto a baixo, viu o terno humilde, cheio de manchas em que nunca pusera reparo, espelhante nos joelhos. Vaidoso, ele? Mas se 
era preciso, a todo momento, que Maria Rosa lhe escovasse a roupa e o chapu, arrumasse a gravata, endireitasse o colarinho! No era ela prpria que, a cada passo, 
lhe censurava o desleixo, a falta de modos? Maria Rosa no o acusava, todo dia, de sair como um judas, de parecer um mendigo, lembrando-lhe que aquele descuido era 
desmoralizador, prejudicava-o na sociedade? Ainda na vspera, ao consertar-lhe o n da gravata, Rosinha dissera:  por isso que ningum d importncia a voc, ningum 
quer ajudar. A aparncia  tudo. E Maria Rosa o vinha acusar de vaidade!
         Olhe, Juc, voc  muito mais vaidoso do que pensa. At esse relaxamento  vaidade,  para chamar ateno,  para se fazer superior!
        Se algum o esbofeteasse em praa pblica, inesperadamente e sem razo, no o deixaria mais estupefato.
         Sim, voc, a sua rodinha, os seus amigos, vocs no passam de uns convencidos, de uns pretensiosos. Nem todos levam a vaidade para a roupa, mas nem por 
isso so menos vaidosos do que qualquer mulherzinha. Eu j compreendi bem os tais artistas que voc traz aqui. Todos so uns portentos. Cada qual  mais ilustre. 
No passam cinco minutos sem que se elogiem da maneira mais ridcula. Que gnio! Que grande poeta que voc ! No, gnio  voc, poeta  voc. E o pior  que 
todos acreditam. Dia em que ningum te elogia voc at emagrece!
         Rosinha!
         Olha o espanto dele, gente! Mas fique sabendo que eu digo a verdade. Voc pensa que eu no vejo o pouco caso que esses trouxas fazem de mim porque eu digo 
verdades, porque no deixo cair o queixo quando comeam a recitar as tais bobagens? Eu bem que vejo! Outro dia o Paulino comeou com indireta, dizendo que os poetas 
precisam casar com mulheres que os compreendam... Pensa que eu no vi que aquilo era comigo?
         Voc bem sabe que no era.  cisma sua.
         Cisma, no, meu caro. Notei at o seu jeito de mrtir. Pois oua esta: ningum compreende melhor voc do que eu! Vocs querem  que algum se iluda!  
por isso que voc gosta de conversar com aquelas normalistas, filhas de seu Pereira, que vm a todo dia pedir autgrafo, copiar os seus versos. Umas tontinhas que 
no sabem nada, que no viveram, e que pensam que fazer verso  uma coisa do outro mundo.
         Mas isso no  vaidade,  a alegria de encontrar algum que nos compreenda.
         Para compreender estou eu aqui. Justamente o que elas fazem  no compreender. E voc vem dizer que no  vaidoso! O ingnuo! Ento eu no vejo quando 
voc escreve, quando vem me ler os versos, dizendo que agora vai fazer nome, vai ficar famoso, que os seus versos so um colosso e depois, quando chegam os tais 
amigos, voc faz um ar modesto, que no tem nada que preste, que os versos no valem nada? Quando eles elogiam, voc fica todo sem jeito, como se no estivesse concordando... 
Olhe, Juc, eu j tirei h muito a diferena de vocs todos... Quando uma de ns fala em comprar um vestido, quando eu no quero sair porque acho que no tenho um 
vestido decente, voc fica escandalizado, acha que eu vivo s pela aparncia, para a opinio dos outros. E voc?
        Campos Lara tornou a olhar para o terno.
         No. No  uma questo de roupa. Mas voc s vive pela vaidade de aparecer. Se voc escreve s pelo gosto de escrever, por que  que no guarda os versos 
na gaveta, por que  que vem ler para mim que sou uma burra, e por que faz tanta questo de publicar essas coisas sem nenhuma outra vantagem?
        O poeta nunca poderia ter previsto aquele ataque.
        Ergueu-se cambaleante.
         Est bem. Voc no quer que eu publique o livro, no ? Pois no publico, est acabado.
        Maria Rosa tornou a sorrir no canto da boca.
         U! Se quiser publicar, publique. O que eu no quero  que se repita o que aconteceu com o Crepsculo.
        E estendeu-lhe um carto, chegado aquela manh, em que a tipografia, em termos amveis, lembrava-lhe que ainda restava um pagamento de cinqenta mil-ris 
que no fora coberto pelos volumes vendidos.
        
27
        Irene, como primeira filha, fora uma longa espera atribulada. Sozinha em casa, o marido fora, a trabalhar ou esquecendo a vida, ao acaso dos encontros de 
rua, Maria Rosa via Campos Lara chegar em casa a correr sempre assustado. Parecia que, s no ltimo quarteiro, ele se lembrara do estado da esposa, e apressava 
o passo, para descontar o tempo perdido, ansioso por saber se nada de anormal acontecera.
         Como vai? Como est, Rosinha? No houve nada? Est passando bem?
        As vezes irritava-se ela com tanta solicitude, que lhe parecia postia, ou apenas despertada pela sua presena. Estava certa de que, longe dela, nem uma 
vez se lembrara do seu sofrimento. Passava o dia pensando em versos, procurando rimas.
        Campos Lara ficava todo atarantado em casa.
         No, no faa isso, meu bem. Voc se cansa!
        E ia ele mesmo pr a mesa, virando a farinha, derramando feijo, derrubando colheres.
         No, meu bem. Eu mesmo acendo o fogo. E queimava a mo, gastava fsforo.
         Voc est boazinha? Remorso, com certeza.
         Quer que eu sirva o seu prato?
         No. Deixe que eu fao.
         No, querida, no. Eu mesmo sirvo. Voc no pode fazer esforo. Deve estar cansada.
        E deixava cair o arroz fora do prato, inundava a toalha.
         Est vendo? Voc no tem jeito para essas coisas. Em vez de ajudar, estorva. 
        Campos Lara entristecia outra vez. Tinha tanta boa vontade.. .
         Foi sem querer, Rosinha. No leve a mal. De outra vez eu tomo mais cuidado. Mas voc no pode estar fazendo muito esforo. Pense no que disse o mdico.
        Valia mesmo a pena pensar... No fazia outra coisa, o dia inteiro, que lidar pela casa. Erguia-se pesadamente de manh, com os pontaps da criana no ventre, 
numa constante agitao. Tinha a impresso de que eram duas, no uma s, brincando de pegador l dentro. Um problema, sentar-se na cama. O corpo crescia, inchava. 
No havia roupa que servisse. J desmanchara todos os vestidos. Mal podia andar. As pernas tinham intumescido. Sentia tonteiras. E uma fome desesperada, a todo instante. 
No havia o que chegasse. Certa vez comera uma dzia de bananas-nanicas. Saa da mesa de olho arregalado. Felizmente passara o enjo dos primeiros dias. Mas era 
um mal-estar infinito, um desnimo, uma vontade enorme de morrer. Parecia que morrer devia ser a coisa mais gostosa do mundo. Seu maior desejo era ter um abrigo, 
um peito em que se acolher. Se pudesse, mandaria buscar a me em Sorocaba. Mas a pobre escrevia, com lgrimas, que o reumatismo voltara, que havia dois meses padecia 
na cama e que nem sequer podia ir  casa de Creusa, na esquina, j  espera do segundo filho.
        Campos Lara no sabia compreender aquele sofrimento. Fazia frases lricas sobre o drama espantoso da maternidade. Toda a sua angstia mortal s parecia sentida 
intelectualmente, s provocava reaes literrias, no inspirava uma atitude profunda. Punha-o atormentado, sem rumo. No sabia o que fazer. Todas as suas solues 
eram ingnuas, absurdas, impraticveis. Quisera tomar empregada - como se eles pudessem pagar! Falara em se transportarem para uma estao de guas, por causa dos 
rins, que no andavam bons - como se fosse possvel!  primeira queixa da mulher queria chamar o mdico, como se doutor fosse de graa. Tudo no ar. Mas um ch, uma 
papinha, alta noite, era incapaz de fazer. Para dar uma colher de remdio, derramava meio vidro. Para fazer-lhe um escalda-ps, despejara-lhe a chaleira fervendo 
no joelho. Um desastre! Meu benzinho pra c, meu amor pracol. Mas tudo sem prstimo. E incapaz de compreender-lhe a situao, de penetrar-lhe a psicologia, de 
sentir a sua tragdia.
        Uma vez surpreendeu-a chorando, contemplando, seminua, diante do espelho do lavatrio, a deformao crescente do seu corpo. O umbigo saltara. A pele rompera-se. 
Manchas esbranquiadas estendiam-se horizontalmente pelas coxas, pelo ventre crescido.
         Que  que voc tem, minha filha?
        O desespero de Maria Rosa explodiu em queixas, em maldies. Estava deformada. Perdera a beleza do corpo. Nunca mais teria as linhas esbeltas do passado. 
Ficaria de ventre cado, de seios moles, de corpo riscado. Um estrago! Estava inutilizada para sempre! Maldizia a hora em que se deixara fecundar. Por causa daquela 
criana ia ficar um animal horrvel, ridculo, grotesco.
         Tudo por sua culpa!
        Campos Lara ficou horrorizado. No sabia como Rosinha podia abrigar sentimentos to vis, to egostas. E pela primeira vez foi duro. Chegou a cham-la de 
monstro. S um monstro podia amaldioar o filho que alimentava nas entranhas diante da possibilidade de prejudicar-lhe, por pouco ou por muito que fosse, a beleza 
do corpo. A maternidade era o que havia de mais sagrado. Destino, glria da mulher. Pelos filhos toda a Humanidade se sacrifica. No esprito, no corpo, na vida. 
E certo de ser aquilo uma imprevista, uma verdadeira aberrao de Maria Rosa, censurou-a duramente. Que mal havia em que os seios cassem, em que o seu corpo perdesse, 
se ia ter um filho, se um filho era o que havia de mais puro e mais nobre na terra?
        Comoveu-se depois, vendo-a sentada  beira da cama, chorando baixinho. Quis abra-la. Maria Rosa repeliu-o com violncia, como j inmeras vezes fizera, 
depois de grvida.
        Saiu para a rua desorientado, certo de lidar com um caso de hospcio, no de maternidade.
        Era assim a vida. Dia inteiro sozinha, raramente visitada por uma vizinha mais caridosa, cozinhando, lavando, varrendo, limpando, costurando, chorando, varada 
de angstia, acometida de pavores bruscos, sem saber o que se operava dentro do seu ser, inexperta e perdida diante ,do mistrio, ou invadida algumas vezes por uma 
felicidade inenarrvel, fsica, profunda, quando a criana vinha lembrar, num movimento brusco, que estava l dentro, que existia j.
        E tanto nas horas de mortal desespero como nos momentos de inexplicvel doura que os acasos lhe davam, que necessidade desamparada, infantil, de um peito 
amigo! De ficar pequenina, pequenina, para que algum a recolhesse entre os braos. Ah! se Juc estivesse ali ao seu lado! E como era intil que estivesse!
        Porque, por mais que o desejasse, e mesmo que Juc a procurasse, uma coisa estranha, uma repugnncia instintiva, algo de misterioso a separava do esposo. 
Desde os primeiros dias de gravidez sentira aquilo. Parecia desprender-se do corpo dele um quer que fosse de repulsivo, insuportvel. No diminura o amor, que todos 
os acontecimentos anteriores no haviam destrudo. Mas uma incompatibilidade fsica violenta, incoercvel, a obrigava a afastar-se. Era pensando nela que se conformava 
com sua ausncia prolongada e constante. No precisaria sofrer a emanao absurda, a exalao pestilenta que irradiava da sua figura e que nada explicava. Cada carcia 
do esposo era um suplcio. E certa vez o suplcio foi tal que, quase involuntariamente, Maria Rosa falou. No sabia por que, no levasse a mal, mas, em conseqncia 
da gravidez, isso acontecia, sentia um cheiro horrvel no marido.
        Campos Lara recuou, aniquilado. At aquilo!
         Mas  impossvel!
         Eu sei, Juc. No  culpa sua.  impresso.  da doena. Mas eu no posso.
         Mas, Rosinha, eu...
         No se zangue, Juc. Voc pode perguntar a qualquer mulher. Dona Ceclia j tem cinco filhos e, toda vez que est grvida,  a mesma coisa. E com ela  
pior. O marido fica com cheiro de rato...
        Campos Lara, plido, sentou-se humildemente, esmagado, no sof. E to quebrado e to vencido, que Maria Rosa, num esforo para alm de humano, arrastando 
a filha irrequieta - aquela barriga redonda era menina, na certa - foi consolar o marido, mais desamparado, mais infeliz do que ela.
        
28
        Que luta, nos ltimos dias! Quase quinze quilos mais gorda! As pernas inchadas. O mdico recomendara um regime quase impossvel de seguir. No provar sal. 
Frutas, comidas leves. Quando via o marido, muito plido, de olhos inquietos, sentado  mesa, perguntando, trmulo, pelo seu estado, fugia para a cozinha. Que vontade 
de provar feijo, um caldinho de arroz... com sal! S no queria morrer, s queria atravessar aquele calvrio para degustar, um dia, um prato violento, apimentado, 
cheio de sal, de alho, de temperos. Valia a pena viver para aquilo! A criana, no ventre, parecia no ter mais sossego.
         Isso  capaz de ser menino - dizia a vizinha. - A barriga  de quem vai ter mulher, mas s menino judia assim da gente - afirmava, com sua longa experincia. 
- Homem maltrata a gente at antes de nascer. Mulher nasceu pra ser desgraada.
        E dava graas a Deus por ter perdido a nica filha. Os seis garotos que a atormentavam, dia e noite, pelo menos no teriam de passar por aquelas horas sem 
par. Vinha agora mais freqentemente consolar a amiga, penalizada pelo seu destino. Consolava-a dizendo mal dos homens. Seu marido era tambm um monstro. S aparecia 
em casa para lhe encher a barriga. E saa cada menino que parecia um bezerro.
         Destino da gente  esse. Padecer. Homem  s regalar... Deus no fez o mundo direito. Eu queria que meu marido ficasse grvido s uma vez, pra ver se  
bom... Pensa que  brinquedo...
        A amiga tricotava. Maria Rosa nem tinha coragem. Ficava com os grandes olhos bovinos, numa resignao muulmana, perdidos ao longe. Mas ouvia a companheira 
a rezingar contra a vida. Felizmente fizera antes o enxoval modesto, as fraldas, os cueiros, as camisolas, aproveitando roupas velhas, retalhos, uns metros de flanela 
que a me enviara de Sorocaba. (Coitada, cada vez mais doente. Aquele reumatismo havia de lev-la ainda!)
        Campos Lara, nos ltimos dias, redobrara de solicitude. O cheiro, graas a Deus, fora desaparecendo, ou se acostumara com ele. O marido sofria com ela, quase 
mais do que ela. Revelara-se o outro lado de sua vida. Carinhoso, paciente, prestimoso at. Ficava mais horas em casa, chegava mais cedo, multiplicava-se em pequenas 
atenes, de todo inditas. Um custo mand-lo para o trabalho. Por gosto dele, ficaria ajudando, arrumando, consolando. Em contato pela primeira vez com a realidade, 
com o sofrimento, com o insondvel mistrio da vida, tendo a vaga intuio de que algo de grande e de trgico se processava, Campos Lara ficava desorientado, num 
espanto comovido, diante da esposa cuja agonia interior lhe adoara as arestas.
        O simples fato de concordar em que ele faltasse s aulas, algumas vezes, de no protestar contra os seus sapatos, que chegavam sujos de lama, demonstrava 
que alguma coisa de profundo acontecia.
        Fazia por adivinhar-lhe o pensamento. Integrava-se no seu estado. E para Maria Rosa no havia, agora, nada mais confortador do que aquele novo Lara, cujo 
sofrimento, pela primeira vez, no se traduzia em versos, rebelado, pela primeira vez, contra a cadeia dourada dos sonetos.
        
29
        Madrugada.
         Eu acho que  agora, Juc. Campos Lara pulou da cama.
         Ser?
         Estou sentindo dores h muito tempo. Vem uma dor aguda, passa, volta depois. E parece que estou perdendo gua.
        Campos saiu correndo, desesperado, foi bater  casa da vizinha, foi procurar a parteira, dois quarteires abaixo. Deus permitisse que ela no estivesse ocupada. 
No estava. Ergueu-se com sono, sem pressa.
         Venha, venha j, dona Conceio. Est na hora.
         Calma, seu Juc. Pode ser rebate falso.
         No, no . Tenho certeza. Venha, pelo amor de Deus!
         Ora, seu Juc. Isso no tem essa importncia.  coisa -toa. Ela ainda tem uma poro de horas pela frente. No  preciso correr.
         Mas venha, venha, pelo amor de Deus. Venha logo. Foram. J da rua se ouviam os gemidos roucos, angustiados, angustiantes.
        A parteira foi entrando,  vontade, sem precipitao, acostumada com todo aquele aparato espetacular. Os gemidos pararam.
         Est vendo? Enquanto isso, ela descansa. H um intervalo entre cada dor. Depois elas vo-se aproximando. A coisa  para amanh l para o meio-dia, no 
duvido nada.
        Campos Lara, de olhos febris, o cabelo revolto, aproximou-se timidamente do quarto, sem coragem de entrar. A vizinha animava-lhe a esposa.
         No se assuste, minha filha, no tenha medo.  assim mesmo. Todas ns temos que passar por isso. Mas tudo passa. Amanh voc nem se lembra mais. E vai 
ver que beleza de menina. J escolheu o nome?
        Maria Rosa no respondeu.
        A cabea de Campos Lara apareceu  porta.
         Como vai, meu bem? No h de ser nada.
        A mulher tinha os olhos desvairados, a cabeleira se espalhava, longa e negra, pelo travesseiro.
         A parteira chegou, ouviu?
        Com os olhos de infinito desamparo, Maria Rosa falou:
         Quede mame, Juc? Mame no vem? Ele gaguejou.
         No veio, minha filha. No vai ser nada. Ela est doente. Mas no tenha medo,  coisa -toa. Quando voc menos espera, est livre.
        Maria Rosa ps-se a chorar baixinho. De repente, deu uma estremeo, jogou a cabea para trs. A voz era uivada.
         Meu Deus, meu Deus!
        Juc foi chamar a parteira, a mulher j vinha, tinha fervido os ferros, lavara as mos, entrava risonha.
         Ora, menina, que luxo, que gritaria  essa? Ningum vai morrer aqui. Isso no  to feio assim. Olhe, hoje eu j fiz nascer duas crianas. Com esta so 
trs. Daqui a pouquinho voc est livre.
        E indiferente aos gemidos:
         Deixe ver.
        Pediu o auxlio da vizinha.
         Tire o cobertor. Tire, tire tudo isso da. Coberta no serve pra nada. Deixe ver pra quando .
        Maria Rosa silenciou outra vez.
         Descanse, minha filha. No fique assustada assim. Agora voc vai ter um descansozinho. No adianta gritar  toa. Poupe as foras pra hora.
        Examinou melhor.
         Est tudo bem, minha filha. A cabea est bem colocada. No tenha medo. Vai ser uma brincadeira, ouviu?
        Acariciou-lhe a cabea, comoveu-se ante os olhos desgarrados da moa.
         Ora, menina, no faa esse ar! Voc no vai sofrer nada! Eu ainda no perdi uma criana! Voc vai ver que beleza de filha... eu garanto que  menina...
        Maria Rosa, que sentia as dores voltarem, comeou a gritar. No, no queria filha, no queria filha para sofrer tambm, para passar aquela hora.
        Cansou de falar. Gritava. Uivava. Contorcia-se. Erguia o ventre. Jogava a cabea para trs, trincava os dentes.
         Aaaai! Mame! Mame! Mamezinha! Meu Deus, meu Deus! Eu no posso mais!
        A amiga consolava. A parteira observava.
         Vai indo tudo muito,bem. As dores esto se amiudando. Vai sair mais depressa do que eu pensava.
        E dava recomendaes  vizinha.
        Fora do quarto, na suprema angstia de sua vida, Campos Lara sentiu que ia enlouquecer. Pensou em sair para a rua, gritando. Lamentou que no houvesse algum 
para o animar, para o consolar. Passeava agitado pela casa, arrancava os cabelos, sentia-se culpado por tudo aquilo, sentia que os gemidos da mulher entravam-lhe 
como punhais pela carne. Por que no mandara buscar dona Nair, mesmo doente, por que atendera aos rogos da mulher, sempre corajosa, que no quisera aumentar o sofrimento 
materno? E se Maria Rosa morresse? E se tudo aquilo tivesse um desfecho trgico? E arrancava os cabelos, e mordia os punhos, tropeando, insensvel, pelos mveis, 
indo  cozinha, voltando  sala, tapando os ouvidos.
         Meu Deus! Meu Deus!
        Chegava at junto  porta, queria entrar, a ver se podia fazer alguma coisa, horrorizado. Afinal, criou coragem. Apontou a cabea.
         Posso fazer alguma coisa, dona Conceio?
         No. Saia. V passear. Marido s serve para atrapalhar. Vai indo tudo direitinho, graas a Deus. Sua mulher vai ter uma filha que  uma beleza.
        Sentiu um grande alvio. Nem teve coragem de olhar a mulher. E tornou a correr, atarantado, ouvindo novamente os gritos dilacerantes da esposa.
        Quando os gritos se amiudaram, apavorado, dentro de um pesadelo, Campos Lara ganhou a rua.
        
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        Maria Rosa nem acreditou. Uma placidez imensa dominou-lhe o corpo. Navegava mansamente, num mar bonanoso. Parecia voar. Agora flutuava leve e sutil, no 
espao, como em todos os sonhos durante a gravidez. Tudo acabara. Ouvia a doura infinita, a suprema alegria daquele choro infantil.
          menina!
        Cerrou os olhos suavemente, sem coragem, sem foras para sentir toda a felicidade daquele momento.
         Uma filha!
        Estava longe todo o sofrimento inaudito daquelas horas. Nem se lembrava mais de haver sofrido. Uma filha... Estendia o olhar devagarinho para ver, tmida, 
cansada.
        Nem queria pensar. Era uma alegria fsica, primitiva, animal, um bem-estar que nada poderia definir. Era uma coisa no corpo.
        Pareciam chegar de um mundo distante aquelas vozes. Viu sangue. Viu gente falando. Viu coisas revoltas. Ouviu um vagido manso, doce, pequenino.
          preciso pesar a criana.
         Quede o pai?
         Que belezinha!
         Que graa!
         Que amorzinho!
        Um torpor manso foi-se apoderando do seu corpo. Ah! ia dormir!
        Maria Rosa nem acreditou. Uma placidez imensa dominou-lhe o corpo. Navegava mansamente, num mar bonanoso.
        
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        Campos Lara nunca poderia dizer onde esteve. Subira pela rua desvairado, como louco. Sabia que andara gritando, que chorara, que julgara chegada a sua ltima 
hora, que era um monstro.
        Voltou depois. Era de madrugada ainda, ou j era dia. O mundo era uma coisa estranha, uma tempestade interior. O mundo no havia.
        Viu fechada a casa. Deixou-se dominar por um desespero alucinado, correu  porta, bateu, bateu furiosamente. Que havia acontecido? Rosinha morrera? Acontecera 
alguma desgraa?
        A vizinha veio abrir.
         Meu Deus! Que barulho! O que  isso? E vendo o seu ar de alucinao.
         Que  isso, seu Juc! No houve nada! Est tudo bem!
         E Maria Rosa?
         Acordou agora.
         Mas no morreu? Est tudo bem?
         Ora! Venha ver que beleza de filha! Venha ver que amor!  a cara do pai!
        E conduziu-o para o quarto. Maria Rosa acordara. Tinha os olhos mais doces, tinha os nicos olhos em que jamais Campos Lara conseguira ler a felicidade.
         Maria Rosa!
         Juc!
        Atirou-se de joelhos, chorando, junto  cama. Ela passou-lhe os dedos aveludados pelos cabelos.
         Veja a sua filhinha...
        Campos Lara olhou. Era um embrulho de pano, ao lado da me. Uma coisa minscula que dormia, os beicinhos roxos, dois pontinhos abertos no nariz.
        Quis ver melhor, no pde. Os olhos se inundaram de lgrimas. Os dedos da esposa lhe acariciavam os cabelos.
         Minha filha!
        Beijou longamente a esposa.
         Deixe ela dormir agora - disse a parteira, j de sada. - Ela precisa de descanso.
        Campos Lara obedeceu. Renascia. Um sentimento de ressurreio, a certeza de que se prolongara, de que ingressara no tempo, de que agora no morreria mais, 
de que no era um ponto final. Ela, ele, eles continuariam na vida, na glria daquela filha.
        E a lira emudecida vibrou de novo dentro do seu corao, hino triunfal, canto festivo. Correu para a mesa de trabalho, havia muito abandonada.
        Glria!
        Glria foi o nome do poema que lhe irrompeu impetuoso, na alma renascida. Glria seria o nome da filha.
        Mas no foi. Maria Rosa no gostou do nome. Glorinha era a criatura mais faladeira de Sorocaba. Glria lembrava literatura. Maria Rosa no quis. Mas aceitou 
Irene, que em grego era Paz.
        
32
        Irene no foi a Paz. Foi mais trabalho, foi mais pobreza, foi misria. O oramento, dificilmente equilibrado, rebentou de uma vez. A menina era fraquinha, 
chorava dia e noite, um tormento sem fim. Campos Lara, que tinha adorao pela filha, perdia logo a pacincia, exasperava-se. No podia trabalhar em casa, no podia 
ler.  noite, apesar do choro da criana, dormia como pedra. No havia jeito de faz-lo acordar, de conseguir-lhe uma ajuda. Isso quando no perdia o sono, agitado 
por algum livro em perspectiva. E ento explodia. Ralhava, gritava, protestava. Abrandava de repente, pegava a criana nos braos, punha-se a passear pelo quarto. 
Aquilo inquietava ainda mais Maria Rosa. Quando Campos Lara cantarolava, andando pelo quarto, para ninar a filha, esquecendo os versos, deixava-se tomar por uma 
sonolncia invencvel. O ninado era ele. E Maria Rosa precisava ficar alerta para, quando os esbarres se amiudavam, quando a voz baixava, cada vez mais lenta, correr 
em auxlio da criana.
         V dormir, meu filho. Eu tomo conta...
        Juc obedecia, metia-se nas cobertas, ressonava logo.
        Com dois meses faltou o leite a Maria Rosa. Novas angstias, novas despesas. E a vida do casal foi afundando cada vez mais. Aberto o caminho, um ano mais 
tarde, vinha Anita. Dois anos mais tarde, Joozinho, nome do av. E assim como Rosinha se acostumara com os versos do mando, banalizados pela freqncia e pela facilidade, 
Campos Lara se acostumou com o sofrimento da esposa.
        Via nela os repentes de fundo econmico, a diversidade de gnios, a diferena de educao e de temperamento. E como eram males insanveis,  prova de esforo, 
resignou-se, passou a viver no seu mundo, dentro das suas frmulas livrescas, das suas criaes mentais, ouvindo sem revolta, fatalisticamente, os protestos, as 
censuras, as acusaes, refugiado, para sempre, na sua arte.
        Debalde Maria Rosa o chamava  realidade. Em vo acusava-lhe a poesia, ridicularizava seus modos, verberava sua incapacidade para a vida, mostrando os filhos 
famintos, as roupas velhas, os mveis gastos, a loua quebrada e a biblioteca, sempre em ascenso, cada vez mais sortida.
        Um dos livros mais vitoriosos de Campos Lara tinha este nome simples: Conchego. Poemas de uma doura infinita, para alm de crist, em que o poeta cantava 
a calma remansosa do lar, a alegria e a glria dos filhos turbulentos, promessas de sonhos, ddivas divinas. Maria Rosa perpassava por ele idealizada, como o anjo 
protetor, a boa fada, a suave inspirao. Irene, Anita, Joozinho, viviam, pulavam, cantavam naqueles versos simples, serenos, alados.
        A prpria Maria Rosa se espantava de que o marido, sempre desatento, sempre alheado, fora do mundo e da terra, houvesse visto, sentido tanto. Frases, gestos, 
graas, muxoxos, que havia olvidado, renasciam agora com tanta espontaneidade, com tal arte, com tamanha verdade, envolvidos em tal paixo, numa to doce aurola 
de ternura, que ficou comovida. Aquele Juc era um mistrio. Mas quando o viu exaltado, quando os jornais e revistas o alcandoraram s nuvens, como o poeta mximo, 
como o poeta do lar, como um So Francisco de Assis de bondade e de amor, Maria Rosa lembrou-se do pouco ou do nada que o marido passava em casa. E da misria que 
na casa passavam, ele, ela, os filhos.
        E teve inveja, uma grande, raivosa e funda inveja de Creusa, cujo marido s lia a Lira do Capadcio, cujo marido no era o poeta do lar, cujo marido estava 
longe de ser um So Francisco de Assis, sustentando mesmo uma espanhola para os lados do Ipiranga, mas cujo marido ganhava dinheiro, vivia em So Paulo como prncipe, 
tinha casa comissria na Rua Mau, a mulher bem vestida, os filhos gordos e a barriga cheia. Ele, a Creusa, os filhos.
        
33
        Creusa, agora rica, visitava-a sempre, carregada de presentes para as crianas, roupas, brinquedos, bombons. Que humilhao! Como lhe doa a recordao dos 
tempos em que ironizava a prima, por causa do noivo. O homem de Tietr  que era marido. E quando Creusa se queixava das malandragens do esposo, Maria Rosa tomava-lhe 
a defesa.
         Ora, meu bem, voc est se queixando de barriga cheia. O que  que tem que ele se divirta l fora? Voc alguma vez passou pelo vexame de uma cobrana, 
de ouvir desaforos na porta, de ser corrida diante da vizinhana? Algum dia ele te negou um vestido, um manto, um anel que voc pedisse?
         No.
         Ento deixa que o homem pinte. Os homens so todos assim. Voc no se lembra o que papai fez quando moo? No v o que todos os outros fazem? Isso de pintar 
 o menos, contanto que nada falte em casa.
         Mas a gente fica humilhada. A gente tambm quer carinho...
         Isso nenhum d. Nos primeiros tempos  um mel que at enjoa. Depois  sempre a mesma coisa. Voc at deve dar graas a Deus. Ele no vive amolando, no 
comea com ciumeira, como faz todo marido pobre, que no tem outra distrao. E o que mais voc quer? A crianada no est forte, bonita, bem-vestida? Olhe, no 
leve a mal, mas eu preferia muito mais ter casado com um Gomes a casar com um aluado como Juc...
         Mas o Juc pelo menos  bom marido...
         Bom marido?  o que voc pensa. Um homem que deixa a casa na misria, que no tem dinheiro para despachar uma poo na farmcia, que no tem crdito em 
parte nenhuma, que no pe nada em casa, a no ser filho... Filho o seu tambm pe, com a vantagem de alimentar. E o meu, que me deixa aqui sozinha, fazendo fora, 
nestes trajes, com o corpo neste estado, tendo que fazer ginstica para arrumar e vestir as crianas?
         Mas  pelo menos uma criatura superior, um homem inteligente...
         Inteligente! Inteligente nos livros. Na vida,  o sujeito mais burro que eu j vi. Antes casar com um portuguesinho de armazm, mas ter cebola para temperar 
os pratos, poder comprar tudo o que  preciso para uma feijoada completa, ter uma boa garrafa de vinho na mesa, todos os domingos...
         Ora! Voc diz isso por dizer!
         Voc acha? Voc pensa que tenho prazer em me humilhar desta maneira diante de voc? Pensa que eu acho muito bonito ver voc sair daquele palcio...
         Que exagero, Rosinha!
         Palcio, sim senhora, palcio. Coisa mais bonita eu s vi nos versos do Juc. Na vida, nunca. Eu at nem gosto de ir  sua casa. Quando ns fomos l, no 
aniversrio do Ivan, eu voltei chorando, chorei mais de dois dias.
        Creusa teve pena. Ps-se a consolar a amiga. Falaria com o marido. Gomes tinha relaes, tinha amigos, poderia arranjar facilmente um emprego melhor para 
o Juc. Talvez at na casa comissria houvesse um lugar, talvez fosse possvel dar um jeito. Com as relaes do Gomes seria brincadeira arranjar um emprego de quinhentos 
mil-ris para comear.
        Quinhentos mil-ris! Era um sonho! Era a felicidade. E Maria Rosa, agradecida, esperou, confiante, que o marido chegasse. Devia procurar o Gomes no dia seguinte. 
O Gomes salvaria a ptria.
        Mas quando falou com Lara, o marido revoltou-se. Ento pensava que ele precisava de esmola? Ento achava possvel que ele fosse trabalhar como escravo daquele 
idiota? Ento julgava que ele, Campos Lara, estava disposto a acabar a vida examinando amostras de caf, furando sacas, na porta da casa, para ver o tipo, como um 
cretino qualquer? Estava doida! Nem que ele quisesse. No tinha jeito para aquilo. S os Gomes, s aqueles imbecis podiam dar alguma coisa em caf.
        Maria Rosa, paciente, procurou convenc-lo. Sim, Campos Lara era um grande poeta. Fora feito para outra coisa. Esprito superior, ningum duvidava. Mas a 
vida era assim. O Brasil era um pas atrasado. Ningum vive de escrever. Principalmente quem tem filhos. E as crianas estavam passando fome. Irene andava quase 
pelada. Anita no sarava mais da coqueluche. O menino parecia esqueleto. Com aquela vida, no formava leite, a criatura tinha que se agentar com papas e mingaus. 
Tudo estava carssimo. J haviam sofrido um despejo. O aluguel estava atrasado. Seu Moreira disse que no esperava mais. Ficava feio viver de emprstimo. Ele achava 
humilhante pedir emprego, trabalhar com o Gomes, mas j mais de uma vez fora pedir-lhe emprstimos, para pagar no ms seguinte, emprstimos nunca pagos. Isto, sim, 
era triste. Trabalhando com o Gomes, ganharia mais, receberia dinheiro no dia certo, pagaria o que lhe devia, no precisaria mais negar-se a visit-lo, com vergonha 
das dvidas, pagaria os outros, arrumariam a vida.
        E com o seu tato fino de mulher:
         Voc vai ver. Em pouco tempo voc est cheio do dinheiro, poder abandonar o emprego, dedicar-se exclusivamente  literatura. Com a vida arranjada, voc 
poder at escrever livros melhores, coisa mais pensada...
        Campos Lara deixou-se convencer. Procurou o Gomes. O parente, industriado pela mulher, acolheu-o com simpatia. Sim, tinha um lugar. No era muita coisa. 
Mas seiscentos mil-ris davam para ir tocando o barco. Quanto ganhava ele?
         Tre... trezentos e cinqenta.
         Pois ento! Com seiscentos mil-ris voc endireitar a vida. E pode contar com aumento. Assim que voc esteja dentro do negcio, que conhea o assunto, 
pode contar com aumento.
        Chegou mesmo a acenar com o futuro. Talvez acabasse interessado na casa.
        Campos Lara voltou triunfante. Despediu-se do colgio, onde era tolerado apenas pelo nome, que figurava com honra nos prospectos, deixou o jornal, onde o 
diretor intimamente se congratulou. Lara no rendia. E entrou para a casa. Mas uma semana depois deixava o emprego. No agentava o meio. No poderia viver entre 
aquela burrada. E ficava agora sem apoio, sem qualquer fonte de renda.
        
34
        Foi ainda o Gomes, o burro, o desprezado leitor da Lira do Capadcio, que lhe veio em socorro. Pagara o ms inteiro, fingindo dar muita importncia ao servio 
que lhe prestara o amigo, lamentando que ele no se acostumasse.
        E, com um gesto de delicadeza, imprevisto num vendedor de caf s toneladas:
         A casa at ganhou fama. Foi a melhor propaganda nossa. Quando souberam que voc estava trabalhando conosco, que o poeta Campos Lara entrara para Gomes, 
Correia & Cia., ns subimos de importncia.  pena voc no continuar.
        No era maldade. Campos Lara tomou como ironia. Emburrou. O Comissrio no se deu por achado. Pagou o ms inteiro, deu quitao das dvidas, ficou mais preocupado 
que o amigo, com a situao que se armara. Ele era em parte culpado. No devia deixar que o Lara abandonasse os empregos anteriores. Devia prever a sua inadaptao. 
Mesmo porque no sabia coisa nenhuma, no entendia de coisa nenhuma. Os empregados da casa, ignorando a propriedade do termo, chamavam-no de poeta.
          poeta! Voc viu aquela nota de despacho?
          poeta! Poeta?
        Campos Lara olhava, cachorro corrido, humilhado e feroz.
         Voc no sabe onde foi parar aquele conhecimento de So Manuel?
          coisa! Voc, que  meio poeta, quer me ajudar a escrever uma carta para aquele vagabundo do Mendes? Eu quero dizer uns desaforos em bom portugus para 
aquele safado
        E Gomes comeou a procurar soluo. O ideal seria um emprego pblico. Mas no tinha ligaes polticas, no sabia em que direo mover-se.
        Foi quando, em conversa com um fazendeiro do interior, soube que estavam pensando, na localidade, em abrir uma escolinha. Se houvesse algum disposto a ir 
para l, ensinar, seria um achado. A escola pblica no prestava. Garantia uns vinte ou trinta alunos, para comear. A cinco mil-ris cada um, dava para um professor 
ir tocando. O diabo era arranjar as carteiras.
        Gomes achou que a coisa vinha a talho de foice. Ele montaria a escola. Tinha um amigo em condies.
         Mas  competente?
         Oh! Sim!  um colosso!  at um grande poeta, um parente meu.
         Parente seu? - perguntou o outro, incrdulo.
         Sim.
         Como se chama?
         Voc deve conhecer de nome.  o Campos Lara!
         Quem?
         Campos Lara! O grande poeta Campos Lara! Campos Lara ou Joo Silva, o nome era totalmente estranho. Mas o fazendeiro concordou. Fecharam o negcio.
        E veio Capinzal.
        
35
        Em Capinzal o bom Campos Lara fracassara tambm.  princpio fora uma festa. O prprio Chorinho da Baixada, regido pelo Nhonh, fora mobilizado para a inaugurao 
da escolinha. O Chico Matraca fizera um discurso puxado, repleto de citaes de almanaques e de folhinhas, que viera, com os anos. entesourando na memria. Tenra 
e delicada e a flor da amizade. Mas se o verme da desconfiana a morde, fecha doridamente os olhos e fenece. Pensamento lindo, como esse, Chico Matraca sabia inmeros, 
que citava a todo propsito, abrindo mo, honestamente, da paternidade:  como dizia o filsofo...
        No discurso de recepo, Chico Matraca atingira o clmax de sua carreira. Num jbilo festivo e alcandorado, a potica e viridente Capinzal via chegar, em 
passos sutis, pisando levemente a alfombra ainda mida do suave orvalho da manh, com sua sandlia de ouro, a voz do progresso e da instruo. Uma era nova se abria 
aos filhos diletos daquele idlico e aprazvel recanto da nossa imensa e idolatrada ptria. De agora em diante Capinzal, iluminada pelo facho da instruo, ingressava 
neste imenso, colosso gigante, como dissera o poeta, para lutar ombro a ombro pela grandeza deste amado Brasil, onde os talentos cresciam espontneos, brotando do 
hmus rico da terra feracssima, privados, porm, de um cultivo que os poderia elevar aos maiores pinculos da glria. No. Capinzal no poderia vegetar  sombra 
enquanto os outros centros de So Paulo alteavam-se pelo saber e desafiavam, pela cultura de seus filhos, as maiores naes da terra! Ele j dissera algures que 
ao Brasil s faltava a cartilha para ser o mais poderoso pas do orbe terrqueo. Verdade maior no h. E a prova  que a vinda do magno poeta Campos Lara vinha iniciar 
uma era nova. Dentro de dois ou trs anos, a intelectualidade pujante de Capinzal se alcandoraria aos paramos mais altos. No que ele duvidasse do valor atual do 
nobre povo capinzalense. No ignorava os talentos robustos que ali viviam, desajudados dos poderes pblicos, mas capazes de ombrear com os maiores intelectos da 
culta Inglaterra ou da devassa Frana! No! Longe dele to ignbil pensamento. Mas Campos Lara, de lira em punho, viera romper os grilhes que impediam vos mais 
altos sob o cu generoso e aurifulgente que iluminava com seu calor, vindo do seio do Altssimo, aqueles prados amenos, aquelas campinas verdejantes, aquelas suaves 
colinas, que arfavam como colos de virgem!
        E enxugando o suor, e agradecendo os apoiados, Chico Matraca fez o elogio do poeta que descia do Parnaso, desistindo de cavalgar o Pgaso fogoso e indmito, 
para cingir a veste humilde mas excelsa do Mestre-Escola. J aquele santo que fora imperador do Brasil, o magnnimo filho do augusto proclamador da nossa independncia, 
dissera: Se eu no fosse imperador, seria mestre-escola. Sim, senhores, era desse estofo o nobre bardo que preferiu olvidar por um momento a Lira em que dedilhara 
tantas obras-primas, para trabalhar pela alfabetizao deste Brasil bem querido!
        O discurso fora longo. A cada passo, como dissera o filsofo, Chico Matraca pensava que abrir escolas era fechar prises, que a instruo  o fanal do progresso, 
que a ignorncia amesquinha, o livro redime, que instruir os povos  faz-los grandes. E perorando - oh! bendito o que semeia livros, livros  mo cheia! - abraou 
o poeta, menos para abra-lo que para ser abraado. Aquela orao devia estar fazendo tremer de inveja, na sepultura, as cinzas de Ccero, Demstenes e Lopes Trovo.
        
36
        Maria Rosa tinha razo. Faltava jeito para lidar com os homens. Era um intratvel. Era mesmo um traste. Em vez de cultivar amizades, encolhia-se na concha, 
palermo, feito lesma. Os outros aproveitavam a inteligncia para subir, para agradar, para conquistar os mandes. Ele no. De que valia tanta inteligncia se no 
soubera jamais conquistar a simpatia de um deputado, de um coronel, de algum que o pudesse ajudar na vida? Dizia ter nojo da poltica. Muito bem... Que tivesse! 
Mas que no tivesse nojo dos polticos, porque so eles que mandam. Nem sabia direito os nomes dos secretrios de Estado. Mas quando pegava na pena para escrever 
coisa que no fosse verso ou literatura intil, era para atacar o governo, cham-lo de desonesto, lorpa ou imoral, cavando inimizades, criando antipatia. Ainda bem 
que nem sempre os jornais publicavam. Campos Lara ficava revoltado e ia procurar o primeiro pasquim para divulgar a moxinifada. Fora sempre assim. Em Capinzal era 
a mesma coisa.
        E Maria Rosa indignava-se com o esposo. Nunca visitava o subdelegado, o subprefeito, os chefes da terra. Nem sequer fora agradecer ao fazendeiro, que lhe 
facilitara o arranjo da escolinha, a generosidade do gesto. E malquistara-se logo com o Matraca, o terrvel, o furioso Matraca, uma das maiores influncias da zona, 
ntimo dos fazendeiros, comensal da autoridade, que se carteava com deputados, secretrios, at com o presidente do Estado. O meu amigo Glicrio, o meu velho amigo 
Rodrigues Alves... Todos os chefes do partido, a que ele servia com dulurosa lealdade, eram seus ntimos. E Juc, em vez de cultiv-lo, incompatibilizara-se logo 
com o homem. Que era um cretino, um safardana, um tranca. Tranca era ele, que nem amigos sabia fazer.
        Nunca pisara em casa do Matraca, por mais que o rbula o convidasse. Preferia perder horas e horas no salo do Oficial, olhando, sem ver, quatro oleogravuras, 
marcadas de moscas, que lhe ornavam as paredes, lembrando episdios da histria de Genoveva de Brabante, ou duas latas envoltas em papel crepom, de onde emergiam 
flores de papel de seda.
        Quem era o Oficial? Um idiota! Um leguelh! Mas Juc achava mais justo receber de graa e amparar o Empdocles e o Panflio, a dar mais ateno aos dois 
rebentos do Matraca, Floriano Peixoto e Benjamin Constant, matriculados na primeira turma.
        Desde a primeira semana Campos Lara tachara os meninos de burros como o pai e no queria perder tempo com eles. Em pouco, Matraca os transferiu para a escola 
isolada. E fora aquilo o incio do descrdito. Se o prprio Matraca achou que os meninos no aproveitavam na escolinha do poeta, quanto mais os outros!
        Matraca ainda fora delicado. Explicara ao Lara que, se retirava os pequenos, no era porque no estivessem aproveitando,  que a escola isolada ficava um 
quarteiro mais perto e ele queria estar sempre de olho com eles.
         O senhor sabe: criana, se no v o cabo do relho perto, degenera.
        Mas pelas costas Chico Matraca no perdia vasa. Campos Lara no tinha mtodo, no conhecia pedagogia, s estudara, de aritmtica, o necessrio para contar 
as slabas dos versos.
        E os alunos foram saindo. A vila s esperava o pretexto. Um, retirava o filho porque na escola isolada o ensino era gratuito. Outro, porque as crianas eram 
mais teis em casa ou no stio, levando o cavalo para a invernada, cuidando dos porcos, dando bodocada em passarinho, estilingando sapo.
         Esse negcio de ler s serve pra cansar a vista. Daqui a pouquinho est tudo usando culos.
        culos, que na linguagem da terra era zcre.
        
37
        Nas poucas visitas que, tangido pela mulher, fazia  Bigorna ou  venda do Ribas, Campos Lara s conseguia acentuar a sua inabilidade. A gente da terra no 
fazia outra coisa seno matracar na vida do prximo. Um dia, Campos Lara apareceu muito canhestro, disposto a conversar.
         Viu que sem-vergonha que t ficando a filha de seu Quim?
        Campos Lara arregalou os olhos. Era o Chico Matraca ou o Z da NhAna.
         No diga, Si!
        O homem falava. Que a mocinha parecia ter puxado pela me. Aquilo, se no casasse logo, caa na vida. Como  que um homem to bom - quer dizer, bom,  modo 
de dizer, que ele tinha os seus podres - como  que um homem to direito tinha uma filha daquela marca? Ota vontade de casar, Minha Nossa Senhora! Aparecia homem 
na terra ela ficava com fogo no sei onde e caa em cima. At com o Juquinha Santiago, aleijado daquele jeito, ela andava de namoro. Tambm, mulher s no casa com 
carrapato porque no sabe qual  o macho. A Doralice era assim. Diz-que saa com o Santiaguinho atrs, capengando, olhando as pernas dela - vamos e venhamos, as 
pernas eram boas! - como se aquilo no fosse uma indecncia. Deus que me perdoe, mas o Z da NhAna no punha a mo no fogo. Todo o mundo sabia que o Santiaguinho, 
apesar do defeito, era um mulherengo muito -toa. Tinha voltado uma vez de So Paulo ruinzinho do corpo, cheio de doena de mulher, que parecia que ia morrer. Diziam 
mesmo que havia feito mal a uma negrinha, na fazenda do pai. Deixara a menina de barriga e fugira. Foi um tempo quente. O velho custou a abafar o escndalo. No 
sei quem tinha dito que l em So Paulo ele andava de pndega na Ponte Grande com uma italianinha casada. Teretet, ele ia passear de tlburi com a sem-vergonha. 
O Venncio da Chica tinha visto. Ou no sei quem. O Santiaguinho preferia andar de tlburi, porque o defeito no aparecia. E o Venncio tinha visto os dois...
         Ela era bonita?
         Pra quem gosta de italiana, era... Pr meu gosto, no. Diz-que essa gente no toma banho... Acha que tira a fora... Deus que me perdoe!
        Enfim, o Venncio tinha visto o rapaz com a mulherzinha, passando a mo na canela da tal. Isso, no tlburi, pra toda gente ver! Por a podiam calcular o 
que no teria feito com a Doralice, perdida por arranjar casamento.
         Pra mim - lembrou o Matraca - se ela quer at aleijado,  porque aquilo no anda bom. Com certeza ela quer trocar algum defeito...
         Ah! Com certeza...
        E o farmacutico informava que o velho viera mais de uma vez comprar a Sade da Mulher. Ele no usava. Mulher no tinha. Era vivo. Era para a filha. Decerto 
pensavam que Sade da Mulher tirava filho...
         No   toa que eles tm aquela plantao de arruda...
        Um outro ficou horrorizado. Tirar filho era at pecado. Como  que seu Quim deixava? Seria o caso de falar com o vigrio. Alis, o vigrio no era l essas 
coisas. Padre Alberto, sim, fora homem direito. Tinha deixado uma poro de afilhadas em Lenis, mas isso do tempo de moo. Depois de velho ficara um santo. Era 
louco por dinheiro, mas ningum  perfeito neste mundo. No trazendo os cobres, besteira pedir, porque ele no encomendava mesmo o defunto. Tirando isso, no era 
m pessoa. Mas o vigrio de agora, Nossa Senhora que me perdoe, era do ap virado... Cozinheira podia ser preta, mas tinha que ser casada e moa. No viam ento 
que ali havia marosca? E depois; aquela mania de viver agradando menino, distribuindo santinho...
         Voc quer um santinho, meu filho? Ento passe l em casa.
        Por que  que no dava na rua mesmo? E por que  que no dava santinho pra criana suja? Mandava tomar banho primeiro, limpar as orelhas e trocar de roupa... 
No gostava de criana craquenta. Mania de limpeza. Por que  que s falava em limpeza com criana? Estava-se vendo logo a inteno. No sem justo motivo Matraca 
mandava buscar os santinhos em So Paulo e no deixava que os filhos aceitassem nada do padre. S iam ao catecismo, porque ele ia junto. E a Chica do Venncio j 
havia dito aos filhos que nada de andar tomando banho pra agradar o vigrio. Aquilo era safadeza. O Oficial, tambm ele, j tinha pensado em tirar os filhos at 
do catecismo, desde o dia em que o vigrio, elogiando muito a esperteza do menino, dissera que, se deixasse de dar estilingada em passarinho, ganharia um pacote 
de balas.
         Felizmente o Empdocles no vai em conversa de padre. No mesmo dia ele matou trs sanhaos.
        Campos Lara ouviu tudo num constrangimento infinito. Constrangido, especialmente por no ter o que dizer, por no falar. Podiam pensar que era orgulho. E 
para dizer alguma coisa, mesmo porque, a ser verdade, o padre seria um monstro, ele, que era livre pensador, aparteou:
         Mas como  que a Igreja tolera homens assim? No dia seguinte toda a vila o sabia: Campos Lara acusara o padre de perverter as crianas e queria incitar 
o povo a expuls-lo da terra.
        
38
         O que  que voc andou dizendo contra o padre? - perguntou dois dias depois Maria Rosa. Campos Lara acabava de sentar-se  mesa de pinho, queimada de ferro, 
onde se passava roupa e onde, nas horas vagas, escrevia seus versos. Olhou espantado.
         Eu? Nada.
         Eu acho que voc andou aprontando alguma das suas. A vila est fervendo.
         Que eu saiba, nada - insistiu Campos Lara, sem atinar com a coisa.
         Pois olhe, eu no me admiro muito se voc for enxotado daqui a rojo e toque de caixa...
         Voc est doida, Rosinha. Eu nem conheo o vigrio. Vi-o apenas uma ou duas vezes. Nem sei direito o nome dele.
         E se no sabe, como  que andou inventando calnia contra o pobre?
         Calnia? Mas de onde  que voc tirou tudo isso? Voc no deve estar boa.
         Quem sabe se sou eu... O que eu posso garantir  que toda gente anda fula da vida. Como  que voc tem coragem de caluniar um santo daquele, como  que 
voc, um sujeito de fora, vem para Capinzal lanar veneno contra as famlias da terra...
        Campos Lara encarou, grave, a esposa.
         Mas voc est falando srio?
         Voc me acha com cara de palhao?  srio, est claro que  srio!
         Mas eu no sei nem a respeito de que voc est falando...
         Pois eu no estou falando grego, pode estar certo. Nem mesmo em verso. Todo mundo sabe que voc andou dizendo, na Botica, que o Padre Mendes  um indecente, 
que andou abusando dos filhos do Oficial, que convidou o filho do Matraca para ir no mato com ele...
        Campos Lara ergueu-se:
         Vocs esto doidos!
         Doido ou no,  o que toda a vila diz. Dona Generosa veio horrorizada me perguntar at se voc no era bblia...
         Bblia? Ora essa!
         Sim, porque voc quis arrastar na lama o coitado do padre... Que voc disse que tinha visto o vigrio nu em casa com a Serafina...
         A preta?
         A preta. Isso mesmo.
         Mas da cabea de quem saiu tudo isso?
         Dizem que foi da sua. Que voc falou at que a escola no ia adiante porque o vigrio queria criar uma escolinha s para ter as crianas mais perto.
         S um bandido podia inventar uma coisa dessas!
          de bandido, mesmo, que esto chamando voc. E dona-de-casa:
         Eu fico desesperada! Fazendo o possvel por dar um jeito nesta misria de vida, trabalhando feito uma burra, quando tudo comea a tomar rumo, a escola 
querendo crescer, voc, com essa mania de atacar a igreja, arma uma entaladela dessas.
         Mas eu no armei coisa nenhuma! Se eu disse que mal conheo o padre...
         Ento como  que foi dizer que tinha visto o padre dando banho no sei em que menino, creio que no filho de dona Generosa?
        Campos Lara teve a impresso de estar  beira de um abismo a se abrir, inesperado, a seus ps.
         Mas isso  uma infmia! Eu nunca disse uma coisa dessas! Isso  inveno de algum inimigo meu!
         Pode ser. Mas o fato  que a vila est cheia. E voc no sai facilmente da entalada. Se ouvisse o que eu ouvi da dona Generosa, da SinhAna, da vizinhana 
toda... S hoje  que soube, mas desde anteontem que no h outro assunto. At j mandaram chamar o padre, que est em Botucatu, visitando uma tia...
         Pois bem.  melhor assim. Eu mesmo vou falar com o padre e esmago essas vboras!
        Desistiu de escrever. Saiu para a rua,  procura da velha gameleira amiga. E s ento reparou que, na vspera, faltara a classe quase toda e, naquela manh, 
dera aula apenas ao Haroldo.
        
39
        O vigrio ainda no voltara. Trmulo de dio, porque passara o dia remoendo a infmia, e desejoso de pr tudo a limpo, Campos Lara dirigiu-se  noite para 
a Bigorna. Terra pequenina e miservel! Serpentes venenosas! Ouvira, com invencvel nojo, aquelas calnias, suportara, com profundo asco, todo aquele babujar de 
fel sobre as vidas alheias e acusavam-no agora de autor de tanta misria, de tamanha baixeza! Como era imunda e repelente a Humanidade! Como era insultar os ces 
chamar um homem de cachorro! E disposto a esbofetear o primeiro infame que se apresentasse, irrompeu na farmcia.
        Ningum imaginaria possvel tal transformao no pacatssimo Lara. De seus olhos azuis, saam chispas de dio. Todo ele crescera. Tinha um punho forte, fechado. 
Ao v-lo de longe, a assemblia silenciara. Campos Lara avultou na porta, encarou os presentes, durante alguns segundos, procurando descer-lhes pelo olhar abaixo.
         Boa noite!
        A saudao estalou como chicotada. Ningum respondeu.
         Boa noite! Novo silncio.
        Campos Lara comeou a tremer. E com voz forte, pausada, enrouquecida, ps-se a falar, ele, que desconhecia todas as convenincias sociais:
         Quem foi o miservel que saiu por a, dizendo que eu falei contra o padre?
        Ningum respondeu.
         Eu quero saber quem foi o canalha, o infame, o covarde, que saiu dizendo pela vila que eu falei contra esse padre que eu nem de nome conheo?
        O farmacutico, o Venncio da Chica, o Oficial, dois ou trs mais, plidos, atolambados, continuaram olhando aquele homem inesperado, alto e grande, na noite 
estpida, que os fulminava com olhos de fera acuada.
         Ningum responde? Ningum respondeu.
         No h um homem aqui para responder?
        Dois ou trs esboaram um vago gesto de quem se sente insultado.
        Campos Lara, com um soco, fez tremer o balco, onde vidros e sabonetes saracotearam.
         Houve um cachorrinho que encheu a vila com uma calnia miservel, dizendo que eu inventei uma poro de coisas contra o padre. S podia ter sado daqui, 
onde anteontem vocs falaram no s contra o padre, mas contra a honra de uma moa que eu no sei quem , e contra o resto do mundo. Aqui no se faz outra coisa. 
Quem foi esse porco?
        O mesmo silncio.
         Vocs no so homens!
        Trmulo de dio, e desejoso de pr tudo a limpo, Campos Lara dirigiu-se  noite para a Bigorna.
        Campos Lara tremia da cabea aos ps, respirava alto e duro, o peito subindo, o peito descendo.
        Entrou pelos olhos do farmacutico, que tremia.
         Foi voc?
        Convocado inopinadamente, o homem readquiriu a personalidade, sorriu amarelo e servil, encolheu o ombro:
         Eu? Ora que idia1 Se eu no saio daqui!
         Voc no disse uma palavra a meu respeito?
         No, seu doutor.
         Voc no disse a ningum que eu falei mal do vigrio?
         No.
         Palavra de homem?
         Palavra de Deus - garantiu o outro.
         Est bem. Vejamos. Deve ser outro. Foi voc? Encarou o Venncio.
         Se algum disse que fui eu, mentiu. Eu quebro a cara de quem disse!
         Foi voc, Oficial?
         Eeeeeu?!
         Foi voc, coisinha?
         Como, doutor?
         Foi voc?
         Deus me livre! Eu no me meto na vida dos outros!
         Voc?
         Cruz, credo, seu Lara! Eu quero l saber de histrias!
        Campos Lara sacudiu uma risada nervosa.
          curioso. A calnia no tem dono... No foi ningum!
        Continuou a descer pelos olhos daquele pugilo de homens acovardados.
         Mas, mas quem foi que lhe disse, doutor?
         No importa quem disse. O que importa  que algum disse, que soltaram a infmia, que encheram a vila com essa misria. E eu quero hoje desmentir esse 
miservel.
        Sorriu:
         Mas parece que ningum falou... pelo que vejo... O Venncio da Chica arriscou:
         No seria o Matraca?
         Ah! S se foi o Matraca - apoiou, solcito, o farmacutico.
         Com certeza foi o Matraca - disse um terceiro. 
         Est bem, eu espero o Matraca - afirmou Lara. Ele vem aqui, no vem?
         No sei, disse vagamente o farmacutico. s vezes ele no aparece.
         Mas eu espero - disse Campos Lara.
        E comeou a passear em frente ao balco, onde sorria um grande anncio de dentifrcio.
         No quer sentar? - falou, solcito, o Oficial.
         No, estou bem de p!
        Oficial tornou a ocupar o tamborete.
         Querendo, no faa cerimnia.
        Campos Lara sentiu, naquele servilismo, que nem com o barbeiro podia contar. Era tambm inimigo.
        
40
        Matraca apareceu uma hora depois. O poeta esperara quase meia hora, passeando em silncio, indo  porta, voltando a olhar, com distrado interesse, os remdios 
enfileirados nas prateleiras, lendo anncios e cartazes.
        Na farmcia, uma expectativa silenciosa, de raro em raro quebrada.
         Est com jeito de chover.
         Tomara, mesmo.
        O homem da farmcia no ocultava o desejo de ver Campos Lara pelas costas.
         Pra mim, o Matraca no vem hoje.
         T com jeito - apoiou o barbeiro. Novo silncio.
         Com certeza houve alguma coisa em casa!
         No duvido no - disse o Venncio.
        Nova pausa constrangida. Campos Lara concentrava a ateno no anncio de um peitoral infalvel.
          capaz at de o Matraca ter viajado...
         Ser? - indagou, ansioso, um terceiro. Silncio outra vez.
         Oh! diabo! - disse o farmacutico. Tenho que aviar uma receita. Com licena.
        E amvel:
         Por que no senta, doutor Lara? Lara olhou-o com dio.
         Eu volto depois. E saiu.
        Quando o Chico Matraca chegou, foi um burburinho.
         Ih! seu Matraca, voc no pode imaginar quem esteve aqui  sua procura!
         Quem?
         Faa idia: o poeta!
         E da?
         Disse que queria quebrar a sua cara.
         O qu?
         Pois . Disseram para ele que o senhor tinha inventado esse negcio do padre com as crianas e ele tinha vindo pra encostar o seu nariz no cho...
         U! Que venha! - disse o Matraca, sorrindo. - Um homem  pra um homem. Venha que eu escoro! V l se eu tenho medo de poeta! Eu ando mesmo com vontade 
de sentar o rabo-de-tatu naquele porqueira!
         Mas o homem est feito louco!
        S a Matraca reparou no ar assustado de todos.
         U! Parece que vocs ficaram com medo do homem...
         Medo, no - disse, altivo, o Lus Drogueiro. - Medo no. Nem foi com a gente que ele ficou fulo. Foi com voc. Mas o jeito dele  de quem est disposto 
at a matar...
         Hein?
         Pergunte pr Oficial.
         Xi! - exclamou o barbeiro. - O senhor nem faz idia. Eu nunca vi seu Lara desse jeito. Parece uma cascavel! Deu cada murro a no balco que at caiu vidro!
         Disse que tinha chegado a hora do safado morrer - ajuntou o Venncio...
         Ora essa! - disse apreensivo o Matraca. - No sei por qu! Eu no fiz nada...
         Eu no sei - acrescentou um sitiante. - Mas pra mim seu Lara faz hoje uma besteira...
         Eu acho at que ele estava armado - lembrou o farmacutico.
        Matraca j no achava muita graa no caso.
         Mas contra mim? Que mal fiz eu quele tranca?
         Foi algum que encheu a cabea dele - explicou o barbeiro. - Eu j tinha notado que seu Lara no  muito bom, no. Aquele  meio ruim da telha. Por qualquer 
tiquinho ele vira ona. Eu acho que ele saiu de So Paulo j no foi por manso... Brigava at com poltico...
         Isso  alguma intriga - disse o rbula. - Eu quero saber quem foi o desgraado que inventou essa estrumela toda, que eu quero ensinar... No faltava mais 
nada pr a gente mal com um amigo...
          essa histria do padre - disse o Lus Drogueiro. - Andaram espalhando pela vila que o poeta tinha inventado aquela encrenca do padre com as crianas. 
O povo t louco da vida com ele. Seu Lara soube e quis saber quem foi que falou. De certo algum inventou que foi voc. Vai da...
         Eu pego esse desgraado...
         Ele ficou de voltar...
         No. No  ele. Eu pego quem me intrigou...
         Ah! isso  difcil - disse embaraado o mezinheiro. - Falam tanto, fica uma embrulhada... Ningum sabe depois de onde  que saiu.
         L vem ele! - disse o sitiante. Todos estremeceram.
        Graas a Deus no era. Chegava o capenga. No tinha visto o Campos Lara? Tinha. Estava com ar de louco, falando sozinho, dando soco no ar.
          hoje - disse apavorado o Oficial.
         Mas que diabo  isso? - fez o Matraca. - Eu agora  que pago o pato? Inventaram as coisas e depois sou eu que me arrumo com o homem? Quem saiu com a histria 
foram vocs mesmos...
         Eu no - disse o Oficial. Eu sempre fui amigo dele.
         Nem eu!
         Nem eu!
         Foi voc! - disse para o Venncio.
         Eu? Todo mundo sabe que no. A prova  que ele disse que matava era voc.
        Matraca estava em brasas.
         Mas ele estava armado?
         Eu acho que sim - disse o Lus Drogueiro.
         E vocs no tiveram coragem de reagir, seus covardes?
         U. ..
         Ento vocs tm coragem de ver um sujeito de fora, que vem ganhar a vida  custa da gente, quase pedindo esmola, ameaar um chefe de famlia de Capinzal, 
e ningum tem coragem de tapar a boca de um ingrato desses?
          mesmo! - disse o Venncio. - Tem razo!
         No chega o que ele inventou contra o padre - continuou o Matraca - e ainda tem o desaforo de ameaar de morte um sujeito a quem ele s deve favores?
          desaforo! - apoiou o farmacutico.
         Eu acho que ns devamos agora ensinar esse safado!
         Isso mesmo.
         Ele que aparea! - disse o Capenga. -- Agora ele vai ver! - disse o sitiante.
         Est a o erro de se trazer gente de fora para a terra da gente! - comentou o Matraca, excitado.
         Eu sempre disse isso - confirmou o dono da casa. E ficaram todos, numa agitao febril,  espera do poeta.
        
41
        Tinha sido um erro. Campos Lara no devia descer at aquela gente. Era pr-se  altura deles, emparelhar com aquela pequenina canalha sem espinha. Uns pobres-diabos 
irresponsveis, ignorantes, boalizados. Aparecer na Bigorna para tomar satisfaes ao Drogueiro, ao Venncio, quele vil e intrigante Matraca, era infantilidade. 
Sua atitude devia ser outra. Deixar a cainalha ladrar. Tantas vezes outros lhe haviam ladrado aos ps sem que lhes desse a honra de um simples olhar. E eram ces 
maiores e mais ilustres. Agora, por uma pobre intrigalhada de aldeia, perdia, dessa maneira, o controle. Sim. Fizera mal. Que o fel corresse. Que o veneno se espalhasse. 
Devia procurar o padre. Justo. Ele tinha direito a uma explicao. Verdade ou no, Campos Lara no o conhecia, no tinha a mais ligeira sombra de provas e de razo 
para falar. Nem tinha nada com isso. Mas fora calnia. Acusavam-no de ter falado. No falara. Diria ao padre. Ao padre, sim. Se era um homem, veria, compreenderia, 
apertar-se-iam as mos. Vivendo no interior h muito tempo, o vigrio devia estar acostumado quele ambiente de mexericos e de maldade mal aproveitada. Mas nunca 
deveria ter procurado os supostos caluniadores. E Campos Lara arrependia-se do repente enfurecido que o levara  farmcia. Nem sabia bem como para l se dirigira. 
Era sujeito a esses gestos bruscos, violentos, prprios dos grandes tmidos, dos inadaptados como ele.
        O pior  que estava agora na obrigao de voltar. Prometera e devia. Dissera que voltaria para ver o Matraca. Precisava. Seno, cham-lo-iam de covarde, 
toda a gente diria que, depois de roncar tanta bravata, se encolhera amedrontado.
        No havia remdio seno voltar.
        E Campos Lara saiu andando, quase at  gameleira, para encher o tempo, para aliviar o esprito, para compor uma atitude mais estudada, mais serena, mais 
de acordo com a sua vida de todo dia. Entraria com mais calma na farmcia. Procuraria o Matraca. Cham-lo-ia para uma conversa particular. Contaria que ouvira, dos 
seus companheiros, ter sido ele o autor de uma calnia gravssima. Era verdade! Talvez o fato no tivesse tamanha importncia. Fora tudo uma longa srie de mal-entendidos. 
Explicaria bem o que houvera. Apelaria para a sua honra de homem. E o Matraca, por vil que fosse, chamado ao terreno e  hiptese de uma honra que nunca tivera, 
havia de prontificar-se a desfazer o qiproqu, e estaria tudo salvo. Salvo, no porque Campos Lara temesse as conseqncias de uma atitude ou se apegasse, de unhas 
e dentes, quela situao precria, humilhante, de mestre-escola num lugarejo pestilento. Pouco se lhe dava aquilo. Em Capinzal nada compensava o sacrifcio de l 
ficar. J escrevera mesmo ao cunhado contando da sua situao e o Gomes chegara a sugerir-lhe que, se a escolinha no rendesse e se no lhe conviesse permanecer 
mais na vila, poderia vender as carteiras e, com o dinheiro, pr-se de velas para So Paulo.
        E com o esprito leve e tranqilo, j senhor de si, Campos Lara voltou  Bigorna.
        
42
        Nesse nterim, na sua gua predileta, o Padre Mendes regressara de Botucatu. Notou,  porta da farmcia, um desusado ajuntamento. Quinze ou vinte pessoas, 
algumas armadas de pau, deblateravam. Tocou o animal para a farmcia. - Boa noite, meu povo.
        Toda a gente, suspensa, encarou o vigrio, que surgia inesperado.
        Um ou outro boanoitou. Os demais boqueabriram-se.
         U! Seu vigrio...
        Chico Matraca, sempre o mais senhor da situao, falou:
         Boa noite, seu vigrio. O senhor chegou na hora. J soube do escndalo?
         Do escndalo? No. Como v, estou chegando de viagem. O que h?
        Vrias vozes quiseram contar. A do Matraca dominou. O vigrio ficou sabendo, estupefato, que Campos Lara, com aquele ar de sonso, de santinho de pau oco, 
era um mpio, um degenerado, um inimigo da f. No era  toa que nunca aparecera na missa. Nem deixava ir a mulher e os filhos. E andava caluniando seu vigrio. 
No acreditava? E o Matraca hesitou. Mas o tempo urgia. Campos Lara, armado, devia aparecer de um momento para outro. Sim. Campos Lara falara mesmo em assassin-lo, 
a ele, Matraca, por haver tomado a defesa do vigrio contra as calnias levantadas.
         Mas que calnias?
        Matraca olhou os companheiros, a ver se algum se dispunha a falar.
         Eles sabem.
         Mas disse o qu, afinal? - continuou o padre. - Podem falar. Eu no tenho medo. Tenho a conscincia limpa.
        Campos Lara dissera coisas horrveis. Matraca nem tinha coragem de repetir. Eram infmias sem nome. Porm, como seu vigrio fazia questo de saber... E o 
rbula, a princpio gaguejando, mas depois fluente e feliz, quase retrico, deitou fora os horrores. Que seu vigrio abusava da situao. Que usava o confessionrio 
para macular a famlia capinzalense, que estava cheio de amantes, que um dos filhos da Quitria era filho do padre.
         At isso?
         Pois , seu vigrio. Ele pegou no fato de o menino ser meio mulatinho - ela  preta e o marido tambm - para dizer que o filho  seu.
         Mas isso  uma loucura - disse o padre nervoso, esmagado por aquela catadupa de acusaes.
         Todos ns sabemos. Ele  que inventou, para desmoralizar a religio.
        Examinou as cercanias, a ver se o poeta ainda no chegara. O ajuntamento estava cada vez maior e mais rumoroso. Cada afirmao do Matraca era interrompida 
por apoiados, por detalhes novos.
         E depois... - Matraca ia entrar agora no ponto nevrlgico - at com essa histria dos santinhos o professor implicou...
         Mas que histria de santinhos? - disse o padre, sempre a cavalo, cada vez mais constrangido, diante daquela multido indiscreta.
         Pois , seu vigrio, o pessoal pode confirmar... E gaguejou outra vez.
         Conte, seu Lus.
        O farmacutico hesitou.
         Eu no sei bem. No estava na hora. Mas parece que ele andou dizendo que seu vigrio dava santinhos aos meninos para...
         Para qu? - perguntou furibundo o padre.
         Para... para perverter as crianas...
         Perverter? Com santinhos? Ora essa!  a primeira vez que eu ouo dizer que uma imagem de Nossa Senhora, de So Pedro ou de So Sebastio pode perverter 
o esprito juvenil... - ripostou o padre, mais  vontade.
         Mas  que ele disse - acrescentou o Venncio - que o senhor levava os meninos para sua casa, quando ia dar os santos.. .
         E da?
         U - disse o Capenga. E que l o senhor pegava as crianas...
        O padre chicoteou a gua, que empinou a cabea.
         Mas isso  uma infmia!
         A gente sabe, seu vigrio. Foi ele que disse. Que o senhor dava banho no filho de dona Generosa...
         No meu, no - gritou a velha.
         Eu sei que no - disse o Capenga. - Foi inveno do tal poeta. At da senhora ele falou...
         O qu?
        E o Capenga sorriu.
         Pois ... Disse que a senhora andava de pouca-
         vergonha com o padre!
         Eu? Cachorro! Eu? T vendo, seu vigrio? T vendo que cachorro? Na minha idade...
        O Venncio aparteou.
         No foi com o seu vigrio que ele disse, dona Generosa. Foi com o Padre Alberto...
        E Campos Lara foi transformado repentinamente em seo-livre. Toda a babugem, todas as calnias, todas as intrigas da vila vieram  tona. E homens e mulheres 
se acusavam. Campos Lara disse que o Capenga desonrara a filha do seu Quim. O Capenga disse que Campos Lara dissera que dona Felicidade era amante do fazendeiro 
da Meio-Dia. Outro, que o padre emprenhara Nh Cotinha. Outro, que o filho de seu Zeca da Ponte era macho-fmea. Mais um, que o vigrio s pensava em dinheiro. E 
desonras e perverses e paternidades duvidosas e roubalheiras surgiram, por entre insultos, clamores, at bofetes.
        Foi quando apareceu Campos Lara.
      43
        O professor vinha sem pressa. Espantou-se, avistando o grupo formado  porta da farmcia. Vozes roucas, insultos. Seria com ele? Teve um segundo de vacilao. 
Mas reagiu. Tocou. Mais perto, distinguiu o vulto do padre a cavalo. timo! Liquidaria agora, corajosamente, a questo. Ao ser notado, aguardou-o um silncio repentino. 
Percebeu que dois ou trs fugiam. Que todos recuavam. Deu mais alguns passos. Parou. Gente desviava os olhos. Alguns olhavam, incertos. Fitou o padre, passeou a 
vista pela assemblia, encheu os pulmes, cruzou insensivelmente os braos sobre o peito, num gesto instintivo de desafio. A atmosfera de hostilidade era visvel. 
Num relance Campos Lara viu os homens armados, compreendeu que um simples gesto o perderia e, num relmpago de humor, achou graa na situao. Ele, o pacatssimo, 
a tbua de bater roupas de casa e da vida, metido naquela enrascada absurda e ridcula, num lugarejo perdido do interior. Sentia uma calma profunda, agora. Percebeu 
que jogava uma cartada de vida ou de morte. E no quis perder.
         O Matraca est a?
        A voz firme. O ar decidido. Uma serenidade fria e segura, indita na sua vida. Toda a gente, expectante, hesitava.
         O Matraca no est?
         Est a - informou uma voz covarde e solcita. Chico Matraca, que se escondera atrs de alguns amigos, apareceu. Quis ser valente.
         Estou! Matraca vai ele!
        A sada foi infeliz. Alguns risos o mostraram.
         Venha aqui para o largo. O homem titubeou.
         Venha aqui no claro. Temos que falar. Matraca olhou os companheiros. Ningum ia tambm?
        Ningum ia.
        Campos Lara sorriu.
         O que  isso, homem? Est com medo?
         Eu? Medo? Eu no sou covarde! - roncou o rbula, e saiu da fileira.
         O que  que o senhor deseja? Quer me matar? Mate, que mata um homem!
        E sua voz tremia!
        Campos Lara percebeu o ascendente. Assim como o haviam tornado autor da calnia, as linginhas da terra tinham-no armado tambm, novo Dioguinno improvisado.
         Eu no mato cobra. Piso em cima.
        Vacilou, num segundo fugitivo, sentindo-se ridculo. Mas no podia ceder terreno, ou estaria perdido. Olhou o padre.
         O senhor  o vigrio?
        O padre, que observava em silncio, e comeava a compreender, esboou um sorriso:
         Parece...
         Muito bem - disse Campos Lara, que continuava a dominar o grupo. -- Esse homenzinho...
         O senhor est me ofendendo... - quis dizer o Matraca, para ganhar terreno.
         Voc  um homem que no se ofende.
        E quase a agarr-lo pelo pescoo, dirigindo-se ao padre:
         Este homenzinho  um caluniador de papelo, um porco!
        O porco, o grande palavro de Campos Lara, reboou, sonoro. Matraca apenas esboou um gesto vago, sentindo-se desamparado, vendo, pela atitude dos companheiros, 
que teria de enfrentar sozinho aquele demnio enfurecido em cujos olhos fulguravam chamas infernais.
         Mas o que h? - perguntou o padre, como se nada soubesse.
          simples - disse Campos Lara. - Este homenzinho criou uma poro de calnias...
         Contra mim?
         Contra o senhor ou contra mim, no sei bem. Sei que ele me fez autor de uma poro de misrias em que envolveu o seu nome. E eu quero agora que ele sustente, 
se  homem...
         O senhor est me insultando, doutor!
          engraado... Eu estou insultando voc, no ?...
        E como se a assemblia estivesse com ele:
         Este cachorrinho vai agora sustentar, se for homem, o que disse contra mim...
         Cachorro, no senhor! Veja l o que diz! Eu no admito que o senhor me ofenda!
         Est bem. Este cavalheiro, este nobre cavalheiro... O Lus Drogueiro sorriu, mostrando haver apanhado a ironia, satisfeito com a entalada em que o amigo 
se metera.
         Este Chico Matraca - prosseguiu Lara - vai sustentar agora o que disse!
         Mas eu no disse nada!
         Ah! voc tambm no disse nada? Ento ningum disse?
         Ningum... - apressou-se a dizer o Oficial.
         Est vendo, seu vigrio? O senhor j deve saber do que houve. Mas ningum foi o pai da calnia. No partiu de ningum. Nem foi este poltro, nem foi o 
Drogueiro, que foi quem disse que tudo partira do Matraca.
         O senhor est enganado, doutor - disse perturbado o farmacutico, aterrado ante o olhar do rbula. - Eu s disse que talvez...
         Aqui  s talvez ou ouvi-dizer. Ningum tem espinha. Ningum  homem para sustentar o que disse!
        Houve um murmrio de desaprovao. Campos Lara tornou a emudecer o grupo, com um olhar.
         Ningum  homem! Caluniam pelas costas, apunhalam pelas costas, mas quando enfrentam um homem...
         Um homem, no, um assassino! - tentou dizer o Matraca, desejoso de explorar a situao em seu favor.
         Pois bem. Assassino! E da?
         Nada, u... Estou s dizendo... O professor avanou para o vigrio.
         No tenho mais nada a dizer. Somente ao senhor, que mal conhecia de vista, eu devia uma explicao. Essa explicao  agora perfeitamente dispensvel. 
O senhor acaba de ver e pode julgar. A coisa  com as suas ovelhas. Entenda-se com elas... Boa noite! Voltou-se para sair.
         Doutor Lara? - disse o vigrio. O poeta deteve-se.
         Aperte esta mo.
         Obrigado.
         No pense mais nisso. Boa noite.
        Campos Lara deu alguns passos. O murmrio recomeou. Parou, voltou-se, olhou. O murmrio cessou.
         Gostei de voc, Juc! - disse Maria Rosa, que surgiu da treva, tomando-lhe o brao.
        
44
        L vem a literatura outra vez! Era aquele o maior inconveniente de So Paulo. Em Capinzal, pelo menos, Campos Lara dera uma folga, livrara-a de aturar a 
fauna odiosa de artistas e escritores. Era uma gente desordenada, palradora, que enchia a casa fumando, falando alto, rindo ruidosamente, como se fosse dona do mundo.
        Campos Lara desesperava-se com a maneira hostil, agressiva, da companheira. Maria Rosa no ocultava a antipatia que lhe inspiravam aqueles homens.
         So uns empatas! Ficam a conversando, at no sei que horas, enchendo a casa de fumaa, enfedegando a sala, emporcalhando as mesas e o cho com cinza 
e pontas de cigarro. Ainda se tivessem alguma utilidade...
        O pior  que as meninas, reproduzindo as apstrofes maternas, cometiam indiscries imperdoveis.
         Ih! mame! A mulatada est chegando! Algumas vezes chegava ao conhecimento deles a reao da famlia. O prprio Bencio Teles deixara de aparecer, desde 
que Irene, com sua franqueza infantil, lhe perguntara se era verdade ou no que ele no tomava banho.
        O fato  que Campos Lara s ficava bem, s se sentia  vontade, em companhia daquela gente. Fora aquele o sofrimento supremo de Capinzal Reingressado em 
So Paulo, tinha de novo com quem falar de livros, a quem ler os poemas, de quem ouvir novidades Na vila, a no ser o Oficial, no tinha confidente. O Oficial o 
trara, para no ficar mal com a freguesia toda, tomando posio por forasteiro que fazia a barba em casa. Nem para assumir atitude contra o padre, ele, cujo maior 
orgulho era a perfeio com que fazia coroas eclesisticas. At o Bispo de Botucatu, numa visita a Capinzal, elogiara a sua percia incomparvel. Abandonara-o, a 
ultima hora, no momento mais difcil. E mesmo nesse gesto o literato latente que era o barbeiro no se diferenava dos seus colegas mais ilustres de So Paulo ou 
do resto da terra
        Campos Lara no tinha iluses sobre a amizade e a admirao dos colegas Vivera o bastante para saber que, viradas as costas, seria para o Bencio, para o 
Correia Mota, para o Adalberto Vilaa, para todos os outros, o cretino, o imbecil, o poetastro que eram todos os ausentes. Mas precisava profundamente daquela companhia. 
Afinal de contas Bencio, Mota ou Vilaa, todos funcionavam para ele como o Oficial, como chance para o desabafo, o jogo das idias, a nica atmosfera que lhe 
parecia respirvel, a dos livros
        Contanto que Maria Rosa no disparatasse, que os deixasse conversando livremente, tudo corria as mil maravilhas. Bastava que viesse dispor os cinzeiros, 
reclame de uma grande fabrica de cervejas, com semblante no excessivamente agressivo, e que trouxesse, as tantas, uma xcarazinha de caf. Vinho, cerveja, coquetis, 
ningum esperava mesmo. A pobreza de Lara, por demais conhecida, no fazia estranhar o seu fracasso como anfitrio. E ademais, eram homens como ele mesmo. Queriam 
ouvir. Queriam falar. Queriam ser ouvidos.
        Campos Lara gozava de imenso prestgio entre os confrades. Velhos colegas, rapazelhos recm-iniciados na literatura, veneravam-no como a um mestre. Principalmente 
agora. De volta da roa, estreara no romance. Trouxera um romance de costumes provincianos, que acabava de rematar e que negociava, pela primeira vez com vantagem. 
Recebera um conto e pouco, antes mesmo da entrega dos originais. Um editor novo e audacioso, a quem lera os originais, entusiasmara-se com o trabalho. A notcia 
correra. Os literatos afluam Campos Lara lia alto os captulos, j em forma definitiva, nas provas, por entre conversas e bravos. Era um livro admirvel de observao. 
Revelava, no homem sempre areo, sem o sentido imediato da realidade, continuamente longe da terra, um aspecto por inteiro novo, que espantava particularmente a 
Maria Rosa
         Bravo!
         Esplndido!
         Soberbo!
        Os rapazes mais novos chamavam-no de mestre. A mulher embirrava, de forma soberana, com o titulo
         Isso  hipocrisia Juc. Pode estar certo de que  hipocrisia. Saindo daqui, eles falaro de voc como falam de todos os outros.
         Talvez.
        Uma vaga tristeza lhe ensombrava os olhos. Por que seriam os homens assim? No. Nem todos seriam. Os rapazes pelo menos, no seriam. A mocidade era a franqueza, 
a candura, a fora, a bondade. E se falassem, falariam dele, o homem. Dele, no fazia mal. Mas no falariam do livro. O romance como toda a sua obra valia mais para 
Campos Lara do que o douto. Reconhecia os seus defeitos as suas falhas. Talvez fosse ate burro. Mas o livro no era. Tinha uma personalidade prpria, objetiva, sua. 
Era superior a Campos Lara. Sara dele. Ganhara vida prpria. Nem sabia como o tinha feito. O prprio Campos Lara surpreendia-se de ser ele o autor. Nunca pensara 
naquilo antes. O livro formara-se bruscamente, independente e vivo, dentro do seu esprito. E como no era dele, afirmara-se no papel, onde as letras nervosas, na 
febre medinica da inspirao, se haviam alinhado, folhas e folhas, centenas de folhas afora.
        
45
        O romance fora acolhido fragorosamente. As crticas, os elogios longos, derramados, espontneos. Lara teve o seu momento de gloria. Mana Rosa quase se reconciliara 
com a literatura, vendo os nqueis pingarem. Bafejado pela publicidade, Lara conseguiu logo reaparecer na imprensa. Entrara como redator de um matutino. Trabalho 
para quase toda a noite Ordenado modesto. Mas pago em dia. No chegava a cobrir as despesas. Deixava de p violentas, ameaadoras, as velhas dividas. Mas j entrava 
po. O aougue fornecia. Tinha at podido financiar a coqueluche que o Joozinho arranjara, ao chegar a So Paulo. O diabo  que Maria Rosa, que descansara alguns 
anos j sem medo, no conseguira evitar nova gravidez. E todos os temores, todas as angstias, todas as tribulaes do passado renasciam. Pensou at em atirar-se 
embaixo de um bonde, quando viu que todos os esforos falhavam para expelir o intruso. Mas no podia. Trs filhos estavam ali mal-vestidos, turbulentos, a solicitar 
o seu herosmo, a cham-la para a luta. O marido, mais do que nunca, vivia dentro dos seus livros. O xito do romance dera-lhe alma nova. E certo de haver passado 
a homem prtico, materialo, desistira da poesia. Verso no dava lucro. S faria romances. E dia e noite no pensava noutra coisa. Aparecia em casa alta madrugada, 
cheio dos seus personagens, do seu mundo interior. Tinha uma pergunta distrada sobre as crianas, sobre a situao da mulher. Passara bem o dia? No sentia tonturas? 
A criana no incomodava? Seria homem? Deus permitisse. Homem sempre teve a vitria mais fcil. E recaa no livro. Queria ouvir os ltimos captulos? Queria ver 
como andava a coisa? O coitado do Lopes, o personagem central, estava numa situao angustiosa. Lara nem sabia como se sairia ele daquela dificuldade. Lopes tinha 
vida  parte. Era to real, ou mais real, para Campos Lara, do que a mulher e os filhos. No era ele quem lhes transmitia o sopro da vida. Lopes era, Lopes havia, 
Lopes sofria. De maneira agoniante e trgica.
         Quer ver?
        Cansada, vencida, com o doce e manso fatalismo que a tomava, durante a gravidez, Maria Rosa acedia. E com voz trmula de emoo, s vezes enrouquecida, embargada 
de lgrimas, Campos Lara punha-se a ler. Seu dilogo era profundamente verdadeiro. As cenas reais, intensas, dolorosas. Uma onda de ironia, chispas doidas de humor, 
pontilhavam a narrativa. Mas nos trechos onde Maria Rosa sorria, pelo imprevisto da viso, pelo ngulo estranho, de onde se postava Campos Lara para sentir a vida, 
a voz do poeta assumia uma tonalidade triste e amargurada. Havia, ali, muito mais sofrimento.
         Que tal?
        Maria Rosa tinha gostado.
         Sinceramente?
         Sinceramente.
        Campos Lara reconciliava-se com o passado, com a vida.
         Voc tem passado melhor?
         Tenho
         Tome cuidado. Maria Rosa.  - preciso cuidado. Voc no acha bom tomar uma empregada, mesmo que seja uma menina, para ajudar?
        Pendendo de sono, pesadona. Maria Rosa o dissuadia No podiam pagar. Ela agentava bem o trance! A Irene estava grandinha e podia ajudar. J sabia fazer 
arroz, olhar a cozinha. As despesas tinham crescido com a gravidez. O medico mandara a conta. Tinham que pagar. Podiam precisar dele quando a criana nascesse.
        Campos Lara facilmente se convencia. Beijava a esposa, que desde a gestao do Joozinho ficara livre da primitiva repugnncia
         Ento durma, meu bem
        A esposa se estendia, embaixo das cobertas. Lara apagava a luz. Oxal tosse um homem. Coitado do Lopes .
        
46
        Saiu o livro e nasceu a criana Uma criana linda, um grande livro. Lopes matara-se no fim do volume. O menino - era homem, venceria facilmente na vida - 
vinha forte e robusto.
        Campos Lara vivia as voltas com gente nova. O filho nascera. Muito engraadinho, muito bom, muito amor. Mas no era com o filho. Nem com o Lopes. O livro 
j sara. Livro publicado, livro morto. Havia gente nova no seu crebro. Um novo romance fervilhava no seu esprito. Paixes em choque, almas ao desamparo.
        E o poeta, arrastado pela nova febre, esquecia-se da vida. Negligenciava as prprias obrigaes no jornal. Recebera um livro para traduzir, mas no se atrevia 
a atacar aquele trabalho, embora relativamente rendoso, til, porque seria roubar o tempo, de maneira vegetativa, que poderia ser melhor empregado numa obra de pura 
criao.
        O ltimo livro trouxera tambm algum dinheiro. Pouco,  verdade, para a voragem caseira - l estava o menino a exigir leitinhos e farinhas caras - mas sempre 
Maria Rosa conseguia sentir algum resultado palpvel das lucubraes do marido.
        Creusa continuava a amiga de todos os tempos. Maria Rosa no a procurava - o abismo era insondvel, distncia grande entre as duas - mas a prima, fingindo 
no notar, vinha sempre v-la, trazia as crianas, queria que crescessem amigas, como os pais haviam sido.
        Era ela que trazia os poucos brinquedos que entravam na casa. O primeiro chocalho do Anatlio, como o velocpede do Joozinho - que festa, em casa! - tinham 
sado do bolso amigo do Gomes.
        Observando que, apesar da nova atividade de Campos Lara, no fundo continuava a mesma vida, Gomes, num fim de ano, foi procurar o poeta. Precisava urgentemente 
dos seus prstimos. Tinha de escrever um artigo defendendo interesses vitais da sua classe. Era incapaz de escrever. Seria faclimo para Lara, sempre metido com 
jornais, profissional da pena. Daria as idias. Diria o que desejava. Lara daria a forma.
        O poeta pegou da pena, preparou um artigo magistral. Gomes via claro nos seus problemas, soubera expor o que desejava.
        Sado o artigo, triunfante e feliz, Gomes veio procur-lo. Tinha sido um sucesso. O governo tomara a srio as sugestes. A classe fora beneficiada. Os lavradores 
de caf estavam contentssimos.
         Quanto  que te devo, Lara?
        Campos Lara encarou-o, surpreso, quase indignado.
         Ora essa, Gomes!
         Eu quero pagar, Lara.  justo.
        O poeta nem quis conversar sobre o assunto. Ameaou de ficar zangado. E o nico meio que teve o comissrio foi entregar dias depois, s escondidas, a Maria 
Rosa, um envelope com quinhentos mil-ris.
        Que, como o dinheiro dos romances, quase nada fizeram. Continuava, em casa, moblia nova, comprada depois da volta de Capinzal, mas quase toda por pagar. 
Loua humlima, velha, feia, esbeiada. Cortina era um sonho. Roupa de cama, trapo. De vestir, frangalho.
        Um sossego relativo: os credores mais antigos, cansados, s de raro em raro apareciam. Maria Rosa avinha-se com eles, com os novos, com a realidade cotidiana 
e brutal. De arestas pouco a pouco adoadas, com o correr dos anos, o rolar montono do sofrimento, o treino dirio, j mais conformada com o marido, mais capaz 
de compreender, de uma nova compreenso, o seu feitio pessoal e inconsertvel, olhava quase com emoo aquele pobre lutador a seu modo, sofrendo com os seus personagens, 
sofrendo com a sua sensibilidade particularssima. Sofrendo mesmo com as misrias e problemas do lar. A seu modo, mas sofrendo.
        Quando o via desesperado, esquecendo o seu prprio mundo interior, perseguido pelas dvidas e credores, como um nufrago, sem sada, compreendia ser para 
ele um refgio aquele mundo irreal em que se abrigava. Tinha-lhe at inveja. Era uma forma toda especial de ser feliz.
        Uma tarde, Campos Lara sara, encolhido no seu terno usado, adquirido dias antes numa tinturaria. Maria Rosa observou-lhe, sem amargura, que ele andava agora 
mais distante das coisas do lar. Aparecia de fugida. Mal falava com os filhos. Passava longas horas fora.
         Voc, de terno novo, sempre longe de casa... Hum! Isso me cheira a malandragem...
         Hein? - perguntou Campos Lara, distante.
         Voc no anda me aprontando alguma das suas? Quando voc comprou o terno, eu disse logo: temos nova musa...
        Campos Lara sorriu. E segredou-lhe. Estava planejando um romance. Coisa nova. Seria um sucesso. Ia todas as tardes ao Brs, ao Bom Retiro, aos bairros operrios.
         Para qu?
        Era simples. Ia estudar os meios proletrios, onde a pobreza imperava, onde a misria negra tinha o seu domnio, para escrever um livro humano, profundo, 
real.
         E onde voc vai agora?
         Vou ao Bom Retiro... Fiz camaradagem com um pobre diabo. Est desempregado. Tem os filhos famintos. Vou me documentar.
        Maria Rosa teve a tentao de falar. No falou. Sorriu. Ir to longe, para estudar a misria.
        
47
        Os anos passaram. Os meninos cresciam. Os livros saam. Campos Lara tornara-se o grande romancista do pas. Tinha um nome nacional. Cartas chegavam de toda 
parte. Fugira sempre dos polticos. Ouvira, anos seguidos, os improprios da esposa, por no querer procurar coroneles e chefes eleitorais que o admiravam, para 
pedir emprego.
         Voc no presta mesmo para nada. Por que  que no arranja, pelo menos, um emprego pblico?
        Nunca pedira. No pediria nunca. Mas o seu nome enchera de tal forma o pas, que um deputado amigo se lembrou de arranjar-lhe uma achega. Campos Lara, alm 
de ser o maior romancista nacional, era amanuense de uma secretaria de Estado.
        A glria literria, sempre crescente, abria-lhe todas as portas. No as procurava, mas estavam abertas. O diretor de um colgio veio oferecer estudo grtis 
para os meninos. A Irene, a Anita, o Joozinho, estudavam agora.
        No fundo, Maria Rosa preferia que, em vez de escola, as crianas arranjassem emprego. O trabalho compensa. Irene poderia ser uma boa datilografa. Joozinho 
faria carreira, na casa de Gomes, Correia & Cia. O estudo poderia estrag-los, faz-los iguais ao pai. No apogeu da sua carreira literria, a merecer em toda parte 
mesuras e barretadas, de vez em quando um reprter em casa, para fotografar o romancista  sua mesa de trabalho, ou simplesmente a mesa - um retratara apenas o tinteiro 
e a caneta - Campos Lara vivia mediocremente, pobremente. Uma peleja to grande, para ganhar pouco mais do que um empregado de escritrio.
        Mas nem se atrevia a falar ao marido. Em certas coisas, Campos Lara conseguia ser inflexvel. Os filhos teriam que estudar. E apreensiva sempre, Maria Rosa 
auscultava as tendncias das meninas, j mocinhas, especialmente do filho, temerosa de ver o germe literrio se revelar. Sua esperana era que o seu quinho de sangue 
os salvasse. Os filhos, muito mais dela do que dele. A sua carne, o seu sangue, o seu sofrimento. Haviam crescido ao seu lado, passando privaes, vendo o mau exemplo 
e o fracasso do pai. E, sempre que podia, mandava o Joozinho brincar  casa do Gomes, com o garoto mais velho, ver a diferena, invejar-lhe a riqueza!
        
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        Veio a guerra no outro mundo. Veio um abalo universal. Idias novas, interesses novos, ideologias novas em cena. Uma cabea gloriosa, aureolada de espiritualidade 
e de doura.
        Trabalhava sempre. Um, dois romances por ano. Palpitantes de vida. Dolorosos de vida. Cheios de um ntimo, de um suave desencanto.
        Trabalhava pelo simples gosto de trabalhar, pela necessidade interior de produzir. J no havia aquela nsia moa e irrefrevel de glria. Chegara ao clmax 
da sua carreira. Todas as consagraes literrias o haviam coroado. As academias o disputavam. Os jornais. As revistas.
        Foi quando chegou a hora fatal da demolio. Aos seus ps, geraes mais novas disputavam-lhe o passo e o lugar. Uma turba irreverente, trinta anos mais 
moa, procurava lugar ao sol. Feita de outros sonhos, de outras tendncias, de outras inquietaes. Devorada por outros problemas. Buscando o seu rumo. Procurando 
afirmar-se.
        E na nsia de ocupar lugar, de encher a terra, no podia tolerar os velhos dolos. Campos Lara fizera-se um dolo. Campos Lara tornou-se um papo. Sua voz 
nada significava, reboava sem eco pelas quebradas do pas.
        A princpio, foi apenas a incompreenso, a perda de contato. Depois foi preciso destruir.
        E um dia uma voz moa, um nome desconhecido, abriu fogo. Escndalo. Revolta. Mais outra voz. E mais outra. Eram os devoradores. Era a nova gerao. A que 
seria a seu tempo devorada.
        E a palavra de ordem dos moos passou a ser a destruio de Campos Lara! Escarneciam da sua obra, zombavam do seu feitio, ridicularizavam a sua atitude, 
a filosofia, a forma, os cacoetes literrios.
        Escritor moo que desejasse aparecer atirava-se contra o papo. Escritores velhos, despeitados, sem saber que representavam outra verdade e outro tempo, 
faziam coro. O Bencio Teles ( verdade que o senhor no toma banho?) surgiu tambm na arena. Desancou o antigo irmo de caravana.
        E os pobres e os humildes e os vencidos que enchiam a obra de Campos Lara foram repudiados como falsos. O seu doce e brando ceticismo foi metido  bulha. 
Os tempos novos pediam afirmao, pediam coragem, no admitiam dvidas, ceticismo, encruzilhadas, braos cruzados, torres de marfim.
        E num fragor de tempestade que contagiava e crescia e se avolumava, toda a obra de trinta longos anos foi caindo e se desfazendo.
        
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        A princpio Campos Lara achou graa. Eram os ossos da glria. A glria combatida  a verdadeira glria. Outros haviam bebido  morte de DAnnunzio. No era 
de estranhar que um macaco indgena bebesse tambm  sua.
        Mas quando a onda cresceu e quando Campos Lara sentiu que a terra lhe fugia aos ps, quando se viu divorciado do pensamento novo, das novas inquietaes, 
uma desolao mortal encheu-lhe a alma.
        Subira sozinho. E estava s. Toda a sua obra rua. Trinta anos de trabalho. Cinqenta anos de sonho. Lutara tanto, sofrera tanto, sacrificara o melhor tempo 
da sua vida, sacrificara o seu lar. O seu amor, pelo seu ideal de arte. Julgara alcan-lo. Provara o gosto amargo da glria. E tudo agora esboroava. Todo o alto 
castelo que construra com lgrimas, com sofrimento, com paixo, esbarrondava ao simples sopro de uma gerao que o demolia, como ele tentara demolir trinta anos 
antes, com a mocidade do seu tempo, as glrias encontradas.
        Podia contar com a posteridade. Mas no contava. A posteridade o abandonaria, como o abandonava o presente, como o abandonara, na hora amarga, o pobre barbeiro 
de Capinzal.
        Com infinita amargura, feita de desapontamento e de fel, revia o grande erro da sua vida. Enveredara pelo sonho, esquecera a realidade imediata. Sacrificara, 
por aquele ideal intil, a felicidade dos seus. Nunca soubera ouvir e compreender a voz de Maria Rosa. Razo tinha ela. Antes houvesse aprendido a sua verdade, a 
verdade do Gomes. Teria vestido a mulher, alimentado os filhos. No os teria visto crescer envoltos em trapos, sofrendo privaes, passando vexames, sem ter provado 
jamais certas alegrias, s na infncia profundas e grandes. E tudo por causa do seu egosmo. Era o egosmo que via agora castigado. Sedento de glria, cego pela 
sua vaidade de escritor, no fora jamais o companheiro que Maria Rosa merecera, no fora jamais o pai a que os filhos tinham direito.
        Pelo amor de um livro a criar, de um romance a escrever, deixara que os filhos chorassem de fome, ouvira surdo, quase hostil, Irene pedindo vestido, Anita 
pedindo calado, Joozinho pedindo patim, Anatlio tossindo sem remdio - e aqueles gritos voltavam agora, e ouvia o pranto de novo - e vira, indiferente, egosta 
e mau, Maria Rosa lutando sozinha, Maria Rosa chorando, Maria Rosa imprecando, Maria Rosa, que ele se espantava de ver agora a seu lado, a incomparvel lutadora, 
a pedir-lhe que sasse, de chicote em punho, a chicotear aqueles ingratos, a castigar aqueles patifes!
        
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        E Campos Lara silenciou. Abandonou a pena. Passou a ser um trabalhador quase annimo de jornal, um simples operrio. O lugar da Secretaria, s, no bastava. 
A multido de livros publicados trazia-lhe ainda, de quando em vez, uma achega irnica.
        Fugia agora aos literatos. Via em cada antigo companheiro o inimigo que intimamente se comprazia com a derrota do vencedor. Via em cada novo a incompreenso, 
a hostilidade.
        Descobriu ento o lar. A esposa e os filhos. Anatlio iniciava os estudos.
         O privilegiado! O de sorte!
        Eram os irmos mais velhos que viam, com certo despeito, a infncia mais ordenada e mais feliz do irmozinho menor.
        Anatlio possua brinquedos com que haviam sonhado toda a vida. Tivera patinetes e cavalinhos de pau. Ganhara velocpede. E Campos Lara prometera - ele, 
que aos outros nem sequer prometera! - uma bicicleta.
         Caula  isso: o ai-dodi!
        Eles no sabiam que agora a maior tristeza de Campos Lara no era o esbarrondar da sua obra, mas a recordao da infncia dolorosa e humilhada que dera aos 
outros filhos.
        Mas no lar, que no soubera construir, sentia-se igualmente s. Os filhos s agora o viam de perto. Como um estranho. Quase como um intruso. Para as meninas, 
era o estorvo. Controlando os estudos, vigiando os namoros, sindicando as companhias, dando ganja ao caula, o verdadeiro senhor da casa, cheio de luxos e vontades.
        Joozinho, srio, grave, calado, no tinha expanses. Era um rapazola quieto e fechado, metido com a sua vida, sempre longe de casa.
        E Campos Lara procurava auscultar, com ntimo temor, o corao e as tendncias do filho. Mas o rapazola no falava. No se abria. Maria Rosa, agora confiante 
e companheira - os dois comungavam nas mesmas apreenses - ficava com ele horas perdidas, a pensar no futuro do menino. Joozinho seria sempre o menino.
         Ele falou em entrar para Direito.
         Mas por que voc no disse, Maria Rosa, que seria melhor Engenharia? Ele tinha tanto jeito para a matemtica, no se lembra?
        Era medo inconfessado de que o Direito, o papelrio, o palavrrio o desviasse da vida prtica, o encaminhasse para a literatura. Uma carreira mais objetiva, 
mais imediata, cheia tambm de beleza, apelando tambm para o esprito criador, afastaria todo o possvel germe do mal.
        Um dia Campos Lara penetrou no quarto do filho, encontrado casualmente aberto. Ele mesmo o limpava, tinha-o sempre fechado. Foi ver, ansioso, os livros que 
se amontoavam na mesa e na pequena estante que ele mesmo contrura. (Ah! por que no se fazia engenheiro?)
        L estavam muitos dos seus livros. Alguns volumes estrangeiros, de poesia e de literatura. Mas o grosso da sua biblioteca incipiente era constitudo por 
livros estranhos, brochuras sobre ideologias modernas, panfletos de propaganda. Mocidade! Mocidade! Ah! os seus vinte anos, quando Eliseu Reclus, Malatesta, Jaurs, 
Proudhon e o famoso Manifesto procuravam cham-lo para o campo da luta!
        Mas aquilo o tranqilizou. Joozinho revelava, nas suas leituras, uma inquietao diferente. Eram os problemas sociais. Era a questo social. Estava no seu 
direito e no seu dever. E a questo social talvez no fosse uma questo de literatura.
        
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        Campos Lara notou, nos olhos ensombrados, sonhadores, do filho, que o rapaz o procurava. Tinha qualquer necessidade de desabafo. Alegrou-se. O filho chegava-se. 
No quis ser indiscreto. No perguntou. Esperou. Os dias foram passando. Joozinho s vezes sentava-se ao seu lado, no escritrio, a palavra afogada na garganta.
        O pai via os olhos tristes do filho, contava as espinhas no seu rosto. Era amor. Com certeza era amor. Estava na idade. E esperava a confidencia.
        Uma tarde, o rapaz se atreveu.
         Papai, eu estava querendo falar com o senhor.
         Fale, meu filho.
        Decerto ia pedir licena para casar-se. Que loucura! Naquela idade... Mas o menino hesitava. Afinal, criou coragem. E contou que estava escrevendo umas coisas. 
No sabia se prestavam, se tinha jeito. No queria fazer papel ridculo. Estava h muito para lhe falar. Queria a sua opinio franca. Estava disposto a ver a bobagem?
        Campos Lara empalideceu. 
         Estava.
        E muito vermelho, trmulo, o rapaz lhe estendeu uma folha. Era um poema. O pai sentiu uma turvao na vista, percebeu que o corao lhe batucava no peito. 
Correu os olhos pelo poema, versos livres, linguagem nova, imagens febris, uma revelao inquietante de poeta, voltado para os problemas que eram a angstia da sua 
gerao.
        Seu filho era poeta. Um arrepio de orgulho e de emoo percorreu-lhe a pele. Afinal de contas, tinha sido aquele o seu sonho toda a vida. Um filho que o 
perpetuasse, que valesse por si, que lhe continuasse a obra. E teve o impulso de abra-lo. Sentiu que os seus olhos se enublavam de lgrimas. Lembrou-se, porm, 
de sua vida. Dos anos de luta, de sonho, de tormento e de agonia criadora. Da vida rdua, humilde, sacrificada e dolorosa que vivera. Da existncia que dera  famlia, 
dominado pelo seu devotamento exclusivo  arte. Da vida que dera ao prprio filho. Era essa, a vida que ele tinha diante de si. Que teriam os filhos de seu filho. 
E que seria talvez pior, porque no era somente a arte a cham-lo. Outras insdias e outros desenganos o esperavam.
         Prestam? Continuo?
        Campos Lara sorriu. E batendo um cigarro, o pensamento melanclico no vazio da vida, ficou olhando o filho, sem achar resposta.
        
        
        
        
        
        
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PRMIO ANTNIO DE ALCNTARA MACHADO (1939)

(Discurso pronunciado pelo escritor Cndido Mota Filho, na sesso de 4 de setembro de 1939 da Academia Paulista de Letras, quando foi conferido a O feijo e o sonho 
o prmio Antnio de Alcntara Machado.)

        O prmio que a Academia Paulista vos entrega, neste instante, senhor Orgenes Lessa, tem, para ela, valor singular e incomparvel. Quiseram os fados e, com 
eles, os mritos do vosso trabalho, que essa distino vos fosse oferecida, num gesto inaugural de alegria e de saudade.
        A Academia Paulista de Letras, ao comemorar seu trigsimo aniversrio, coloca, entre seus melhores ttulos, o de poder, afinal, distribuir um prmio de animao 
literria, graas ao ato superiormente belo da famlia Alcntara Machado. E, assim, exerce, pela primeira vez, agradecida e jubilosa, de forma clara, um dos pontos 
primordiais de seu progresso cultural.
        Premiando vosso livro, escolhendo-o dentre obras dignas de louvor, procurou a Academia, atravs de uma unanimidade que significa verdadeiro estilo de conduta, 
fazer-vos justia e, obedecendo a seus prprios desgnios, observar, com rigorosa fidelidade, os desejos daqueles que instituram o prmio Antnio de Alcntara Machado.
        Ele recaiu em um livro que nos impressiona por suas qualidades invulgares, na composio sem artifcio, larga e natural; no estilo cuidadoso, lmpido e fascinante; 
no tema focalizado, dramaticamente humano e profundamente sentido.
        No so, por isso tudo, escusadas e suprfluas estas minhas palavras, em nome da Comisso Julgadora.
        Decidindo, como decidiu, sentiu-se satisfeita com as prprias dificuldades que encontrou, amadurecendo sua deciso, ao tomar conhecimento de muitas obras 
de valia, que, mais uma vez, comprovaram como a terra paulista  farta em coisas do esprito e sensvel aos esforos da inteligncia.
        Que emoo, para ns, senhor Orgenes Lessa, ao premiar-vos, evocando, numa linda festa de esprito, o nome de Antnio de Alcntara Machado! Por certo que 
dele sempre nos lembramos, com uma profunda saudade, inexprimvel como toda saudade! Mas, agora, ela toma aspecto inesperado, pela presente convergncia de situao 
e de valores, dando-nos a impresso de que o nosso Antnio est convivendo conosco a plenitude das emoes desta noite. Um dia ele escreveu, com certa melancolia 
em face dos cruis mal-entendidos da vida: Quero dizer muito, no sei dizer nada.
        A Academia Paulista de Letras felicita-vos, compenetrada desse sentimento misterioso dos processos artsticos, sinceramente convencida de que cumpriu um 
dever.
        Louvando o vosso belo livro, principalmente pelo que tem de permanente e renovador, ela se sente, com isso, disposta a prosseguir em seu programa, estimulando 
os novos valores, aplaudindo todas as nobres iniciativas que possam enriquecer o patrimnio intelectual de nossa terra e concorrer par o aprimoramento, cada vez 
maior, de sua cultura.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     


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1 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e 
tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em nosso grupo.

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